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'Visão Noturna' desfia trama dos sonhos em contos irregulares

Tobias Carvalho, de 'As Coisas', traz narrativas abismais de força notável, mas que às vezes esquecem o básico

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Luís Augusto Fischer

Professor de literatura na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e autor, entre outros livros, de "Literatura Brasileira - Modos de Usar" (L&PM) e "Duas Formações, Uma História" (Arquipélago). Lançará no próximo ano um estudo que descreve o processo de consagração do modernismo paulista, pela Todavia

Visão Noturna

  • Preço R$ 54,90 (112 págs.); R$ 34,90 (ebook)
  • Autor Tobias Carvalho
  • Editora Todavia

"E quando finalmente parecia que tudo iria se encaixar (...), a história continuava indo em direção ao passado, ou então se propulsionava para um futuro (...), sem que nenhuma gaveta fosse fechada."

A frase é parte do relato sobre uma personagem contadora de histórias sonhada por outra, que, por sua vez, é sonhada pelo narrador do primeiro conto de "Visão Noturna", livro de contos de Tobias Carvalho. A sonhada que sonha é Matylda, nome confundido com Maja, uma polonesa com quem o sonhador-narrador, um brasileiro, vai tentar se encontrar na vida por assim dizer real.

Não vamos saber se de fato o encontro se deu, mas isso é o de menos. Hábil manipulador, Tobias Carvalho faz o leitor flutuar entre os planos com destreza, praticando o que já se chamou de "mise en abyme", marca da narrativa pós-moderna que se poderia chamar de abismal.

O autor não levanta bandeiras, não quer inventar nova moda. Só nos joga nesses abismos, mediante uma mesma questão, ou melhor, dimensão —o sonho.

Os quatro contos do livro entram e saem de sonhos, discutem, recuperam, analisam, interpretam sonhos. Em certo sentido, os quatro praticam aquele mandamento de abrir sucessivas gavetas, sem se preocupar em fechar essas gavetas, como trataria de fazer uma narrativa não abismal. E esse laço dá ao conjunto do livro uma força notável.

Mas não são iguais em força imaginativa e ficcional os quatro. A rigor, os dois primeiros são excelentes, ao passo que os dois seguintes desperdiçam a energia que mobilizam. Os motivos dessa diferença não são fáceis de enunciar.

Verdade que os quatro contos são de leitura fluente e de certa dimensão são igualmente interessantes, porque capturam o leitor nessa sanha de abrir gavetas e ir desfiando tramas, algumas mais rarefeitas —como o primeiro conto, em que um sujeito aprende a controlar sua capacidade de sonhar e com isso aprofunda relações num mesmo universo onírico, como se fosse visitante contumaz de uma mesma cidade.

Os outros três têm mais chão realista, sobre o qual erguem os edifícios imateriais do sonho, assim como do desejo e da memória. O segundo mergulha eficazmente num universo trágico —acidente de queimadura com crianças— e se encerra no plano da realidade das personagens.

Mas o terceiro —numa trama artificialmente complexa e relativamente anódina levada por personagens não convincentes— e o quarto —concebido segundo uma psicologia mais ou menos apelativa, em que os pontos de inflexão ocorrem mediante desvelamentos súbitos e decisões inesperadas, com personagens também frágeis— ficam bem aquém dos dois primeiros.

Gavetas podem se abrir quase indefinidamente, certo. Mas nem por isso o leitor deixa de querer o básico do relato ficcional —personagem convincente, verdade emocional, encontro de subjetividades.

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