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Cinema Oscar

Tapa de Will Smith mostrou que os astros são gente como a gente

Ator bateu em Chris Rock e chorou minutos depois, escancarando sua fragilidade e o estresse pandêmico

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A noite ia bem, o que é sempre difícil de prever, ainda mais num ano com tantas mudanças. O trio de apresentadoras estava tirando risadas fáceis da plateia, as performances musicais davam uma bela animada e todos pareciam ter esquecido a Covid em sua celebração do cinema. Até que Will Smith subiu ao palco do Oscar e relembrou que não, a pandemia ainda não acabou.

Na verdade, à medida que saímos dela, mostramos que estamos com os ânimos mais exaltados e a paciência mais curta. Isso ficou claro quando Smith mergulhou a palma da mão na bochecha de Chris Rock, que estava prestes a anunciar um dos prêmios da noite.

Will Smith dá um tapa em Chris Rock durante o Oscar - Robyn Beck/AFP

Isso foi depois de o ator ouvir uma piada de extremo mau gosto, que primeiramente o fez rir. Mas sua mulher, Jada Pinkett Smith, ao seu lado, revirou os olhos em claro descontentamento, já que sua alopecia, uma condição que provoca queda de cabelo, era o motivo do comentário.

Parecia que o esquete havia acabado, com a câmera de volta ao palco, até que Chris Rock, o piadista, anunciou que Smith estava vindo em sua direção. Rindo, achando que aquilo fazia parte da graça, levou, então, o tapão na cara. De volta ao seu lugar, Smith, que venceu o Oscar minutos depois, gritou "tire o nome da minha mulher da sua boca", com alguns palavrões no meio.

Daí em diante, a noite de festa e o clima de descontração mudaram profundamente. Demorou um tempo até convidados e espectadores entenderem que não, aquilo não estava no roteiro da cerimônia, e o desconforto reinou, tirando o brilho de qualquer um que vencesse algum Oscar na sequência.

Os discursos que vieram depois até tentaram reverter a derrocada, mas já era tarde demais. Uma agressão televisionada para milhões de pessoas, na festa mais glamorosa do entretenimento, afinal, não é algo que se esquece facilmente.

Quem subiu ao palco a partir daí evitou mencionar diretamente o incidente, mas mandou mensagens sobre a importância da paz, da união e essas coisas todas que, esperávamos, marcariam uma cerimônia pós-Covid, em meio a uma guerra na Europa e na esteira de protestos contra um dos maiores estúdios de Hollywood, a Disney, por patrocinar legisladores que aprovaram uma lei homofóbica no estado americano da Flórida.

Triunfou o estresse gerado por meses de quarentena, narizes abafados por máscaras e um noticiário que só põe as pessoas para baixo. Os famosos também sofreram com os efeitos da pandemia, mesmo que do alto de suas mansões em Malibu, afinal. É difícil pensar em alguém que não tenha vivido uma explosão de raiva ou tristeza nos últimos dois anos, como foi o caso de Smith ou de Miley Cyrus, que em passagem pelo Brasil no Lollapalooza, chorou, atacou de casamenteira, deu tapas no bumbum de Anitta e buscou apoio dos fãs no Twitter.

Na internet, as pessoas se dividiram –mas penderam para o lado do ator, tomando as dores de quem foi agredido primeiro, mesmo que não fisicamente. Uma reação teatral de Nicole Kidman, de queixo caído em determinado ponto da noite, viralizou como que para ilustrar a resposta que todos nós tivemos à briga.

Se no Brasil estamos vendo reclamações sobre a atual edição do Big Brother Brasil e do marasmo provocado por um elenco mais paz e amor, parece óbvio imaginar que um tapa na cara como o que ocorreu no Oscar levantaria os ânimos como uma final de Copa do Mundo. O público gosta de polêmica e lágrimas, elementos presentes em abundância nos roteiros de Hollywood.

Nesse contexto pós-pandêmico, em que a paciência anda curta e os nervos de todos parecem estar à flor da pele, o ator incorporou toda a frustração reprimida dos meros mortais –e, se você tende a rechaçar piadinhas feitas às custas de minorias, o momento da agressão foi ainda mais catártico, um tapa literal e metafórico na cara de quem ainda acha bacana fazer troça com a dor dos outros.

Nicole Kidman em momento da cerimônia do Oscar, em imagem que viralizou após tapa de Will Smith - Robyn Beck/AFP

Importante notar que, apesar de Smith ter sido o que mais se ofendeu, o comentário foi feito por um homem com o intuito de zombar de uma mulher negra, justamente por sua aparência.

Mas, para além da agressividade e do desconforto da coisa, o tapa voou nas redes sociais porque mostrou que celebridades são gente como a gente. Elas também se enfurecem, choram e perdem a linha –como todo mundo faz vez ou outra. Talvez não a ponto de esmurrar uma pessoa, afinal, mais violência não deveria ser a resposta à violência.

O descontrole de alguém tão lendário quanto Will Smith, justamente na noite em que ele venceu o Oscar, um dos prêmios mais respeitados e cobiçados do mundo, do qual bilhões de pessoas sabem que jamais chegarão perto, fez com que ele descesse do Olimpo.

Não há nada mais humano do que as lágrimas que derramou mais tarde, num momento de fragilidade mundana, enquanto agradecia à Academia pelo prêmio e pedia desculpas. Todos erram, até gigantes como Will Smith. Mas, como todos, agora será preciso lidar com as consequências desses erros.

Parece improvável que a Academia vá retirar seu Oscar, mas uma investigação formal foi aberta nesta segunda para avaliar possíveis punições —uma suspensão temporária de sua carteirinha de membro, perdendo, assim, o direito de votar no Oscar, é mais plausível. Chris Rock, por sua vez, já disse que não prestará queixas.

Independentemente do que for decidido oficialmente, Smith vai sentir o peso de seu tapa por um bom tempo. Sua história em Hollywood e seu legado terão, já nos primeiros capítulos, a menção ao caso, à frente de qualquer grande atuação ou até mesmo da vitória no Oscar. No futuro, lembraremos a cerimônia pelo constrangimento gerado na nata do cinema, e não pelo prêmio do protagonista de "King Richard: Criando Campeãs".

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