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Stephen King, em 'Conto de Fadas', professa fé na fantasia sem se esforçar

Autor não busca ser exatamente original, mas é difícil resistir ao arroz com feijão muito bem temperado de seu novo livro

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Conto de Fadas

  • Preço R$ 94,90 (624 págs.); R$ 49,90 (ebook)
  • Autor Stephen King
  • Editora Suma
  • Tradução Regiane Winarski

Stephen King não faz absolutamente nenhum esforço para ser original em "Conto de Fadas", seu mais recente romance. E, por incrível que pareça, dentro da lógica que o escritor americano estabelece para a narrativa, a abordagem não é sinal de preguiça ou inépcia, mas uma tocante profissão de fé no poder da fantasia.

Ilustração de capa de "Conto de Fadas", livro de Stephen King
Ilustração de capa de "Conto de Fadas", livro de Stephen King - Divulgação

É claro que King não tirou essa profissão de fé do nada. Não é exagero dizer que, desde pelo menos os anos 1950, alguns dos maiores best-sellers de língua inglesa nasceram da decisão de recriar os contos de fadas para o público moderno –a lista inclui J.R.R. Tolkien, C.S. Lewis, Ursula K. Le Guin e Neil Gaiman, entre muitos outros.

Ainda que o autor de "It: A Coisa" não tenha a mesma sofisticação literária de alguns dos membros dessa lista, é difícil resistir ao arroz com feijão muito bem temperado de sua trama, ou à voz narrativa peculiar do protagonista, o adolescente Charlie Reade, de 17 anos.

Morador de uma cidadezinha do Meio-Oeste americano, não muito longe de Chicago, Charlie leva, de início, uma vida quase completamente prosaica ao lado do pai. Os dois superaram o trauma da morte da mãe do garoto num acidente, alguns anos antes, e Charlie parece prestes a conseguir uma vaga numa universidade de prestígio.

Essa rotina pacata é alterada quando um vizinho deles, o idoso e recluso Howard Bowditch, sofre fraturas graves nas pernas ao cair da escada em seu quintal. Charlie é o primeiro a socorrer Bowditch e se torna o cuidador do vizinho e de seu bicho de estimação, uma fêmea de pastor alemão já velhinha chamada Radar.

Com esse começo, as expectativas do leitor são habilmente manobradas para que ele acredite estar diante de um daqueles dramas açucarados que povoam a TV no fim de ano. "Amizade improvável entre jovem e idoso faz com que os dois entendam o sentido da vida", diria a sinopse do filme. Bem, mais ou menos.

Ocorre que a fama sinistra da casa do velho entre a vizinhança acaba se revelando justificada. Bowditch não apenas esconde uma fortuna em pelotas de ouro como também um barracão que contém a entrada para um outro mundo, conforme Charlie descobre quando seu novo amigo morre.

Os segredos não terminam aí, porém. Em uma gravação que fez pouco antes de morrer, Bowditch conta que essa realidade paralela abriga um relógio solar capaz de rejuvenescer os seres vivos –foi isso o que permitiu que ele vivesse até os 120 anos mantendo uma aparência muito mais jovem. Para salvar a vida da cadela Radar, a quem ele se afeiçoou e que também está muito doente, Charlie se dispõe a visitar esse outro mundo.

É nesse ponto que a história sofre uma guinada decisiva –aliás, de inspiração platônica, que lembra muitos elementos de "As Crônicas de Nárnia", de C.S. Lewis. E se todos os contos de fadas que conhecemos na Terra, narrados pelas mais diferentes culturas, não passassem, no fundo, de ecos de histórias reais que estão se desenrolando o tempo todo em outro mundo? E se todos fôssemos essencialmente criaturas feitas de histórias, capazes de intuir a verdade essencial por trás de cada lenda ou mito?

É mais ou menos isso o que Charlie e Radar descobrem ao adentrar o reino de Empis, uma região em que belas sereias, anões malevolentes —como o célebre Rumpelstiltskin dos contos dos irmãos Grimm—, gigantes e outras criaturas mágicas são reais.

Aqui, King não tem medo de ser eclético em suas referências. Além dos irmãos Grimm e do mundo de Nárnia, "O Mágico de Oz" e as narrativas de horror cósmico de H.P. Lovecraft trazem elementos importantes para retratar a mistura de familiaridade e tremenda estranheza que caracteriza aquele mundo.

O Mal com M maiúsculo que está contaminando os habitantes de Empis tem os elementos que nos acostumamos a ver no Sauron de "O Senhor dos Anéis", no Darth Vader de "Star Wars" – ou em qualquer grande monstro da ficção científica que tende a enxergar os seres humanos como só mais um tipo de carne a ser consumida.

Charlie, que é só um garoto comum de 17 anos, no máximo um pouco mais atlético do que a média, de repente se vê na posição normalmente ocupada pelos príncipes heroicos das antigas histórias. E é sua generosidade inicial, sua incapacidade de ficar de braços cruzados enquanto crueldades e injustiças acontecem, que devagar o transformam num príncipe de verdade –inclusive fisicamente.

Decerto, é uma visão simplista de como a realidade funciona, mas não se pode negar o refrigério trazido por uma história tão isenta de cinismo quanto essa. Como alguém já disse, contos de fadas não são verdadeiros por dizerem que dragões existem, mas sim porque dizem que eles podem ser derrotados.

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