Aos 82, Jean-Claude Bernardet põe-se à prova como ator, diretor e escritor

Um dos críticos de cinema mais respeitados do país, ele relança livro de ensaios e dirige peça pela primeira vez

bernardet deitado na varanda

O crítico de cinema Jean-Claude Bernardet em seu apartamento no edifício Copan, em São Paulo Karime Xavier/Folhapress

Naief Haddad

[RESUMO]Crítico de cinema, Jean-Claude Bernardet colocou-se à prova como ator na última década, após início da perda de visão em decorrência do HIV. Aos 82, prepara peça, filmes e relança livro de ensaios.

 

Depois de uma série de retratos em que Jean-Claude Bernardet, 82, aparece deitado na cama do seu quarto, a fotógrafa Karime Xavier pede a ele que se posicione sobre o brise do seu apartamento, no 30º andar do edifício Copan, no centro de São Paulo.

Na verdade, ela não pede. Sugere, meio sem jeito, desconfiada de que haja risco em se apoiar numa daquelas placas que formam ondas na fachada do prédio desenhado por Oscar Niemeyer. Para a alegria da fotógrafa, Bernardet não titubeia, como se pode ver na imagem desta página. “Não tenho medo de altura”, afirma.

Primogênito de uma família francesa, Jean-Claude Georges René Bernardet nasceu em 1936 na Bélgica, país onde seu pai trabalhava na época. Chegou a São Paulo na adolescência e se naturalizou brasileiro em 1964. Naquele momento, era um crítico de cinema em ascensão, sob a influência de Paulo Emílio Sales Gomes (1916-1977).

Nas décadas seguintes, Bernardet colocou-se à prova em diversas atividades, confirmando sua atração pelo risco, ora como acadêmico, ora como artista.

Foi professor da UnB (Universidade de Brasília) e depois da USP —nesta última, consolidou-se como um dos principais teóricos de cinema do país. Lançou livros que se tornaram referências na área, como “Brasil em Tempo de Cinema” (1967) e “Cineastas e Imagens do Povo” (1985). Escreveu dezenas de roteiros para filmes, entre os quais “O Caso dos Irmãos Naves” (1967) e “Um Céu de Estrelas” (1996). Dirigiu produções como “São Paulo - Sinfonia e Cacofonia” (1994) e “Sobre Anos 60” (1999).

Bernardet não orbitou apenas em torno do cinema. Escreveu livros que embaralham ficção e autobiografia, “Aquele Rapaz” (1990) e “A Doença, uma Experiência” (1996), com relatos de sua vivência como portador do HIV.

No ano passado, voltou a pisar terreno desconhecido ao dirigir pela primeira vez um espetáculo teatral. Assumiu a função em parceria com Rubens Rewald na peça “A Procura de Emprego”, de autoria do francês Michel Vinaver.

Não foi fácil. Quando chegaram para o primeiro ensaio, os atores viram no palco marcações detalhadas feitas por Bernardet. “Fui absolutamente rechaçado [pelos atores]. Não poderia ser tudo tão marcado daquela forma”, lembra. “Mas as diretrizes são necessárias.” A peça entrou em cartaz no Sesc Santo Amaro, em São Paulo.

Por conta dessa trajetória de trânsito permanente, considera-se um “artista descentrado”, expressão que cita na entrevista à Folha ao se lembrar de uma antiga conversa com Arthur Omar, cujas criações se dão em meios como a fotografia, o cinema, as artes plásticas e a música.

Os meados dos anos 2000 são emblemáticos para a compreensão dessa inquietude irrefreável de Bernardet. Depois de se aposentar como professor titular da ECA (Escola de Comunicações e Artes) da USP, em 2005, começou a perder a visão em decorrência do HIV. Para alguém como ele, leitor e cinéfilo em graus extremos, a limitação contribuiu fortemente para um estado depressivo.

Foi nessa época que o diretor Kiko Goifman convidou Bernardet para atuar em “FilmeFobia” (2008). Não era sua primeira vez em frente às câmeras. “O crítico não pode ser apenas aquele que fica sentado na sala de projeção, por isso apareci em diversos filmes desde os anos 1960. As informações sobre o ato de filmar enriquecem a nossa sensibilidade.”

Bernardet, porém, jamais havia assumido papel tão extenso. No filme de Goifman, vive um diretor que prepara um documentário sobre situações-limite e se dedica a registrar os instantes em que pessoas fóbicas enfrentam seus medos mais terríveis. 

“A única imagem verdadeira é a de um fóbico diante de sua fobia”, diz, mais de uma vez, o personagem.
Havia algumas cenas de fácil execução, ele se recorda. Outras nem tanto, como as passagens em que os integrantes do filme dentro do filme discutiam em volta de uma mesa. O personagem de Bernardet precisava defender suas opiniões com clareza, mas era constantemente interrompido pelos demais. Não bastasse isso, estavam todos alcoolizados —para essas cenas, os atores eram convidados a beber no set. As doses de uísque foram mais um entrave para a articulação dos diálogos.

Lançado há uma década, “FilmeFobia” mostra Bernardet senhor da situação —não há sinais de insegurança. No mais, ainda que se conheça seu atrevimento criativo, não deixa de ser surpreendente que um intelectual prestigiado como ele tenha embarcado em uma das produções mais experimentais e incômodas do cinema brasileiro recente.

Bernardet “tinha uma dedicação absurda”, conta Goifman. “Em uma cena que foi cortada do filme, ele desceu com uma corda em um poço de 7 metros, cheio de bichos. Eu jamais teria coragem. Ele topava tudo.” 

“Foi o início de uma nova trajetória”, diz o crítico-ator, evento decisivo para arrancá-lo da depressão.
“Se você quer entender o cinema brasileiro, é incontornável se debruçar sobre os livros e as reflexões que ele [Bernardet] produziu”, diz uma voz em off no início de “A Destruição de Bernardet” (2016). Dirigido por Claudia Priscilla e Pedro Marques, o filme não demarca limites entre a realidade e a ficção, como acontece, aliás, em “FilmeFobia”.

A voz em off, que ostenta uma autoridade crítica em tom de farsa, continua: “Porém, de uns tempos pra cá, ele abriu mão de ser um pensador. Resolveu investir na carreira de ator. Ora, como, na sua velhice, sem nenhum instrumento de atuação, resolve se denominar ator?”.

Embora essa voz não seja dele, o sarcasmo do comentário é estimulado pelo próprio Bernardet. Ainda que tenha participado de pelo menos dez longas na última década, não se considera um ator profissional. “Não interpreto personagens, não tenho técnica nem competência. O que faço está mais associado à performance”, diz.

Não é, porém, o que acontece em longas como “Antes do Fim” (2018). Nesse filme de Cristiano Burlan, um personagem efetivamente se constitui, um homem velho que planeja a própria morte.

Bernardet e os diretores com quem trabalha se perguntam a cada filme: como definir um ator de cinema neste século 21? Ainda faz sentido preservar classificações como “ficção” e “documentário”?

Em 1994, o então professor da USP cultivava outras indagações. Naquele ano, lançou “O Autor no Cinema”. Fora de catálogo há tempos, a obra volta agora às livrarias por iniciativa das Edições Sesc.
Quando soube do interesse pela reedição, Bernardet chamou o jovem crítico Francis Vogner dos Reis para que escrevesse o prefácio ou o posfácio. Entusiasmado com o convite, Reis se alongou nas reflexões e acabou se tornando coautor da obra. 

O livro está dividido em três partes. Em cada uma delas, um ensaio de Bernardet é sucedido por um texto de Reis. Na primeira parte, “Domínio Francês - Anos 50”, ele discorre sobre a política dos autores, uma proposta dos críticos da revista Cahiers du Cinéma. Entre eles, estavam Jean-Luc Godard, François Truffaut, Claude Chabrol e Eric Rohmer, que mais tarde se tornariam diretores de renome.

Grosso modo, só pode ser considerado um autor, segundo os franceses, aquele diretor cuja obra se sustenta em uma viga-mestra. Em um ensaio sobre Alfred Hitchcock (1899-1980), Chabrol e Rohmer apontam a “culpabilidade intercambiável” como uma espécie de ideia-mãe dos filmes do cineasta inglês. “O trabalho do crítico consiste em evidenciar essa matriz”, escreve Bernardet, que não esconde ao longo do ensaio seu ceticismo em relação a essa proposta.

Na segunda seção, “Domínio Brasileiro - Anos 50 e 60”, ele mostra como a política dos autores foi bem recebida por críticos como Walter Hugo Khouri (1929-2003), que mais tarde se dedicou à direção, e rechaçada por outros, como Paulo Emílio Sales Gomes, que via no método “um narcisismo da crítica”, impotente para lidar com as rupturas de uma filmografia.

Por fim, em “O Declínio do Autor”, Bernardet expõe o descrédito em que a proposta caiu a partir de 1968, com o fortalecimento do cinema militante e a influência crescente dos pensadores do chamado anti-humanismo, como Michel Foucault e Roland Barthes. “O que o conceito [de autor] ganhou em extensão, perdeu em profundidade”, diz Bernardet.

Na orelha do livro, o professor da USP Carlos Augusto Calil descreve a obra como “uma tese [desenvolvida por Bernardet] acompanhada de sua crítica [a cargo de Reis]”. Na verdade, o diálogo entre os críticos de diferentes gerações suplanta essa dualidade mais convencional. Reis analisa as conclusões de Bernardet, aponta ressalvas eventualmente, mas desenvolve seus próprios percursos, alguns deles extremamente originais.

Um exemplo está nas reflexões de Reis sobre “O Amuleto de Ogum” (1974) e “Na Estrada da Vida” (1981), filmes até então tidos como secundários na carreira de Nelson Pereira dos Santos (1928-2018). O crítico os eleva a um novo patamar.

Um derrame no olho direito deixou Bernardet praticamente cego desse lado. A visão do olho esquerdo está comprometida por uma degradação da retina.

“A dificuldade que tenho para a leitura é monumental”, ele conta, sempre acompanhado de uma lupa potente. Apesar da limitação, continua lendo muito.

Incapaz de acompanhar as legendas dos filmes, tem ido ao cinema apenas para ver as produções brasileiras. Também consegue assistir aos longas franceses, mas se interessa cada vez menos por eles.
Bernardet mantém, contudo, a nitidez das análises. Da produção nacional dos últimos anos, gostou especialmente de “Boi Neon” (2015), de Gabriel Mascaro. “No cinema dele, a representação do corpo é importantíssima. Mascaro desarticulou os clichês”, avalia.

Presente na última edição do Fest Aruanda, em novembro de 2018, em João Pessoa (PB), ele ficou muito bem impressionado com “Azougue Nazaré”, do pernambucano Tiago Melo. “É um filme de uma visceralidade que não temos visto no cinema do Sudeste”, comenta. Também gostou de “Seu Amor de Volta (Mesmo que Ele Não Queira)”, do paraibano Bertrand Lira.

O entusiasmo com alguns filmes recentes não implica uma avaliação positiva da produção brasileira contemporânea de modo geral. “Dias atrás, eu comentava com a Paula Gaitán [cineasta e diretora de arte] como o cinema brasileiro está morno.”

As ressalvas vão além de questões de ordem estética. Para Bernardet, é ruim que os cineastas brasileiros dependam tanto do Estado e dos seus editais, uma opinião que o leva, muitas vezes, a ser mal recebido nas discussões sobre a produção de cinema no Brasil. Essa visão contribuiu para que se aproximasse de Cristiano Burlan, diretor gaúcho radicado em São Paulo com quem já filmou “Hamlet” (2014), “Fome” (2015), “Antes do Fim” (2018).

“Tenho amigos diretores que estão sem filmar há cinco anos. Cristiano não tem essa mentalidade, é um espírito livre. Faz filmes sem edital, vai atrás de locações que custam pouco. De certa forma, o comportamento dele é crítico em relação à maioria dos cineastas no Brasil”.

Bernardet e Burlan trabalham agora na adaptação para o teatro do livro “A Doença, uma Experiência”. Leituras dramáticas com alguns atores já foram realizadas. Além disso, devem retomar logo a parceria no cinema.

Em meio à preparação de novos projetos, Bernardet acompanha com atenção a política do país. “Não acho que Jair Bolsonaro (PSL) seja o demônio e o PT, santinho. É bom lembrar que o Mangabeira Unger deixou o governo petista dizendo que não se fazem cidadãos pelo consumo”, afirma ele, leitor do professor de filosofia e colunista da Folha Vladimir Safatle.

Nada parece preocupá-lo mais neste novo governo do que a possibilidade de implantação do projeto Escola sem Partido, “um problema cultural infinitamente mais grave para o país do que se vai ter ou não edital”.

Bernardet conta que há quem o associe à extrema esquerda, mas ele não se acomoda nesse rótulo —nem em outros que a vida na academia e no cinema lhe impingiram. “Sou realmente um cidadão inquieto”. 


Naief Haddad é jornalista da Folha.

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