Filmes clássicos se perdem por mudança de formato e descaso de estúdios

Aparecimento de novos suportes e baixo investimento em preservação transformaram cinéfilos em arqueólogos

Ilustração de Gustavo Pergoli para a capa da Ilustríssima sobre como novas plataformas e desinteresse comercial ameaçam preservação de filmes antigos.

Ilustração Gustavo Pergoli

Ieda Marcondes

[RESUMO]  Além das mudanças de formato e do alto custo para restaurar filmes antigos, clássicos se perdem entre o desinteresse de estúdios e a força dos serviços de streaming.

 

Cerca de 75% dos filmes mudos, realizados em um período de pioneirismo e rápido desenvolvimento técnico, foram perdidos, segundo estimativa da Biblioteca do Congresso dos EUA. Embora em menor escala, a perda de clássicos do século 20 continua a ocorrer —diante da mudança de tecnologia e do recente domínio das plataformas de streaming.

Na última década do século 19 e nas três primeiras do século 20, poucos acreditavam que as obras feitas naquela época poderiam ou deveriam ser preservadas —e, assim, a maior parte das produções da era silenciosa foi descartada ou abandonada, suscetível à guerra e ao tempo. O Japão, por exemplo, perdeu 95% de seus filmes mudos, destruídos em desastres naturais ou bombardeios.

Com o alto custo dos processos de restauração e masterização, sempre que há um salto tecnológico de um formato para outro —isto é, do VHS para o DVD, do DVD para o arquivo digital e, agora, do arquivo digital para o acesso via streaming— de 15% a 20% dos filmes disponíveis são deixados para trás, sem um suporte atualizado, de acordo com Jan-Christopher Horak, diretor do Arquivo de Filme e Televisão da Universidade da Califórnia, em Los Angeles.

Ilustração de Gustavo Pergoli para a capa da Ilustríssima sobre como novas plataformas e desinteresse comercial ameaçam preservação de filmes antigos.
Ilustração de capa - Gustavo Pergoli

Para tentar reduzir essa perda, a Biblioteca do Congresso dos EUA anunciou, em setembro, a criação de uma plataforma gratuita para preservar obras de domínio público (que ficam disponíveis também para streaming e download).

O acervo inclui, além de obras de ficção, filmes caseiros dos compositores George e Ira Gershwin, um dia na vida de Thomas Edison e diversos registros históricos do cotidiano americano, como uma das primeiras paradas gays do país, realizada em 1968. Há mais de 1 milhão de itens catalogados, e quase 300 vídeos já foram publicados no site, que deverá ser atualizado mensalmente.

Para Mike Mashon, curador do departamento responsável pela National Screening Room (ou “sala de projeção nacional”), o intuito desse projeto é “enriquecer a educação, o espírito acadêmico e a aprendizagem contínua”. 

Nem todos, contudo, partilham do mesmo entusiasmo pela preservação e difusão da história audiovisual. Proprietária de um dos maiores acervos de filmes clássicos e alternativos, a Warner anunciou o cancelamento do FilmStruck, um serviço de streaming com as principais obras de mestres como John Ford (1894-1973), François Truffaut (1932-1984), Federico Fellini (1920-1993) e Yasujiro Ozu (1903-1963) —e alguns títulos que não estão disponíveis em outras mídias.

Criado em novembro de 2016 (e disponibilizado apenas nos Estados Unidos), o FilmStruck surgiu como um oásis para cinéfilos e estudantes que, em especial na transição entre mídia física e formatos digitais, já não tinham acesso fácil a filmes antigos e clássicos.

Com uma mensalidade de pouco mais de US$ 10 ao mês e um acervo de 2.000 títulos no qual estava incluída a Criterion Collection —selo sob o qual são restaurados e distribuídos grandes clássicos do cinema mundial—, a plataforma também oferecia gêneros específicos como “clássicos do terror japonês” e curadorias especiais para mulheres e LGBTs. 

No lançamento da refilmagem de “Nasce uma Estrela” (2018), por exemplo, o site disponibilizou todas as três versões anteriores do filme —de 1937, 1954 e 1976. 

Quando veio o anúncio do encerramento do serviço, com a justificativa de falta de assinantes, em outubro de 2018, personalidades como Guillermo del Toro e Barbra Streisand pediram aos fãs que assinassem uma petição online pela sobrevivência do FilmStruck. Conseguiram pouco mais de 50 mil assinaturas.

Recém-adquirida pelo conglomerado multinacional da AT&T, também dona dos canais HBO e Cinemax, a Warner planejava desativar serviços “de nicho” para, por meio de uma megaplataforma (prevista para entrar no ar neste ano), concorrer com a chegada da Disney Plus, que reunirá as franquias da Marvel e de “Star Wars”, além das produções da Pixar e da própria Disney.

Com o receio de que o catálogo do FilmStruck não fosse bem recebido na futura WarnerMedia, já que a tendência dos grandes canais de streaming é oferecer conteúdo original (com pouco ou nenhum espaço para produções de mais de 30 anos de idade), os artistas protestaram.

Uma carta assinada por figuras como Paul Thomas Anderson, Christopher Nolan, Leonardo DiCaprio e muitos outros foi enviada a Toby Emmerich, presidente da Warner. 

“Em uma indústria que pode render bilhões de dólares, acreditamos que esse gesto seja necessário —uma minúscula demonstração de boa vontade com a preservação e a difusão de uma história rica que vai beneficiar o público”, dizia a carta. Steven Spielberg e Martin Scorsese também já haviam entrado em contato com o CEO da WarnerMedia, John Stankey, para que a empresa mantivesse o FilmStruck.

No fim das contas, a plataforma não foi salva —encerrou as operações no final de novembro. Mas a Warner fez uma concessão e anunciou a criação do Criterion Channel, que deve conter a maior parte do acervo do FilmStruck: “O Criterion Channel vai continuar de onde o serviço antigo parou, dando destaque para atores e diretores, exibindo os maiores clássicos, além de raridades do mundo todo, com comentários, cenas dos bastidores e documentários originais”.

A promessa é de que o novo canal também tenha curadoria especial feita por cineastas, acadêmicos e experts diversos. Ainda assim, críticos e jornalistas expressaram dúvidas em relação à disposição da empresa. “Parece bom, mas isso me cheira a jogada de marketing. A Warner demitiu toda a equipe de curadores do FilmStruck”, comentou Jacqueline Coley, editora do site Rotten Tomatoes. 

“Estou muito feliz pelo pessoal do Criterion e pelas pessoas que terão acesso ao seu catálogo, mas ainda estou triste por todos nós, que tornamos o FilmStruck tão mágico”, disse Marya E. Gates, que integrava a equipe da plataforma. Também não há resposta sobre o destino de títulos de distribuidoras menores, como Kino e Flicker Alley.

Enquanto o Criterion Channel não é lançado, obras clássicas ou filmes independentes podem ser encontrados no Kanopy, uma plataforma de streaming para usuários registrados das bibliotecas americanas. Com uma proposta diferente, o serviço Mubi disponibiliza 30 títulos todo mês. 

Já o Fandor, com um catálogo de 4.000 obras, ofereceu desconto aos órfãos do FilmStruck. “À medida que a tecnologia transforma a indústria da mídia e do entretenimento, há uma oportunidade enorme de criar acesso a esses filmes antigos”, declarou Chris Kelly, presidente do Fandor. “Acreditamos que há espaço no mercado para mais de um ponto de acesso.”

Para auxiliar nesse processo, há aplicativos, como o JustWatch, pelos quais cinéfilos conseguem localizar filmes online sem recorrer à pirataria —e, mesmo assim, não é fácil. 

Quem quiser, por exemplo, assistir à versão original de “Suspiria” (1977), antes da refilmagem recente com as atrizes Dakota Johnson e Tilda Swinton, tem duas opções: o Hoopla, que é também voltado aos usuários de bibliotecas, e o Tubi, plataforma gratuita, mas com anúncios. 

Já clássicos como “A Ilha das Almas Selvagens” (1932) ou “Anjos de Cara Suja” (1938) não são encontrados. Para Daniel Kasman, diretor de conteúdo do Mubi, a dispersão dificulta o acesso “a versões de boa qualidade do que os consumidores querem ver”.

Na corrida pelo interesse do consumidor —que deve se acirrar ainda mais com as chegadas de Warner, Disney e Apple ao mercado—, as plataformas de streaming apostam com força em conteúdo inédito e exclusivo. Empresas gigantes como Netflix, Amazon e Hulu gastam bilhões de dólares em séries minuciosamente projetadas para atrair legiões de assinantes.

Só com “Stranger Things”, a Netflix gastou US$ 6 milhões por episódio (na segunda temporada, o orçamento saltou para US$ 8 milhões). Com a oportunidade de concorrer em festivais, ganhar prêmios e seduzir mais consumidores, o conteúdo inédito é favorecido em detrimento de catálogos mais variados, que contemplem décadas e perspectivas diferentes.

Dada a extinção das videolocadoras e a iminente morte da mídia física, é possível que ocorra um novo blecaute do cinema, assim como houve com a produção do período mudo —e, desta vez, não será culpa de um tsunami ou de uma bomba atômica, mas do canibalismo catastrófico da indústria. 

O tom apocalíptico é resultado, sobretudo, da dicotomia entre a posse da mídia física e a aquisição do acesso ao conteúdo —isto é, entre o permanente e o revogável.

“Alguns amigos meus ficam perplexos, pois continuo comprando DVDs e Blu-rays”, comentou o cineasta britânico Edgar Wright após o cancelamento do FilmStruck. “Aí está o motivo: esses canais de streaming podem desaparecer num instante.”

O historiador e crítico Wheeler Winston Dixon foi ainda mais enfático ao declarar que o cinema do século 20 está sendo apagado: “Esses filmes desaparecem do olhar público porque não há como recomendá-los.”

As sucessivas mudanças de suporte, mais o desinteresse econômico dos estúdios em valorizar e divulgar os próprios acervos, transformaram cinéfilos e pesquisadores em arqueólogos, escavando os cantos da internet na tentativa de encontrar obras cada vez mais obscuras.

Sem a contínua preservação da memória, estamos fadados à ignorância. Afinal, não teríamos a ficção cinematográfica sem pioneiros como Georges Méliès. Sem ele, não haveria o cinema de gênero ou “2001 – Uma Odisseia no Espaço”. Mais do que isso, os filmes também servem para lembrar o que já passamos, quem somos e aonde podemos chegar —como seres humanos e também como sociedade— revelando as nossas identidades históricas, culturais e políticas.

“O streaming não chegou aos filmes de uma maneira integral. Acho importante a distribuição e a preservação nos suportes de discos, mas esses mercados estão minguando a olhos vistos”, comenta André Gatti, professor e pesquisador de audiovisual. “Os filmes brasileiros têm poucos leitos de preservação adequados, e o público não tem muito acesso a eles, pois raramente são exibidos pela televisão ou até mesmo em locais como cinematecas, cineclubes, museus e institutos culturais.” 

No Brasil, uma fração muito pequena das obras produzidas até 1930 sobreviveram —apenas 7% de mais de 4.000 filmes silenciosos.

“Da chamada Bela Época (1907-1911), o primeiro grande ciclo produtivo do cinema brasileiro, só temos notícias. A cópia mais antiga de um filme de ficção produzido por aqui é de ‘Os Óculos do Vovô’, de 1913”, afirma Gatti. “Trata-se de uma situação de terra arrasada. Os filmes brasileiros foram porcamente preservados, e mesmo assim apenas a partir da segunda metade do século 20. A Cinemateca Brasileira só conseguiu um arquivo climatizado em 2000.”

Com o maior arquivo de imagens em movimento da América Latina, a Cinemateca já enfrentou quatro incêndios —em 1957, 1969, 1982 e 2016. Na última vez, 731 de seus 44 mil títulos foram destruídos (270 não tinham cópias e foram perdidos).

De acordo com a equipe de preservação da instituição, o principal desafio é equacionar estratégias diversas de conservação e de difusão do acervo, o que requer investimentos constantes, tanto de recursos financeiros quanto de técnicos especializados. “Trabalhamos para preservar a produção audiovisual e promover o seu acesso. Não faz sentido guardar uma obra que ninguém pode acessar”, declara a instituição.

Os técnicos afirmam que, para a preservação a longo prazo, é necessário um processo de digitalização quadro a quadro (com pelo menos 2K de resolução), o que é substancialmente mais caro do que o telecine HD, método ideal para difusão, mas não para a conservação da obra.

“Os principais desafios são a atualização profissional, principalmente para a preservação digital, e a ausência de investimentos”, diz Patrícia Lira, coordenadora do Centro de Memória e Informação do Museu da Imagem e do Som, em São Paulo.

O presidente Jair Bolsonaro extinguiu o Ministério da Cultura, transformando-o numa secretaria sob a pasta da Cidadania, comandada por Osmar Terra. O descaso do governo com a cultura e o audiovisual, no entanto, não é novidade.

Com um orçamento que vinha diminuindo desde o primeiro governo Dilma, as despesas destinadas à cultura para o ano de 2018 foram de R$ 2,42 bilhões.

Na iniciativa privada abalada pelas novas tecnologias, as notícias não são muito melhores. À medida que os consumidores brasileiros aderem ao streaming, a mídia física e as lojas que faziam parte de sua indústria vão dando seus últimos suspiros —e, com elas, filmes que talvez sobrevivam apenas na memória de quem os viu.

Um estudo publicado pela Business Bureau mostrou que há 79 serviços de streaming em operação no país, totalizando mais de 72 mil filmes e quase 13 mil séries —a Netflix detém 18% do mercado. Em segundo lugar, com 4%, vem a Globo Play. Os serviços da Amazon Prime Video, HBO Go, Fox+ e o novo YouTube Premium, lançado no final do ano passado no Brasil, também se concentram em produções originais.

Mas surgem serviços nacionais voltados também às produções de outras épocas. A partir de R$ 12,90 ao mês, a Oldflix oferece um acervo inteiramente composto por produções anteriores a 1990, como “Casablanca” (1942) e o seriado “Jornada nas Estrelas” (1966-1969), ainda que instável e com catálogo limitado.

“Percebi que há um grande público que gostaria de consumir filmes e série antigas, mas que não tinha um lugar para fazer isso”, disse o sócio-fundador Manoel Ramalho no lançamento da plataforma.

Criado pelas sócias Célia Regina Queiroz e Renata Vicente, o Looke também aposta na deficiência dos grandes serviços de streaming em oferecer obras mais variadas. “Vemos um momento de especialização dos serviços. A Netflix está se direcionando para a distribuição de conteúdo próprio, então temos recebido muitos pedidos de títulos que parecem indisponíveis”, diz Luiz Guimarães, diretor de negócios do site.

Nos EUA, o caso do FilmStruck mostra que os grandes conglomerados só aceitarão a missão de preservar e difundir a história do cinema se houver mobilização do público e da classe artística, já que não há interesse financeiro na empreitada.

Sem o respeito pela história do cinema e um acesso descomplicado aos clássicos, não é possível inspirar novas gerações de cineastas —e, assim, a produção se esgota. Por aqui, o cinema brasileiro segue se escorando em produtos televisivos para espectadores já acostumados, há tempos, à falta de diversidade. 

Cópias físicas ainda são redescobertas, enquanto digitais fogem do ‘delete’

Em 2011, a Cinemateca Francesa descobriu uma cópia incompleta, em nitrato de celulose (material extremamente inflamável), da primeira adaptação de “Robinson Crusoé”, concebida em 1902 por Georges Méliès (1861-1938). Em 2016, outra obra do cineasta —guardada havia décadas com a identificação errada— foi encontrada no Arquivo Nacional de Cinema da República Tcheca.

Autor do famoso filme “Viagem à Lua” (1902), Méliès foi pioneiro ao reconhecer o potencial narrativo do cinema, utilizando alguns dos primeiros efeitos especiais para retratar histórias fantásticas (muitas vezes coloridas à mão, quadro a quadro).

O documentário “Saving Brinton” (2017, sem distribuição no Brasil) trata de uma coleção de 130 filmes em nitrato —incluindo dois títulos de Méliès até então considerados perdidos— encontrada em um porão de Washington, cidade com menos de 8.000 habitantes no estado americano de Iowa. 

A coleção conta também com slides, catálogos, panfletos e cartazes originais. Apesar de mais de um século de garimpo em cinematecas e arquivos diversos do mundo todo, menos da metade dos 520 filmes produzidos por Méliès entre os anos de 1896 e 1912 foram resgatados.

Caso sejam encontradas, as películas ainda têm de passar por um complexo (e caro) processo de restauração, antes de serem copiadas em outros suportes ou exibidas ao público. Há poucos anos, a Technicolor restaurou uma cópia rara de “Viagem à Lua”. Com frames ausentes e negativos danificados, o procedimento levou algumas semanas.

“Nem sempre temos acesso ao material todo”, diz Bill Cole, vice-presidente do setor de restauração e masterização da Technicolor. “Às vezes, temos de combinar elementos para obter o melhor resultado possível, mesmo quando o material está caindo aos pedaços.”

Se as cópias físicas precisam passar por complicados processos de restauração depois de redescobertas, os títulos online não se encontram em situação muito melhor. Ao contrário de uma coleção bem preservada de rolos de nitrato, até a irrisória seção de clássicos dos grandes serviços de streaming pode sumir, a depender das decisões das empresas.

Se uma plataforma qualquer deixa de oferecer acesso a um título que não existe mais em outro formato, a obra desaparece de circulação e não há como resgatá-la em algum porão do Iowa. 


Ieda Marcondes, pós-graduada em jornalismo cultural, é crítica de cinema.

Ilustrações de Gustavo Pergoli, designer gráfico e ilustrador.

Erramos: o texto foi alterado

As despesas destinadas ao Ministério da Cultura em 2018 foram de R$ 2,42 bilhões, e não de R$ 2,66 milhões, como informado anteriormente.

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