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Milton Nascimento conserta os erros da humanidade, diz Hamilton de Holanda

Bandolinista conta por que o álbum 'Angelus', do cantor mineiro, marcou sua vida

Hamilton de Holanda

Conheci o álbum “Angelus” em 1999 através de um querido amigo, Daniel Santiago, grande músico e compositor muito ligado a Minas Gerais, na época em que morávamos em Brasília. Tínhamos, junto com Rogério Caetano, um conjunto chamado Brasília Brasil. Ouvíamos muitos discos juntos, e ele apresentou esse para nós —na época, um CD. E eu fiquei encantado.

A obra de Milton Nascimento é toda magnífica, mas esse disco me pegou, primeiro por algumas faixas, depois aprendi a curti-lo inteiro.

A gravação de “Clube da Esquina nº 2” é a definitiva. Tem um solo de Milton, em voz e violão, em que ele usa notas diferentes, que não fazem parte daquela escala e daqueles acordes. Dá uma amplitude encantadora. E é um álbum repleto de grandes participações: o pianista Herbie Hancock faz um solo em “Vera Cruz” que é uma coisa sensacional.

Esse disco conserta os erros da humanidade. Sublima-os. Sabe-se que o erro é algo que vai acontecer com o ser humano, inevitavelmente, mas quando se ouve uma obra dessas, dá para acreditar na nossa capacidade de repará-los. De acertar mais no sentido da solidariedade, do amor.

milton e hamilton
Milton Nascimento (esq.) e Hamilton de Holanda em gravação do disco ‘Casa de Bituca’ (2017), em Juiz de Fora (MG)  - Rafaê

Milton me revelou esse sentimento com uma clareza absoluta, mas, desde que eu era pequeno, meu pai sempre me falou: “Filho, fazendo música, você sempre vai ter amigos na vida”. O ensinamento de que a música une as pessoas sempre ecoou bastante em mim.

Diferentes pensamentos, locais, culturas podem se juntar ao redor de uma melodia e fazer daquele um momento em que vale a pena estar no planeta. Quando descobri que as pessoas saíam de casa para ouvir meu bandolim, passei a pensar diariamente em maneiras de espalhar esse amor.

Eu percebi, com “Angelus” (1994), que Milton é um representante desse tipo de ser humano, o que agrega, abraça, pacifica. É desse jeito naturalmente, dá para notar convivendo com ele. Sua música, seus timbres e acordes multiplicam essa qualidade.

Conheci-o em Brasília, em 2008, numa época em que eu já não morava na cidade. A ocasião foi um concerto com a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro —eu faria uma parte do show com faixas que compus para a orquestra, depois ele entraria, e ao final nós faríamos duas ou três músicas. “Vera Cruz”, aliás, estava no repertório: era uma emoção enorme tocar algo que tinha ouvido tanto no “Angelus”.

Então eu toquei, saí do palco, o Bituca entrou. E não sei se fez de propósito ou se esqueceu, mas ele me chamou já na primeira música. Eu não tinha nem ensaiado, mas entrei na brincadeira, porque já conhecia bem as canções dele —lembro-me que uma delas era “Bola de Meia, Bola de Gude”. E acabei tocando o repertório inteiro com Milton. Foi o prêmio de uma vida. 

E, no final, a gente riu junto. Ele comentou: “Ah, eu esqueci, devia ter te chamado depois, mas acho que você tinha que ter entrado antes, mesmo…”.

Outra oportunidade inesquecível foi um projeto que fizemos em parceria, na época em que vieram para o Brasil os painéis “Guerra e Paz”, de Portinari, que ficam na ONU, em Nova York. Milton e o Hamilton de Holanda Quinteto —que também inclui Daniel Santiago, Gabriel Grossi, Marcio Bahia e André Vasconcellos— fizemos a abertura da exposição em diversas cidades.

Eu compus uma música com o mesmo nome dos painéis. Ele gravou comigo. Fiquei muito impressionado com a maneira como ele estuda a música —fez uma partitura muito própria, que só ele entendia, chegou ao estúdio com tudo debaixo do dedo e gravou de primeira.

Milton é representante de uma linhagem própria de música brasileira, que também é música do mundo. A obra dele dialoga com canções e culturas de toda parte.

Na época em que morei em Paris, de 2002 a 2003, “Angelus” foi uma das minhas principais ligações com o Brasil. Era um dos meus álbuns de cabeceira para me conectar com minha vida então distante. Eu estava lá em um frio danado, sem conhecer muita gente, não falava direito o francês, e ouvir o disco era uma conexão que me fazia muito bem.

Além de promover esse resgate, o álbum também servia para mostrar o país aos meus amigos. Acabei até deixando-o de presente para um grande amigo meu, Alex Cárdenas, um violinista venezuelano que mora na França há muitos anos.

O mundo ideal que imagino é aquele em que as fronteiras sirvam só para valorizar o que é local, de forma complementar com a valorização daquilo que é comum a todos. A música de Milton sempre me fez estar em contato com esse sentimento: de que eu tenho minha pátria e minha língua, mas existem outras também imensamente interessantes, e o que vale a pena é juntar tudo isso em um mundo só. 


Hamilton de Holanda, bandolinista e compositor vencedor do Grammy Latino, apresenta na terça (22) o show ‘Eu e Vocês’ no Theatro Net São Paulo.

Depoimento a Walter Porto.

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