Descrição de chapéu Perspectivas

Filmes premiados em Cannes modernizam tradições do cinema brasileiro

Enquanto 'Bacurau' é um 'nordestern' cangaceiro, 'Vida Invisível' remete a melodrama popular

Helen Beltrame-Linné

É verdade, como escreveu Ana Paula Sousa em artigo nesta Ilustríssima, que a presença brasileira no último Festival de Cannes foi a linha de chegada de políticas públicas iniciadas nos anos 1990. Mas o reconhecimento de filmes como “Bacurau” (prêmio do júri na mostra competitiva) e “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão” (melhor filme na seção paralela Um Certo Olhar) é também uma coroação da trajetória artística do audiovisual brasileiro.

“Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, não alcançou o feito de “O Pagador de Promessas” (1962), de Anselmo Duarte —único filme brasileiro laureado com a Palma de Ouro—, mas escapou do triste destino de “Crônica de um Industrial” (1978), de Luiz Rosemberg Filho —proibido pelo governo de concorrer em Cannes.

No atual ambiente do país, poderia ter sido diferente. “Bacurau” compartilha com o filme censurado de 1978 uma alta voltagem política: ambos exploram —de forma absolutamente diferente, que fique claro— um possível modo de combater os aspectos sistêmicos mais nefastos do mundo moderno. Se “Crônica” abre com uma citação de Godard (“Sempre o sangue, o medo, a política, o dinheiro”), bastaria trocar “medo” por “coragem” para usar a cartela em “Bacurau”.

O longa não levou a Palma deste ano, mas carrega o DNA histórico do filme premiado de Anselmo Duarte, com inegável filiação na linhagem pátria de filmes regionalistas que exportam uma faceta mais pitoresca do imaginário nacional.

Nesse sentido, é claro o aceno de Mendonça Filho e Dornelles a “O Cangaceiro” (1953), de Lima Barreto, primeiro filme brasileiro laureado em Cannes (com o já extinto prêmio de melhor filme de aventura), que inaugurou o chamado “nordestern” (western do cangaço) —termo, aliás, mais adequado para descrever “Bacurau” do que o “western tropical” adotado pela crítica.

“Bacurau” integra a tradição de filmes brasileiros “de raiz”, como “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” (1969), de Glauber Rocha —melhor diretor em Cannes— e “Como Era Gostoso o Meu Francês” (1971), de Nelson Pereira dos Santos —que, assim como Glauber, concorreu à Palma de Ouro três vezes—, ainda que deles se distancie de maneira radical.

Mendonça Filho construiu uma filmografia que não compartilha da visão pessimista que caracteriza o cinema novo, e “Bacurau” não deixa de ser uma reescrita do destino traçado no filme de Pereira dos Santos para o povoado invadido pelo estrangeiro dominador.

Se o longa escapa da receita de sucessos internacionais recentes como “Central do Brasil” (1998), “Cidade de Deus” (2002) e “Carandiru” (2003), focados na privação inerente ao cenário urbano contemporâneo, ele acomoda outras vertentes históricas do cinema nacional de exportação.

A presença de Sônia Braga faz ecoar sucessos como “O Beijo da Mulher Aranha” (1985) e mesmo o realismo fantástico de “Dona Flor e seus Dois Maridos” (1976). Como não pensar em Flor quando a personagem Teresa toma um psicotrópico na chegada ao vilarejo, dando um possível contorno alucinatório à história?

É justamente nesse aceno histórico que reside a complementaridade com “Vida Invisível”, longa-metragem que faz manobra similar com a entrada em cena de Fernanda Montenegro, a outra possível primeira-dama do audiovisual brasileiro. A presença de uma das pioneiras da televisão no Brasil remete àquela que é nossa maior tradição audiovisual: o melodrama.

O diretor Karim Aïnouz se vale do formato popular, de narrativa emocionalmente acessível, sem zombaria. Há um respeito pela tradição teledramatúrgica, mas também a ambição de modernizar o modelo, com doses de um realismo ousado, despido de pudor, e uma recusa em abrir mão da qualidade estética que caracteriza a filmografia do diretor.

Como escreveu um crítico internacional: “Ninguém aqui pode sofrer em silêncio, e muito menos na feiura”. Não há, pois, em “Vida Invisível”, qualquer economia nas imagens (tudo tem cor, textura, luz, névoa) e tampouco na carga emocional (não há personagens contidos ou palavras não ditas). Tudo se dilacera em cena, no melhor estilo Janete Clair (uma favorita do diretor, criadora de clássicos da TV brasileira como “Irmãos Coragem”, “Selva de Pedra” e “Pecado Capital”).

Essa vocação melodramática, contudo, resulta no tratamento de um tema político como o machismo pelo viés personalíssimo da história individual das duas protagonistas, fazendo do longa de Aïnouz uma espécie de antítese de “Bacurau”, um filme marcado por um claro distanciamento dos personagens.

Mal resumindo, “Bacurau” é um filme de autor “cabeça” tipo exportação, e “Vida Invisível”, um melodrama popular “televisivo”. Dois filmes absolutamente distintos e quase alienígenas entre si. E a premiação de ambos no Festival de Cannes é uma vitória não somente para as equipes das duas produções, mas para o próprio cinema brasileiro, pois coroa sua diversidade artística.


Helen Beltrame-Linné, roteirista, é graduada em cinema pela Universidade Sorbonne Nouvelle (Paris). Foi diretora da Fundação Bergmancenter (Suécia) e editora-adjunta da Ilustríssima.

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