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Lady Gaga me ensinou a nascer como escritora, diz Jarid Arraes

Convidada da Flip, escritora e cordelista fala sobre a importância das músicas da diva pop

Jarid Arraes

Sempre me fazem as mesmas perguntas. Minha trajetória, como comecei a escrever, como é isso de ser negra e escritora, por que, entre todas as outras estéticas literárias, escolhi também escrever cordel. Mas uma das perguntas mais frequentes é quais são as minhas influências.

Eu sempre respondo que a poesia vence todas as leituras, que cresci lendo Drummond, Leminski, Gullar, Augusto dos Anjos. Já falo até na ordem. No entanto, quando me perguntam —e sempre perguntam— qual é a minha maior influência como escritora, talvez quem eu queira ser quando crescer, eu não tenho nenhum escritor ou escritora para citar. Quem eu cito é Lady Gaga.

Pode parecer engraçado. Para muitos, pode soar como coisa menor. E achar menor, eu digo, é desconhecimento. Porque quando conheci Lady Gaga, há dez anos, me senti atingida por sua estranheza. E a estranheza sempre foi o primeiro flerte entre mim e a arte.

Naquele dia, ela estava dançando à beira da piscina com dois dogues alemães quase idênticos e dizia que não era possível ler sua “poker face”. Pouco tempo depois, em outro vídeo, ela aparecia com olhos gigantes, coluna vertebral protuberante, chorando numa banheira de maneira penosa e colocando fogo em homens que a tratavam como objeto sexual. Bizarra, inovadora e cantando “Bad Romance”, que está até hoje em um pedestal da música pop.

Eu sempre fui fascinada pelo disruptivo, pelo subversivo. Com formação musical baseada em blues, jazz, ópera e heavy metal, logo encontrei em Lady Gaga referências que uniam tudo isso. Nunca deixei de ficar abestada a cada vez que essa mulher aparecia cantando Led Zeppelin. E quem não a viu cantando junto com os Rolling Stones, Metallica ou ainda não ouviu seu álbum de jazz com Tony Bennett está perdendo experiências maravilhosas.

Na verdade, foi Gaga quem mais intensamente me mostrou a versatilidade. A cada era que revelava um novo álbum ao mundo, ela escrevia uma nova personagem. E essa personagem escrevia novas letras, que costuravam uma narrativa linear, a partir da primeira música, contando conceito de um álbum, mas também a história daquela personagem. A minha favorita e que mais me marcou foi a “Mother Monster” (mãe monstro), da era “Born This Way”.

O álbum foi (e ainda é) um fenômeno musical e político. Gaga se tornou a protagonista que, no clipe, dizia parir uma nova “raça” de seres humanos sem preconceitos e conhecedores da liberdade. A letra se tornou um hino LGBT e de autoaceitação racial e de origens. Assim como foi com todo o conceito de “Born This Way”, que trata de questões como imigração, feminismo, religião e a dualidade dos relacionamentos. 

E hoje há toda uma geração de adultos e adolescentes que agradece a Lady Gaga pela coragem despertada nessa era. Coragem para sair do armário, enfrentar a intolerância, procurar ajuda para lutar contra a depressão e o suicídio e também, que bom, buscar a expressão pela arte. 

Eu, que tinha 20 anos quando o álbum foi lançado, também posso agradecer por alguns pontos dessa lista. Como escritora, fui tomada pela esquisitice misturada a uma profunda doçura. Pelas letras destemidas que eram políticas, debochadas e metafóricas. Para mim, poesias tão arrebatadoras como as que aprendi a ler enquanto crescia. 

Entendi que toda arte é política, que colocamos, em nossas palavras e nas ações dos nossos personagens, o mundo que enxergamos e o mundo que desejamos. Fiz isso com meus cordéis e nunca mais parei de fazer. 

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A escritora Jarid Arraes, convidada da Flip 2019 - Divulgação

Agora, lançando meu novo livro, “Redemoinho em Dia Quente”, faço de espelho as muitas mulheres que Lady Gaga expressou em si mesma; buscando as mulheres do meu mundo, do Cariri onde nasci, da terra que me fez quem sou, da rebeldia que também ando flamulando na minha literatura. Sem medo de escrever coisas nem sempre bonitas. Comecei independente, afinal.

Como escritora, Gaga me ensinou a nascer. Essa coisa tantas vezes ansiosa e injusta. Essa coisa sentença. Inesperada. Que é palco. Nascer assim, sem medo de escrever cordel, depois poesia, depois contos, depois qualquer coisa que eu sinta vontade.

Sinto que nasço novamente com cada nova personagem de Lady Gaga. E espero ansiosamente o momento do meu nascimento, buscando pistas de como serão meus primeiros instantes de vida.

Do que vou me alimentar? Ela virá tenebrosa, entre couros e cabelos turquesa? Virá em tons pastéis e cantando sobre um garoto negro assassinado em frente à igreja? Virá vestida de Vênus, afirmando com toda certeza que cultura pop é arte finíssima e que vivemos mesmo é pelo aplauso? Espero pela vida que despejarei nas minhas próximas poesias, cordéis e livros.

Que sejam, na mão de cada leitor, como Gaga: toda vez uma coisa outra.


Jarid Arraes, escritora, lança seu primeiro livro de contos, “Redemoinho em Dia Quente” (Alfaguara), e participa da programação principal da Flip no sábado (13).

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