'O Continente', livro que inaugura a obra maior de Erico Verissimo, faz 70 anos

Pensada para ser um volume, saga acabou tendo sete; aniversário é celebrado em leitura com Tarcísio Meira em SP

Tarcísio Meira, como Capitão Rodrigo, e Louise Cardoso, como Bibiana, na gravação da minissérie 'O Tempo e o Vento', da Rede Globo; na foto em preto e branco, eles trajam roupas de época, Tarcísio tem um grande bigode e usa uniforme de combatente da Guerra dos Farrapos; Louise com um vestido de mangas e cabelo com tranças enroladas sobre as orelhas olha para ele, bem mais alto que ela; ambos sorriem; ao fundo há uma grande árvore e uma casa de pedra
Tarcísio Meira, como Capitão Rodrigo, e Louise Cardoso, como Bibiana, na gravação da minissérie 'O Tempo e o Vento', da Rede Globo. - Divulgação
Fernando Granato

Insuportável, o cheiro de peixe frito invadia, por um pequeno basculante, o ambiente onde o romancista trabalhava no livro que vinha escrevendo. Tinha começado em uma mesa na sala de jantar de sua casa, no arborizado bairro de Petrópolis, em Porto Alegre, antes de passar a usar aquele cômodo no escritório das Edições da Livraria do Globo, voltada para os fundos de um restaurante.

A obra se chamaria “A Caravana”, conforme indicam seus primeiros esboços, de 1941, feitos numa caderneta de bolso. De cor parda, com escritos à mão, a caderneta mostra a estrutura original do projeto, formado por oito capítulos: “A Fonte”, “O Punhal”, “O Vento e o Tempo”, “O Caudilho”, “A Teiniaguá”, “A Guerra”, “O Sobrado” e “A Torre”.

Pensada durante mais de dez anos e elaborada em dois, a obra foi finalmente lançada ao mercado editorial em 1949, com o título “O Continente”, primeira parte da trilogia “O Tempo e o Vento”. Nesses 70 anos, tornou-se leitura obrigatória e referência para a compreensão da história do Brasil dos séculos 18, 19 e 20.

"O Tempo e o Vento", de Erico Verissimo (1905-75), parte das missões jesuíticas (1745) e vai até o fim do Estado Novo (1945), por meio da história da família Terra Cambará.

Em uma conferência, em 1939, o escritor já falava do desejo de escrever a sua saga: “Achava-me eu [...] com firme tenção de começar a escrever um massudo romance cíclico que teria o nome de ‘Caravana’.

Seria um trabalho repousado, lento e denso, a abranger 200 anos da vida do Rio Grande. Começaria numa missão jesuítica em 1740 e terminaria em 1940”.

Apesar de ter nascido no interior gaúcho, em Cruz Alta, Erico Verissimo teve pouco contato com o mundo rural. Aos 15 anos foi estudar num colégio interno em Porto Alegre e, mesmo tendo voltado depois a viver na sua cidade de origem, nunca foi dado à vida campeira.

Na hora em que cogitou escrever a história de seu povo, talvez influenciado pela comemoração do primeiro centenário da Guerra dos Farrapos, em 1935, faltou-lhe conhecimento do jargão gauchesco. Conhecia a história do Rio Grande do Sul apenas pelos livros, não por vivência. 

“Concluí então que a verdade sobre o passado do Rio Grande devia ser mais viva e bela que a sua mitologia”, escreveria Erico no autobiográfico “Solo de Clarineta”, de 1973. “E quanto mais examinava a nossa História, mais convencido ficava da necessidade de desmitificá-la.”

O escritor foi buscar então inspiração em figuras da própria família, como o tio Tancredo que, “na sua rudeza, no seu prosaísmo, na sua simplicidade elementar, representava a vida rural”. Quando percebeu que os elementos para a elaboração do projeto que queria estavam dentro de suas próprias memórias, o romancista entrou num processo de excitação intelectual. 

“Foi assim que, sem saber nem querer, meu tio Tancredo me deu a chave com que abri a porta do sobrado dos Terra Cambará. E então, como acontece sempre que um trabalho num romance me empolga, comecei a arder numa espécie de febre que me tornava alternadamente exaltado e deprimido.”

Na caderneta de bolso com o roteiro do livro, Erico desenha alguns de seus personagens e faz lembretes para a hora da escrita do romance.

“Trazer do passado uma família de pobres trabalhadores do campo. A mesma situação através de anos e anos: peões fiéis, soldados para morrer nas revoluções, capangas, eleitores. Mas sempre a miséria: analfabetismo, subalimentação, má saúde.”

Em outra página da caderneta, ele define o estilo e o número de linhas de cada capítulo: “A Fonte: um conto longo: o Punhal: idem. Ambos num total de 20 pgs. O Vento e o Tempo: outro longo conto: melhor, uma noveleta de 50 pgs.”. 

Os outros capítulos teriam, respectivamente, 120 páginas (“O Caudilho”), 50 páginas (“Teiniaguá”), 60 páginas (“A Guerra”), 200 páginas (“O Sobrado”), 50 páginas (“A Torre”).

A ideia original do escritor era reunir os 200 anos de história num único volume. Mas, à medida que o projeto deslanchou, percebeu que isso não seria possível. O trabalho terminou se estendendo ao longo dos 15 seguintes anos de sua vida —e sete tomos.

A  primeira parte da história (“O Continente”), ocupou dois volumes, bem como a segunda (“O Retrato”); a terceira (“O Arquipélago”) teve três.

“O Continente” apresenta capítulos com começo, meio e fim, estruturados como contos ou novelas, com fechamento individual para cada história, o que permite que cada um deles seja lido separadamente.  

Hoje arquivada com todo acervo do escritor no Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro, a caderneta que traz o roteiro dessa parte inicial estabelece o tom dramático que deveriam ter os capítulos.

“As primeiras partes devem ser concentradas. Estilo narrativo. Fatos: aventura. Loose chapters [capítulos soltos]. Panoramas. Poesia. Sensação do deserto. Da vastidão, da solitude, das asperezas do nada e ao mesmo tempo da doçura do céu.”

Além da parte ficcional, a caderneta permite acompanhar o processo de pesquisa histórica empreendido pelo autor para compor seu romance, entremeando os acontecimentos da família com eventos reais.

No capítulo “A Fonte”, por exemplo, enquanto narra o nascimento e infância do personagem Pedro, Verissimo insere a história da guerra missioneira e da ocupação portuguesa na região. Em “Ana Terra”, fala da mocidade da protagonista e do relacionamento com Pedro. Em paralelo, descreve a imigração paulista para o sul e como o coronelismo afetou aquela região.

No capítulo “Um Certo Capitão Rodrigo”, o escritor misturou as aventuras pessoais do personagem com as Guerras Cisplatinas —conflitos entre Brasil e Províncias Unidas do Rio da Prata—, dados da imigração alemã e a Guerra dos Farrapos. 

 
O enredo segue ainda tendo como pano de fundo a Guerra do Paraguai, as campanhas abolicionistas e a Revolução Federalista, que pretendia assegurar autonomia ao poder local do Rio Grande do Sul contra a recém-proclamada República.

Na visão de Luis Fernando Verissimo, filho de Erico, que seguiu o ofício do pai e tem mais de 60 títulos publicados, “O Tempo e o Vento” é muito mais do que um romance regionalista. “É uma história romanceada do Rio Grande do Sul, mas, antes de tudo, um romance histórico com enfoque muito moderno. E isso era uma novidade na literatura brasileira daquela época.”

Luis Fernando era um adolescente quando seu pai estava escrevendo “O Tempo e o Vento” e guardou na memória detalhes daquela época, do embrião à realização do projeto. “Desde a gênese, eu, com 13 anos, fui testemunha, lendo as páginas que saíam ainda quentes da máquina”, conta. “Ele escrevia com rapidez, deixando bastante espaço entre as linhas para fazer as correções e emendas, que ele mesmo copiava.”

A casa dos Verissimos em Porto Alegre passou por uma reforma nos anos em que Erico escrevia o romance. Ele montou seu escritório num porão, onde passou a trabalhar.  

Erico Verissimo, retratado em 1951, quando trabalhava em 'O Tempo e o Vento'; na foto em preto e branco, vemos o escritor, um homem grisalho com a testa ampla, ficando calvo, e grossas sobrancelhas; ele veste uma roupa grossa de flanela xadrez e está sentado a uma poltrona, trabalhando na máquina de escrever que tem sobre as pernas
Erico Verissimo, retratado em 1951, quando trabalhava em 'O Tempo e o Vento' - Folhapress

“Sua rotina mudou, e ele começou a escrever no que chamava de sua toca”, recorda Luis Fernando. “No fim do dia, o pai levava o que tinha escrito para parte de cima da casa e fazia as correções apoiando o manuscrito numa tábua atravessada sobre os braços de uma poltrona.”

Luis Fernando lembra que a tábua usada para as correções ficava coberta de desenhos de personagens, mapas fictícios e abstrações que o pai usava para compor a história. “Depois ele presenteava os amigos com esses desenhos. Deve haver vários desses quadros espalhados por aí.”

Quando terminava o trabalho, Erico gostava de receber visitas e ouvir música. “Ouvia Bach, Brahms, Villa-Lobos e muitas vezes brincava de maestro, regendo orquestras imaginárias”, conta o filho.

Em “Solo de Clarineta”, o próprio Erico forneceu mais detalhes sobre a composição de “O Tempo e o Vento”. “Levei dois anos para escrever o primeiro volume, usando ou repelindo notas que se me haviam acumulado nas gavetas desde 1939”, escreveu.

Quando estava trabalhando no último terço do livro, teve uma “pane no motor”, como depois contaria na sua autobiografia: “Passei quase seis meses sem poder escrever uma linha sequer, o que me deixou agoniado”. Foram dois anos com vários distúrbios gástricos, angústias, “momentos de depressão alternados com acessos de euforia”.

O resultado dessa odisseia literária chegou às livrarias em 1949 e logo foi aclamado pela crítica como uma das mais importantes obras da literatura brasileira. A história dos Terra Cambará atravessou fronteiras e foi bater em portas inimagináveis —no caso, a do autor de uma das sagas familiares mais celebradas da literatura universal.

Em conversa com o roteirista Doc Comparato, recordada no prefácio de “Me Alugo para Sonhar”, Gabriel García Márquez revelaria a importância de Erico Verissimo para a composição de sua obra mais famosa.
“‘O Tempo e o Vento’ foi um dos três livros que estudei para escrever ‘Cem Anos de Solidão’”, disse o escritor colombiano, segundo o registro feito por Comparato. “Verissimo foi genial ao manejar a saga de uma família através dos tempos.” 

70 anos de ‘O Continente’

  • Quando Segunda (9), às 19h
  • Onde Teatro Eva Herz, Livraria Cultura do Conjunto Nacional, av. Paulista, 2.073
  • Preço Grátis (retirada de ingressos uma hora antes)

Jornalista e escritor, é autor de ‘O Negro da Chibata’ (Objetiva) e ‘Nas Trilhas de Quixote’ (Record)

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