Livro de ensaios diplomáticos revela a rara lucidez de Eça de Queiroz

'Ecos do Mundo' reúne artigos da carreira internacional do autor de 'A Cidade e as Serras'

Marcelo O. Dantas

[RESUMO] Novo volume reúne artigos da carreira diplomática de Eça de Queiroz, revelando um ensaísmo de rara lucidez quanto às convulsões mundiais nas últimas décadas do século 19.

Os homens e mulheres letrados de nosso país, cansados de tanto sofrer por serem gauches na vida, sentem-se há tempos espremidos entre o pneumotórax e o tango argentino. O quadro terminal com que se depara essa espécie ameaçada é realmente desalentador. Bastam cinco minutos de consulta a um punhado de contas oficiais no Twitter para constatar o iminente desaparecimento de toda forma de vida inteligente no Brasil.

Mas eis que enfim nossa brava gente ilustrada tem um motivo para celebrar: o lançamento do livro “Ecos do Mundo” (ed. Carambaia), volume que reúne 39 artigos dedicados a temas internacionais, escritos nas três últimas décadas do século 19 pelo insuperável Eça de Queiroz.

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Caricatura do escritor português Eça de Queiroz - Reprodução

Muitas gerações de brasileiros aprenderam a saborear o gênio fulgurante, a prosa inventiva e a fina ironia do Eça romancista, autor de alguns dos maiores clássicos da literatura em língua portuguesa, a exemplo de “O Primo Basílio”, “A Cidade e as Serras”, “A Ilustre Casa de Ramires” e “Os Maias”. 

Poucos, no entanto, foram os que tiveram a oportunidade de conhecer o Eça globalizado, ensaísta de rara lucidez na análise das transformações por que passava o mundo durante o conturbado período que o historiador Eric Hobsbawm mais tarde chamaria de a era dos impérios.

Em 1872, quando contava 26 anos, Eça de Queiroz ingressou na carreira diplomática. De imediato, o promissor homem de letras, egresso das fileiras de Coimbra, foi nomeado cônsul de primeira classe e enviado para representação portuguesa em Havana. Nos anos seguintes, tendo-se distanciado do meio literário português, Eça amadureceu com elegância, tornando-se verdadeiramente um intelectual cosmopolita. 

Visitou diversos países, conheceu de perto a ebulição econômica dos Estados Unidos e teve a oportunidade de viver por prolongados períodos nas duas principais potências imperiais europeias: Inglaterra e França.

A partir desses postos privilegiados de observação, enquanto carimbava passaportes, escrevia relatórios alentados e concebia seus inesquecíveis contos e romances, Eça encontrou tempo livre para atuar como correspondente no estrangeiro das publicações Revista de Portugal, Gazeta de Notícias, Actualidade e Revista Moderna. Contemporâneo de figuras como Otto von Bismarck, Jules Ferry, Vittorio Emanuele 2º, conde de Cavour e Alexandre 3º da Rússia, Eça buscou refletir em seus artigos sobre os grandes temas da época, sempre com lucidez e perspicácia.

São invariavelmente textos brilhantes, nos quais a urgência jornalística vem mesclada a uma notável aptidão para a análise das forças históricas em movimento. No ensaio “Lord Beaconsfield”, publicado em 1881, por ocasião da morte de Benjamin Disraeli, o mais poderoso primeiro-ministro da Inglaterra vitoriana, Eça comenta:

“A sua assombrosa popularidade parece-me provir de duas causas: a primeira é a sua ideia (que inspirou toda a sua política) de que a Inglaterra deveria ser a potência dominante do mundo, uma espécie de Império Romano, alargando constantemente as suas colônias, apossando-se dos continentes bárbaros e ‘britanizando’ os continentes bárbaros, reinando em todos os mercados, decidindo com o peso da sua espada a paz ou a guerra do mundo, impondo as suas instituições, a sua língua, as suas maneiras, a sua arte, tendo por sonho um orbe terráqueo que fosse todo ele um Império Britânico, rolando em ritmo através do espaço.”

Ao contrário de tantos outros diplomatas escritores, cujo traço mais acentuado costuma ser a obsessão por suas próprias aventuras no estrangeiro, Queiroz pouco interesse tem em falar de si mesmo. Prefere antes explicar a seus leitores o que se passa no vasto e conturbado mundo de sua época: o intricado xadrez das potências europeias, as mudanças inevitáveis na China e no Japão, as violentas disputas imperiais no continente africano e as desventuras das novas repúblicas americanas.

Um dos melhores momentos do livro é o ensaio “A guerra russo-turca”, no qual discorre sobre o embate com sabor de titanomaquia entre o decadente Império Otomano e a igualmente autocrática Rússia czarista. Ao comentar um insucesso militar russo, o escritor desabafa:

“Num país em que nada depende do mérito, e tudo depende da posição do nascimento, o resultado é este: em lugar de dar o comando a um estratégico, dá-se a um grão-duque idiota, porque é grão-duque. Em lugar de confiar a administração a uma inteligência, confia-se a um príncipe, porque é príncipe. O grão-duque é batido sempre e o príncipe desorganiza tudo. É lógico. [...] O russo é já bastante instruído para saber perfeitamente que vive sob um regime odioso. As conspirações repetidas, que de tempos em tempos vêm abortar nas mãos da polícia, são explosões impacientes e extemporâneas dum forte sentimento, que trabalha surdamente a massa da nação.”

O grande mérito da edição agora lançada pela Carambaia é reunir, em um único volume, com excelente texto introdutório, oportunas notas explicativas e criteriosa separação temática, os melhores artigos de Eça sobre a cena internacional nas últimas décadas do século 19.

Mais do que um valioso registro histórico, encontramos um espírito iluminista em sua mais perfeita tradução: um observador de mente arguta e cultura enciclopédica, postado na encruzilhada dos tempos. Tendo deixado para trás o entusiasmo jacobino da juventude, processa tanto o realismo quanto os sentimentos utópicos de sua época com invejável sensatez. 

No ensaio “Positivismo e idealismo”, publicado em 1893, delicia o leitor com seus comentários divertidos sobre os ânimos apaixonados dos estudantes de Paris, para em seguida concluir, com ponderação e equilíbrio:

“Nunca mais ninguém, é certo, tendo fixo sobre si o olho rutilante e irônico da ciência, ousará acreditar que das feridas que o cilício abria sobre o corpo de São Francisco de Assis brotavam rosas de divina fragrância. Mas também nunca mais ninguém, com medo da ciência e das repreensões da fisiologia, duvidará em ir respirar, pela imaginação, e se for possível colher, as rosas brotadas do sangue do santo incomparável. E isso é para nós, fazedores de prosa ou de verso, um positivo lucro e um grande alívio.”

Os comentários impressionam pela atualidade e persistência de alguns temas. No contundente “Os anarquistas”, escrito em 1894, ele condena tanto a violência fanática dos grupos radicais quanto a dura repressão levada adiante pelos governos europeus, que acabava por transformar revolucionários em mártires.

Embora muito tenha a ensinar, o autor evita as tentações da bola de cristal. Nas raras vezes em que se aventura nesse campo, os resultados são pouco satisfatórios. Em “A revolução do Brasil”, por exemplo, Eça analisa com maestria, em dezembro de 1889, o somatório de fatores que levou à queda do Império brasileiro. Seu palpite fatalista sobre a eventual desagregação do país com o advento da República apenas mostra, no entanto, que é mais fácil entender o passado do que prever o futuro.

Após ressaltar as fortes disparidades regionais e sociais existentes no Brasil, Eça comete o equívoco de projetar sobre a jovem República a fragmentação ocorrida na América espanhola. Seu erro estava em ignorar a possibilidade de que outras forças políticas, nem sempre democráticas ou pacíficas, pudessem vir a desempenhar as funções de centralização administrativa e coesão social até então ligadas à figura do imperador.

Apesar desses eventuais tropeços, sua perspicácia, ligada a um profundo sentido de justiça, o tornam por vezes genuinamente profético, como em “A perseguição dos judeus”, publicado 53 anos antes da chegada dos nazistas ao poder:

“Que em 1880, na sábia e tolerante Alemanha, depois de Hegel, de Kant e de Schopenhauer, com os professores Strauss e Hartmann vivos e trabalhando, se recomece uma campanha contra o judeu, o matador de Jesus, como se o imperador Maximiliano estivesse ainda, do seu acampamento de Pádua, decretando a destruição da lei rabínica, e ainda pregasse em Colônia o furioso Grão-de-Pimenta, geral dos dominicanos, é fato para ficar de boca aberta todo um longo dia de verão. Porque enfim, sob formas civilizadas e constitucionais [...] é realmente a uma perseguição de judeus que vamos assistir, das boas, das antigas, das manuelinas, quando se deitavam à mesma fogueira os livros do rabino e o próprio rabino, exterminando assim, economicamente, com o mesmo feixe de lenha, a doutrina e o doutor.”

Temos em “Ecos do Mundo” uma estupenda coleção de artigos, densos e bem escritos, cujas qualidades podem apenas ser resumidas no espaço de uma resenha. A conhecida ironia do autor reluz com intensidade no delicioso “Aos estudantes do Brasil”, em que faz pilhéria da vaidade mitômana da atriz Sarah Bernhardt. Já no ensaio “A propósito do Termidor” filosofa com maturidade sobre a passagem do tempo e a inevitável institucionalização de todo processo revolucionário:

“A revolução é como um violento corcel, que uma classe cavalga para se pôr em marcha, galopar espaços, saltar trincheiras, chegar depressa à posição que apetece —mas logo que chega e penetra, e se instala, tem de fazer como fazem todos os viajantes, que é recolher o corcel à cavalariça, única parte da habitação, de resto, onde ele poderá ficar sem desconforto e perigo de coice para os novos donos.”

Finda a leitura de “Ecos do Mundo”, poderá talvez o leitor concluir que pouco mudou desde a era dos impérios. O expansionismo russo ainda assusta a Europa ocidental. O Oriente Médio segue em permanente convulsão. As potências imperiais continuam a imperar. E marotas ideias sobre a internacionalização das florestas brasileiras novamente circulam por jornais europeus. Resta ao leitor sensato rezar aos céus para que não tenhamos diante de nós um novo século 20.

“Mundo, mundo, vasto mundo”, cantava Drummond, que trazia outro universo dentro de si. Com Eça é diferente: ele devora o vasto mundo e, prontamente, o traduz para cada um de nós. 


Marcelo O. Dantas, diplomata e escritor, é autor de “Podecrer!” (Novo Século, 2007).

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