Mostra de Rino Levi é didática, mas depende demais de vídeos

Arquiteto ajudou a tornar prédio e cidade indissociáveis e transformou a capital paulista

Quem visitar a “Ocupação Rino Levi” com certeza aprenderá muito sobre esse arquiteto paulistano, filho de italianos e formado em Roma.

Os principais aspectos que definem a importância de Levi (1901-65) no quadro da arquitetura moderna brasileira ficam claros mesmo para quem nada souber, de antemão, a respeito do autor de projetos tão variados como o teatro Cultura Artística e o hospital A.C. Camargo.

Levi fundou o primeiro escritório exclusivamente dedicado à arquitetura em São Paulo, no final da década de 1920; foi muito atuante na modernização e verticalização da cidade.

Projetou cinemas monumentais, como o Ufa-Palácio, hoje Art-Palácio, e casas intimistas, que incorporaram as áreas verdes aos ambientes internos; também foi autor de edifícios residenciais como o Columbus.

Além disso, foi importante para a definição e o exercício da profissão, participando ativamente do IAB em São Paulo, sendo coautor da sede da agremiação na rua Bento Freitas.

Sua formação italiana fomentou o entendimento de uma arquitetura integral, sem dissociar prédio e cidade. Por isso, como professor, Levi foi determinante para que as escolas no Brasil sejam de arquitetura e urbanismo, enquanto em outros países as disciplinas são ensinadas por separado, conforme explica Joana Mello, professora de história da arquitetura na FAU-USP e cocuradora da mostra, em um vídeo.

Ficamos sabendo ainda do amor do arquiteto pelas plantas —foi numa expedição para coletar bromélias que morreu— e de sua relação próxima com Burle Marx, seu parceiro em vários projetos, como a residência Castor Delgado Perez, que hoje abriga a Galeria Luciana Brito.

Adaptações como essa, aprendemos também, são possíveis graças ao fato de que Levi era adepto de espaços flexíveis, que pudessem ser modificados facilmente com o uso de mobiliário, como propôs no edifício Prudência, em Higienópolis.

Era reconhecido pelo extremo cuidado com o conforto ambiental, um mestre em soluções projetuais para o controle da luz, do calor e do som.

Vista do edifício Prudência, em Higienópolis, em fotografia exibida na Ocupação Rino Levi, no Itaú Cultural - Nelson Kon/Divulgação

Mas a maior parte de tudo o que está dito nos parágrafos acima é absorvida de forma verbal pelo visitante, sobretudo por meio de depoimentos em vídeo feitos para a mostra.

Vídeos são sempre parte das exposições monográficas do Itaú Cultural.

Terminadas as mostras, eles permanecem disponíveis na internet. Isso é sem dúvida benfazejo e se soma a outra iniciativa de qualidade da instituição para a difusão de informação sobre o campo artístico, a Enciclopédia Itaú Cultural —alguns dos painéis inclusive remetem a verbetes da publicação online para ampliar o conteúdo exibido.

Os vídeos da “Ocupação Rino Levi”, claro está, são muito didáticos.

Além de Mello, gravaram participações Nestor Goulart dos Reis Filho, também professor de história na FAU, onde foi aluno de Levi; Roberto Loeb e Paulo Bruna, que foram estagiários do escritório do arquiteto, sendo que o segundo se tornou sócio da firma após a morte do fundador; e a filha Barbara Levi. Todos, é evidente, muito capacitados para aprofundar diferentes aspectos da obra do homenageado.

No entanto como recurso expográfico os vídeos resultam frustrantes, sendo exibidos em telas pequenas, a cerca de um metro do visitante, que os assiste de pé. Requer-se cerca de uma hora para ver e ler tudo que há no pequeno espaço no térreo da sede da instituição —área à qual quase sempre se limitam as mostras do gênero, o que aliás põe em questão a própria ideia de “ocupação”.

Se houver muita afluência, é quase certo que boa parte da informação não chegará ao público, possivelmente pouco disposto a se apinhar diante das telinhas. Assim, é um risco depender tanto desse recurso, ainda que textos-parede resumam os principais pontos.

Mostras de arquitetura são sabidamente um desafio; é muito difícil fazer com que leigos se interessem por desenhos pouco compreensíveis para o público não especializado.

Fotos costumam ser uma saída muito empregada, da qual aqui não se abusa. Ao contrário; poderia haver mais delas, considerando que há excelentes imagens, inclusive de edifícios que mantêm seu uso, atestando sua qualidade duradoura.

Falta à mostra esse aspecto da obra viva de Levi. É de se pensar que Luciana Brito tenha registros do restauro que fez na casa que ocupa, e teria sido interessante vê-los; outra adaptação que teria merecido destaque é o retrofit do edifício Guarany.

Por fim, se está ali o ousadíssimo projeto de Levi para o concurso de Brasília, chama atenção o pouco espaço dedicado ao Cultura Artística. Após um incêndio em 2008, o teatro ganhou novo projeto de Paulo Bruna e é uma pena não se revelar a um público amplo como ficará o espaço.

Ao final, a parte mais lúdica, que atrai todo tipo de espectador, desde que não propenso a vertigens —um passeio em realidade virtual pelo Cine Universo, um dos vários que fizeram de Levi uma referência no gênero. A sala no Brás, que com 4.324 lugares era, ao ser inaugurada em 1939, a maior da América Latina, é hoje sede de uma igreja evangélica.

Ocupação Rino Levi

Itaú Cultural, av. Paulista, 149, São Paulo. Ter. a sex., das 9h às 20h. Sáb. e dom., das 11h às 20h. Até 12/4. Livre. Grátis.


Francesca Angiolillo, arquiteta e jornalista, é repórter especial da Folha.

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