Descrição de chapéu Coronavírus

Com coronavírus, mundo vive em nevoeiro, diz Guilherme Wisnik

Caminhamos para realizar a profecia ianomâmi de que o céu vai cair sobre nós

Guilherme Wisnik

[RESUMO] Ao contrário do que imaginavam os profetas do fim da história, o mundo é dominado por sentimentos de paranoia e angústia. Imersos em nevoeiro, na era em que esgotamos os recursos do planeta, fabricamos a pandemia de nossa própria vulnerabilidade, sem poder culpar um ‘outro’.

Quando o vulcão Eyjafjallajokull ​entrou em erupção, na Islândia, entre março e abril de 2010, sua imensa nuvem de cinzas, rapidamente espalhada pelo vento nos céus do Atlântico Norte, paralisou os voos entre a Europa e os Estados Unidos por mais de uma semana.

Economistas e analistas políticos, na época, avaliaram os prejuízos na casa dos bilhões de dólares. Hoje, exatos dez anos depois, o mundo assiste —em tempo real e impotente— a expansão de um vírus invisível por todo o território do planeta, não apenas paralisando voos, mas confinando as pessoas em suas casas, produzindo mortes em quantidades crescentes e derrubando as economias num strike global.

Como se sabe, grande parte do extermínio das populações indígenas na América, e em outras partes do planeta, se deveu à falta de resistência imunológica daqueles povos contra as doenças que os conquistadores ocidentais traziam, tais como gripes, sarampo e varíola.

Hoje, é toda a população do mundo, predominantemente urbanizado, e globalmente conectado, que se vê vulnerável a um conjunto de vírus que até tempos atrás seriam apenas zoonoses, mas que se produzem e se alastram vertiginosamente dada a hibridação acelerada e irreversível, existente hoje, entre ciência e natureza.

Isto é: animais de corte são criados em condições industriais, expostos a medicamentos e alterações biológicas, sendo depois, muitas vezes, vendidos em mercados densamente povoados por outros animais e por pessoas (sobretudo na Ásia), que se tornam hospedeiros para a propagação dos vírus.

Nas condições sui generis dessa era que se convencionou chamar de Antropoceno, em que vamos esgotando os recursos do planeta e aumentando progressivamente a sua temperatura, fabricamos a nossa própria vulnerabilidade, tornando-nos os predadores de nós mesmos.

No momento em que o mundo se torna de fato uma “aldeia global”, parece que caminhamos na direção de realizar a profecia ianomâmi de que o céu vai cair sobre as nossas cabeças.

Com o desastre nuclear de Tchernóbil, ocorrido em 1986, escreve o sociólogo alemão Ulrich Beck, chegamos ao fim de uma era em que toda a violência que os seres humanos infligiam aos mesmos humanos era reservada à categoria dos “outros”: judeus, negros, mulheres, indígenas, refugiados, dissidentes, excluídos etc.

O acidente radioativo revelou ao mundo a grande vulnerabilidade e o desamparo de uma sociedade que percebeu já não mais poder se esconder atrás de muros e cercas de proteção, tornando-se refém, por exemplo, da ação aleatória de ventos ou chuvas desfavoráveis que espalhassem a radiação por cima dos agora inúteis bloqueios físicos.

Significativamente, apenas três anos depois cairia o mais simbólico de todos os muros, em Berlim, e, com ele, toda a chamada Cortina de Ferro.

Assim, aquele desastre nuclear, que entrou para a história como o detonador da derrocada soviética, é, na verdade, como mostra Beck, o sintoma de uma nova era do mundo. Uma moderna era do perigo, que suprimiu todas as zonas de proteção. Uma “sociedade de risco”, em suas palavras, que vive sob a constante ameaça de instabilidades ecológicas, financeiras, militares, terroristas, informacionais e bioquímicas (epidemias virais e bacteriológicas).

Na passagem dos anos 1980 para os 1990, o fim da Guerra Fria coincide com o começo do uso extensivo dos computadores pessoais e, logo em seguida, com a propagação da internet, numa economia já predominantemente financeira, e que então se tornava verdadeiramente globalizada, aumentando muito o fluxo de capitais e de pessoas pelo globo.

Tudo isso no mesmo momento em que a Aids se disseminava, estigmatizando comunidades e ameaçando populações (sobretudo na África), e se tomava consciência da grave crise energética do planeta e dos impasses ecológicos da civilização industrial, debatidos na conferência Eco-92, no Rio de Janeiro.

Sob o mantra do chamado “fim da história”, tal como batizado por Francis Fukuyama, o bloco capitalista, vitorioso na Guerra Fria, dizia conduzir o mundo para uma era de prosperidade e calmaria, na qual toda a ideia de conflito (base da visão marxista de história) teria sido extirpada.

Um mundo “prozac”, na expressão de T. J. Clark. Mas que, no entanto, apenas uma década depois, com os ataques de 11 de Setembro de 2001, em Nova York, viria a se revelar uma nova era do choque e do terror.

Ilustração abstrata
Obra sem título (2020), em aquarela - Thiago Rocha Pitta

Um mundo acossado por novas formas de antagonismo baseadas sobretudo em diferenças étnicas e religiosas, resultando em ataques terroristas randômicos pelo mundo. Mas, também, assolado por tufões e tsunamis (que, no caso de Fukushima, em 2011, desencadeou um desastre nuclear), além de pandemias virais de efeitos devastadores, como a que vivemos agora.

No breve interregno daquele “mundo prozac”, pensou-se eliminar definitivamente o inimigo, ou a ameaça, que no imaginário dualizado da Guerra Fria estava localizado no “outro”: no capitalista, para uns, ou no comunista, para outros.

Hoje, contudo, sabemos que a ameaça está disseminada por toda parte. Ela é invisível, e de difícil detecção e controle, pois revoltas da natureza podem eclodir em toda parte, e a qualquer momento. O agente terrorista talvez seja o seu vizinho. O mesmo que, eventualmente, pode também lhe transmitir a Covid-19.

Assim, ao contrário do que imaginavam os profetas do “fim da história”, o nosso mundo é dominado por sentimentos crescentes de paranoia e de angústia. E, na impossibilidade de localizar e de culpar um “outro”, nos vemos obrigados a considerar um “nós”.

Identificando uma imagem recorrente em muitos dos fenômenos icônicos do mundo atual, tais como as terríveis fumaças que cobriram Nova York em 2001, as impalpáveis nuvens digitais nas quais depositamos remotamente todas as nossas informações e os enxames de capital financeiro se deslocando pelo planeta, venho usando a metáfora do nevoeiro para definir o estado de incerteza em que vivemos.

Um mundo ao mesmo tempo trágico e sublime —se tomarmos os exemplos do 11/9 e das nuvens digitais—, no qual a nossa percepção das forças que comandam as mudanças é, via de regra, embaçada ou borrada, pois os fatos são cada vez mais manipulados e distorcidos na forma de fake news e de pós-verdades.

Uma vez instalado, o nevoeiro não permite visões de fora. Nele, estamos sempre imersos, sem distância perceptiva ou analítica, e com dificuldade para enxergar as coisas.

No livro “O Novo Tempo do Mundo” (Boitempo, 2014), Paulo Arantes passa em revista as seguidas mudanças históricas ocorridas nos séculos 20 e 21, que vieram a comprimir progressivamente a distância entre o espaço de experiência, como dimensão presente, e o horizonte de expectativa, como projeção futura, nos termos de Reinhart Koselleck.

Hoje, depois do trauma de duas guerras mundiais, da imposição de uma lógica presentista na política e na economia, de décadas de avanço neoliberal e da irrupção sistemática de ameaças terroristas, ecológicas e bioquímicas, vivemos um regime de urgência, uma era de expectativas decrescentes. Daí o uso de alguns termos comuns hoje, como “guerra” às drogas ou ao terror, que normalizam estados de exceção.

Sociedades antes orientadas para o futuro, tal como no tempo das vanguardas modernas, no início do século 20, viram seus horizontes de expectativa se turvarem, reduzindo-se drasticamente.

Num mundo em que o globo encolheu, só nos restou o presente comprimido e precarizado. Afinal, a economia financeira se baseia exatamente na venda antecipada do futuro por meio de dívidas e créditos. Assim, nessa nossa “modernidade virulenta”, o futuro foi saqueado em nome do aumento do consumo.

Ainda de acordo com Arantes, “a revolução saiu de cena, mas em seu lugar ficou a Emergência, por assim dizer intransitiva e paradoxalmente com uma energia disruptiva redobrada”. Nesse contexto, o paradigma do novo militante é o médico sem fronteira, investido de um pathos mais humanitário do que político.

Agora, condenados a um horizonte de futuro ainda mais estreito, diante de um presente angustiante que não sabemos até quando durará, não é difícil imaginar cenários distópicos para os próximos anos.

Um deles é a possibilidade de que a pandemia venha a funcionar como o grande algoz daquilo que ainda resta de liberdade no Ocidente —e que seria, após a crise, levado de roldão pelo modelo asiático de vigilância total, claramente mais bem-sucedido no controle à Covid-19.

Pois enquanto as combalidas democracias ocidentais derrapam em suas malogradas tentativas de combate ao vírus, muitos dos países orientais conseguem resultados espantosamente positivos por meio de agressivas políticas de controle social —ainda que os números divulgados pela China possam estar muito maquiados.

Como relata o filósofo coreano Byung-Chul Han, em artigo recente, o sucesso do combate à pandemia na Ásia se deve ao uso extensivo do big data e à total ausência de proteção dos dados individuais. Assim, em países como a China, por exemplo, todas as informações dos cidadãos são rastreadas digitalmente, o que faz com que as pessoas sejam avaliadas em função de seus comportamentos cotidianos.

Isto é, o mesmo sistema que hoje ranqueia os cidadãos em relação ao risco de contaminação já avaliava suas condutas sociais, fornecendo dados decisivos para a aprovação ou não de créditos bancários ou vistos de viagens, por exemplo.

Vigilância total, que opera não apenas por meio de câmeras de reconhecimento facial, mas também pelos próprios smartphones pessoais —o governo pode determinar o envio de dados de temperatura corporal por meio dos aparelhos.

Em “Indústria Americana” (2019), dirigido por Julia Reichert e Steven Bognar, vencedor do Oscar de melhor documentário, vemos um retrato sóbrio e preocupante do conflito aparentemente inconciliável entre os modelos ocidental e oriental de trabalho.

O primeiro ainda baseado no respeito a certas formas de liberdade individual e direitos trabalhistas; o segundo inteiramente planificado e opressivo, no qual o indivíduo parece desaparecer diante da enorme obediência e disciplina, que representa também, ao mesmo tempo, um ethos mais coletivista.

Mostrando a implantação de uma multinacional chinesa em território norte-americano, o filme trata da impossibilidade de tradução e diálogo entre essas culturas. Ocidente e Oriente, nessa perspectiva, parecem dois mundos aversivos, que só se relacionam pela dominação de um pelo outro, e nunca pela troca.

Portanto, levando-se em conta esses fatores, podemos imaginar, em um prazo não muito longo, um Ocidente periclitante, sucumbindo tanto à ascensão econômica chinesa quanto ao seu estado policial digital. Híbrida combinação entre autoritarismo e capitalismo selvagem.

Tomando uma conhecida formulação de Fredric Jameson, boa parte do pânico imobilista que sentimos hoje se deve a uma dupla consciência: nossa capacidade científica para imaginar o fim do mundo, por um lado, e nossa incapacidade política para imaginar o fim do capitalismo, por outro.

A pandemia do coronavírus, no entanto, traz novos elementos para esse jogo. Em direção divergente dessa que descrevi acima, não são poucos os pensadores progressistas que estão vendo nesta crise de saúde mundial, que se desdobra em grave crise econômica e social, uma possibilidade de freio, numa escala antes impensável, ao consumo excessivo e irracional.

Isto é, uma contestação ao dogma da acumulação infinita que sustenta o capitalismo. Afinal o contágio, como já havia percebido Ulrich Beck após Tchernóbil, é um fenômeno democrático e igualitário por excelência, apesar de haver regimes de vulnerabilidade a ele muito diversos pelo mundo, como percebemos no caso da pandemia atual.

Slavoj Zizek, por exemplo, considera que a forte queda das Bolsas de Valores e a quase paralisação da indústria automobilística, por exemplo, podem sinalizar transformações importantes no capitalismo, dando-nos a possibilidade de nos deixarmos infectar por um vírus benéfico: a capacidade de pensar em uma sociedade diferente, menos voltada ao lucro individual e mais guiada por formas de solidariedade e cooperação global.

Outro efeito colateral positivo da pandemia, segundo Zizek, é a percepção da importância de políticas públicas de prevenção na área da saúde e de proteção aos cidadãos, tornando flagrantes valores contrários aos que têm dominado a política mundial nos últimos tempos, na qual o subsídio aos bancos é feito por meio de austeridade econômica, com cortes nos serviços públicos e nos benefícios sociais.

Já para David Harvey, de forma complementar, a pandemia representa um “colapso onipotente no coração da forma de consumo que predomina nos países mais ricos”. Depois da crise financeira de 2008, estancada pelo socorro dos Estados aos bancos e pelo papel estabilizador da China no mercado global, a economia mundial se reorganizou, impulsionando ainda mais as formas de consumo de alta rotatividade.

Assim, de 2010 a 2018, como mostra Harvey, o total de viagens internacionais no planeta quase dobrou, passando de 800 milhões para 1,4 bilhão. Com um expressivo investimento em aeroportos, companhias aéreas, hotéis, restaurantes, parques temáticos e eventos culturais e de entretenimento, os países centrais sustentaram quase 80% de suas economias.

Esse é o capital que está em quarentena no momento, bloqueado e agonizante, embora outras formas de reprodução do capital, como os setores de tecnologia, não estejam tão afetadas.

E enquanto a paralisação da economia mundial tem efeitos colaterais notáveis na melhora das condições ambientais em diversas partes do planeta —como no caso da drástica diminuição na emissão de gases de efeito estufa, no sensível declínio da poluição atmosférica na China ou do aparecimento de peixes nas águas (agora claras) de Veneza—, o Estado norte-americano aprova um pacote de US$ 2,2 trilhões para subsidiar todos os cidadãos do país durante a crise.

O que não deixa de ser, ainda segundo Harvey, uma forma de se socializar a economia do país mais rico do mundo durante seu governo mais conservador.

De qualquer maneira, seja qual for o ângulo pelo qual se olhe para essa pandemia, o vírus, essa entidade invisível e onipresente, nos aparece como um emissário do nevoeiro.

Nossos vírus não matam mais apenas o “outro”, imunologicamente mais vulnerável. Essa categoria do “outro”, aliás, nem existe mais. De nada adianta fechar fronteiras e restaurar velhos ressentimentos nacionais. Quem está sob ataque somos todos nós, juntos.

O nevoeiro, afinal de contas, não é nem bom nem mau em si mesmo. Aliás, ele talvez represente, de certa forma, a grande chance histórica que temos de viver em um mundo mais complexo do que aquele do “nós contra os outros”, que imperava obsessivamente nos tempos da Guerra Fria.

Um mundo em que são reconhecidos diversos matizes de gênero entre homens e mulheres, por exemplo, assim como múltiplas orientações sexuais. Nesse sentido, Steve Bannon, Boris Johnson, Donald Trump, Jair Bolsonaro e tantos outros representam a recusa violenta dessa complexidade.

Surgidos de dentro do nevoeiro, eles, no entanto, pretendem restaurar, de forma regressiva, o mundo dual dos puros contra os impuros, e tantas outras falácias simplórias que inventam para sustentar seus discursos racistas e xenófobos.

Desorganizando o clima anticientífico de pós-verdades que ganhou protagonismo com a generalização do ciberespaço, o coronavírus surge como um antagonista paradoxalmente palpável, obrigando-nos a encarar o mundo real, e de forma ética e coletiva. Desse ponto de vista, ele pode ser um surpreendente agente civilizatório.


Guilherme Wisnik, arquiteto e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, é autor de ‘Dentro do Nevoeiro’ (editora Ubu), entre outros livros.

Ilustração de Thiago Rocha Pitta, artista plástico.

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