Descrição de chapéu
Flávio Moura

Crítica de Caetano a uspianos soa fora de lugar no debate atual

Ao mencionar Augusto de Campos e Roberto Schwarz, compositor revive rixa anacrônica

Flávio Moura

É editor e cofundador da Todavia

[RESUMO] Num momento em que a vida intelectual no Brasil está sob ataque, afirma autor, parece estranho que Caetano, figura central da cultura brasileira, alimente uma disputa entre concretistas e uspianos que fazia sentido quatro décadas atrás, mas atualmente enfraquece um campo já combalido pela tragédia em curso no país.

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Não se pode acusar Caetano de envelhecer mal. Aos 78 anos, segue inquieto e capaz de provocar: bastou uma afirmação na tevê sobre a revisão de suas convicções liberais e logo as redes e jornais se agitaram para entender o que se passava. Por isso chama atenção uma frase na entrevista à Ilustríssima no último domingo. Ali Caetano diz: “Esses uspianos estão sempre mil furos abaixo dos concretos”. É uma afirmação que parece saída diretamente de 1985.

A agitação começou depois de uma entrevista de Caetano a Pedro Bial, em 4 de setembro, a propósito do lançamento do documentário "Narciso em Férias", de Renato Terra e Ricardo Calil. Caetano se diz insatisfeito com o argumento consagrado, em que sempre acreditou, de que os totalitarismos de direita e esquerda se equivalem. O responsável por essa mudança é o teórico italiano Domenico Losurdo (1941-2018), que lhe foi apresentado pelo jovem historiador e influenciador digital pernambucano Jones Manoel.

O cantor Caetano Veloso, sentado em uma cadeira, em cena do filme 'Narciso em Férias'
O cantor Caetano Veloso em cena do filme 'Narciso em Férias' - Reprodução

Um dos muitos a reagir foi o colunista Pablo Ortellado, que escreveu sobre o episódio em seu espaço na Folha. Caetano teria deixado de lado as complexidades do tropicalismo e se rendido à “irresponsabilidade narcísica, incensando o stalinismo”. Na entrevista do último domingo, o editor da Ilustríssima, Marcos Augusto Gonçalves, perguntou a Caetano sobre a afirmação de Ortellado. Foi em resposta a essa pergunta que o compositor lembrou a polêmica entre uspianos e concretos.

A menção parece fora de contexto. Nada na entrevista leva água para esse moinho. Mas Caetano vê na opinião de Ortellado ecos do pensamento de Roberto Schwarz e situa os dois sob a mesma pecha de “uspianos”. Como contraponto, lembra que sempre foi mais afeito à leitura do Tropicalismo feita por Augusto de Campos. Augusto e os concretos, por serem poetas, “com a mão na massa”, falariam da posição de quem conhece as agruras da criação artística, em contraposição aos insossos teóricos da Universidade de São Paulo.

Em 1985, a boutade faria sentido. Naquele ano, Roberto Schwarz e Augusto de Campos trocaram farpas nas páginas deste jornal. Schwarz via na visão de literatura dos concretos uma “bobagem provinciana”. Augusto rebatia o que considerava o “sociologismo de ascendência chatoboy”. A polêmica teve novo capítulo em 1989, quando Haroldo de Campos (1929-2003) publicou ensaio sobre o “sequestro do barroco” na "Formação da Literatura Brasileira", a obra fundamental de Antonio Candido (1918-2017). À época, a clivagem entre concretos e uspianos podia ter lastro efetivo. Em essência, é apenas uma diferença de sotaque sobre o papel da história na forma literária, mas naquele ambiente isso mobilizava paixões, opunha as faculdades de letras da USP e da PUC-SP e ajudava a entender o campo intelectual paulista.

Hoje, isso virou um saudoso anacronismo. Nos últimos anos, o principal esforço de conferir consistência teórica à obra musical de Caetano vem do “uspiano” José Miguel Wisnik, a quem ''Verdade Tropical" é dedicado. Wisnik, aliás, sempre se equilibrou com habilidade na disputa entre concretos e uspianos, reconhecendo as contribuições importantes de cada lado e escapando ao fogo cruzado.

Em 2012, Roberto Schwarz publicou um esforço notável de interpretação, o ensaio “Verdade Tropical: um percurso de nosso tempo”. São 52 páginas de leitura cerrada do livro de Caetano, o que por si já constitui elogio. No prefácio à nova edição, de 2017, Caetano rebate de forma enfática os pontos que de discorda. Mas discordar das conclusões não impede de reconhecer o empenho intelectual por trás do texto, de um refinamento raro no pensamento brasileiro. Não faz sentido compará-lo à coluna de Ortellado. Duvido que o próprio colunista ambicionasse tanto ao escrever sua provocação.

Ortellado é um pesquisador atento aos movimentos de grupos políticos nas redes sociais. Foi dos primeiros a valer-se de métodos objetivos para entender as bolhas de direita e esquerda no Facebook e no Twitter. Em sua coluna na Folha, empenha-se em não ser identificado com nenhuma das bolhas. Seu modo de entender Caetano vem mais desse traço frequente do colunismo atual – a busca por uma imagem de independência – do que de sua formação uspiana.

Caetano tem relação com os concretos desde o início da carreira. Há em sua obra diálogo intenso com o concretismo, tanto no pensamento teórico como na produção poética e musical. Ele sempre teve lado na disputa e isso não é novidade. O problema é seguir vendo nessa clivagem uma referência útil para entender a cultura brasileira.

Uspianos e concretos (e basicamente toda a vida intelectual no Brasil) estão sob ataque. A pesquisa profissional, o cosmopolitismo, o culto à erudição e ao pensamento complexo que ambos representam nunca valeram tão pouco. O governo Bolsonaro cultua o mesmo clima de opinião que prendeu Caetano no fim dos anos 1960. Para que alimentar essa disputa? Obviamente Caetano não seria inábil a ponto de relativizar o autoritarismo de esquerda no auge do petismo. Naquele momento, Mangabeira Unger e Eduardo Giannetti estavam no foco de suas predileções. Seu atual aceno à esquerda combativa tem peso político e isso é relevante no momento de abissal retrocesso por que passa o país. Mesmo avesso aos alinhamentos automáticos, Caetano não precisa rejeitar o ethos “uspiano”. Ele nunca será reduzido a esse rótulo.

Em torno de Caetano se conjugam fatores raros. Seu nome se confunde com a canção popular brasileira, tornada nas últimas décadas a principal expressão da cultura do país. Ele é a encarnação de uma trajetória decisiva para a compreensão da indústria musical no Brasil, da apropriação de um conjunto de linguagens para o léxico da MPB, da atualização do discurso modernista, da resistência cultural ao regime militar, da junção entre registros eruditos e populares que responde pelo traço distintivo com que a cultura brasileira se apresenta ao mundo.

De longe do universo acadêmico, ele consegue um feito incomum: chamar grandes nomes da universidade para a conversa. Os críticos literários da linha de frente não andam discutindo os romances mais recentes, mas a obra de Caetano. Os exemplos de José Miguel Wisnik, em chave generosa, e de Roberto Schwarz, em chave combativa, não deixam dúvida a respeito.

O que a atividade literária representava como segmento mais prestigioso da cultura se dissolveu em diversos pedaços desde os anos 1960: música popular, cinema, estudos universitários, indústria cultural. A obra e a trajetória de Caetano parecem recolher esses cacos e alçá-lo a um ponto singular, onde conquistou legitimidade para falar como “intérprete do Brasil”.

Um traço comum à maioria dos movimentos de vanguarda é que eles forjam a própria interpretação. As versões sobre seu significado costumam sair de integrantes do grupo, o que torna difícil fugir a um círculo vicioso. Incansável teorizador da própria trajetória, Caetano é fundador da Tropicália e ao mesmo tempo seu porta-voz mais ilustre. Mas não é preciso seguir os passos apontados por ele – ou seja, pautar-se pelo "Verdade Tropical" ou por seus textos e entrevistas – para entender o alcance de sua influência.

Uma história da contracultura que envolva Hélio Oiticica, Torquato Neto e Jorge Mautner, por exemplo, vai necessariamente incluir Caetano. A história da cultura assimilada, que envolve a Rede Globo, Roberto Carlos, Chacrinha, também esbarra nele. A poesia concreta, fonte das maiores ambições de erudição da inteligência brasileira, aponta nele um herdeiro legítimo. Artistas de todos os quadrantes, de Nuno Ramos a Maria Gadú, lhe prestam reverência. Caetano está por toda parte.

O episódio recente em torno do stalinismo é só mais uma demonstração disso. O ponto central não são as teses de Domenico Losurdo, que ganharam ressonância inédita nas redes sociais a partir de sua entrevista com Pedro Bial. O que chama a atenção é a relação de Caetano com Jones Manoel, o jovem militante que viu sua popularidade explodir depois da entrevista. A parceria lembra uma prática que o compositor adota há tempos: aproxima-se de jovens que se destacam, unge o novato com seu prestígio e colhe em troca o ímpeto de renovação, num antídoto eficiente contra o envelhecimento.

Nem mesmo a recaída à esquerda é um dado novo. Basta lembrar as recentes visitas de Guilherme Boulos ao apartamento do casal Lavigne-Veloso no Rio de Janeiro, os shows em parceria com o MTST e a ligação com a Mídia Ninja. A novidade é colocar em questão a equivalência entre os totalitarismos de esquerda e de direita pela via de uma voz como a de Jones Manoel. Aos trinta e dois anos, Jones é parte de um núcleo vibrante da discussão de esquerda nas redes sociais – algo que não se vê em Brasília ou na oposição formal ao governo Bolsonaro. Losurdo e o stalinismo não são novidade. Jones é. Caetano, como de hábito, viu antes de muita gente.

Justamente por isso é estranho que siga alimentando uma disputa que não vertebra mais o ambiente intelectual e que enfraquece um campo já combalido pela tragédia em curso no Brasil. Caetano é inquieto o suficiente para rever suas convicções liberais a essa altura da vida. Talvez não seja tarde para rever isso também.

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