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Gustavo Bonini Castellana e Thiago Fernando da Silva

Médicos vivem pior momento da pandemia esgotados e com problemas psíquicos

Sobrecarga emocional de profissionais da saúde aumenta com falta de critérios para situação de colapso

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Gustavo Bonini Castellana

Psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP

Thiago Fernando da Silva

Psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP

[RESUMO] A presença de médicos com síndrome de burnout vem aumentando com o agravamento da pandemia e o colapso de hospitais, avaliam autores. Esta situação crítica demanda que a conduta de profissionais da saúde seja embasada em parâmetros claros e coerentes, o que permitiria o compartilhamento de dilemas éticos com a sociedade.

Médicos da linha de frente do combate à Covid-19 chegaram ao pior momento da pandemia justamente em seu pior momento pessoal. Cansados física e mentalmente, divididos entre o cuidado da família e o cuidado dos pacientes, além de expostos diariamente ao risco da infecção, os médicos precisariam de férias. O colapso nos hospitais públicos e privados, no entanto, não permite tempo para o descanso.

Com isso, tem sido cada vez mais frequente nos consultórios psiquiátricos e psicológicos a presença de médicos com a síndrome de burnout, quadro clínico de esgotamento profissional caracterizado por exaustão emocional, sentimentos de incompetência e fracasso e distanciamento afetivo do trabalho.

Diante desses casos, os profissionais da saúde mental vivem também o seu dilema: seria ético recomendar ao médico que se afaste do trabalho por uma ou duas semanas pelo fato de não estar nas melhores condições de trabalho, sobrecarregando ainda mais o sistema de saúde?

Com curvas ascendentes de contágio, os pacientes lotam os pronto-socorros, mas não há recursos para todos. Há falta de insumos básicos, como oxigênio ou medicação utilizada para intubação.

Nessa situação, médicos vêm encarando dilemas éticos de difícil solução: tirar alguém do respirador para ceder a vaga a outro paciente em piores condições ou auxiliar na morte digna desse paciente com menor sofrimento?

Embora não existam respostas simples para essas questões, é preciso que a sociedade civil compartilhe esses dilemas morais e as entidades representativas da classe tenham respaldo jurídico para suas decisões quanto aos critérios utilizados.

Pensando nisso, diversas associações médicas ao redor do mundo, inclusive no Brasil, uniram-se para elaborar documentos minuciosos que contém os pressupostos éticos e legais para embasar as condutas técnicas dos médicos em caso de esgotamento de recursos. Sem isso, médicos e pacientes estarão expostos ao risco de decisões precipitadas ou enviesadas e ficarão ainda mais sobrecarregados emocionalmente, o que impacta diretamente em sua capacidade de decisão.

Em um artigo publicado no jornal The Telegraph, o médico paliativista inglês Mark Taubert debate um aspecto específico da pandemia que impacta ainda mais a saúde mental de todos: a impossibilidade de visitas aos pacientes. A política restrita de visitação aos pacientes de Covid-19 irá produzir uma geração de enlutados que não puderam despedir-se de seus familiares, amigos e amores em seus momentos finais. Frequentemente, quem está próximo desses pacientes na hora de sua morte são os profissionais de saúde, já sobrecarregados.

Sabe-se que a eutanásia não é permitida no Brasil, mas tampouco é permitida a mistanásia. A mistanásia pode ser descrita como uma morte infeliz, miserável e evitável. A falta de insumos básicos, relacionada com deficiências estruturais no sistema de saúde, aumenta o risco de que isso aconteça com boa parte dos pacientes que morrem.

Não bastasse a aflição causada por esses dilemas morais, quando o pesadelo passar, os médicos terão que se deparar ainda com o risco de famílias questionarem na Justiça os procedimentos realizados no tratamento e morte de seus familiares: quais foram os critérios para a decisão? Por que um paciente foi escolhido em detrimento do seu familiar? Houve interferências políticas e financeiras na decisão?

Neste momento, a sociedade brasileira está exaltando os médicos, retratados como heróis nacionais, mas os ventos mudam e, certamente, erros ocorrerão aqui e ali. Alimentadas pela polarização política, tais condutas poderão ser alvo ainda de manobras por parte de políticos oportunistas, e não sabemos se esse apoio incondicional será irrestrito no futuro. Por isso, é necessário que se estabeleçam critérios claros e coerentes para as decisões, que devem ser pautadas em valores compartilhados pela sociedade.

Frente ao colapso do sistema de saúde e da saúde dos médicos, é preciso coragem e lucidez de toda a sociedade para apoiar as difíceis decisões que serão tomadas daqui para a frente pelos médicos dentro dos hospitais.

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