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Djaimilia Pereira de Almeida escreve sobre morte e saudade em carta fictícia

Leia o segundo texto da série da escritora portuguesa autora de "A Visão das Plantas"

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Djaimilia Pereira de Almeida

Escritora portuguesa nascida em Angola. Autora, entre outros livros, de ‘A Visão das Plantas’ e ‘Luanda, Lisboa, Paraíso’, vencedor do Prêmio Oceanos 2019

[SOBRE O TEXTO] Esta é a segunda de uma série de cartas fictícias imaginadas por Djaimilia Pereira de Almeida. Elas serão publicadas ao longo do próximo ano aos domingos na Ilustrada Ilustríssima. São obras inspiradas pelo distanciamento provocado pela pandemia de coronavírus e o desejo de proximidade que ele despertou.

ATRÁS DO MEU MARIDO

Desculpa não ter voltado a escrever, minha querida. Não me levanto desde o fim de junho. Deitei-me na cama para morrer atrás do meu marido.

Deixei de ver as horas desde que o Luís partiu. Deitei-me quando viemos da igreja e pedi a Deus que me levasse no sono. Que é Deus para obedecer a esta velha? Vai para dois meses.

Peço a morte, adormeço. Mas, às tantas, ali deitada, a cabeça não para, ideias e ideias, uma vontade de me levantar, de fazer coisas, tanta vida que me envergonho, vida a correr-me nas veias, entendes? Quero morrer e só me vem à cabeça a roupa que tenho de passar a ferro, se as obras no parque já terminaram, onde anda a Amélia, que é da minha afilhada e a tensão. Não me sai da cabeça que tenho de ir medir a tensão, e que a Tininha já deve ter ido fazer o exame. Encho-me de vergonha destes pensamentos todos. Ainda não morri, Carminda, essa é a novidade. Não sei quantas horas passaram. A certa altura, acordei cheia de fome. Maldito corpo não se finou e a barriga da viúva ainda dá horas.

Obra de Arjan Martins retratando Zumbi dos Palmares para a 'Enciclopédia Negra: Biografias Afro-Brasileiras', organizada por Flávio dos Santos Gomes, Jaime Lauriano e Lilia Moritz Schwarcz. Esta obra integra o livro " Enciclopédia Negra " da editora Companhia das Letras. - Reprodução

Unhas sujas, deixei o pacote do leite azedar.

Prendo-me à cama e me vem à cabeça o lavatório sujo, o chão da cozinha, as camisas do meu Luís. Sinto quase, deitada, que o meu corpo faz a lida da casa sozinho. Sinto-me a coisa mais suja da minha casa só porque não sei como se morre.

Nunca mais abri as persianas, escrevo-te quase às escuras, porque te quero fazer um pedido. Levanto, vou ao quarto de banho. Hoje vi-me ao espelho, estou um monstro.

Pensei arranjar-me, lavei a cara, o meu Luís não ia querer ver-me assim. Pus laca no cabelo, não tive força para o banho, lá pus a laca no cabelo seco.

Fui ao quarto com a intenção de me vestir, mas não tive força, deixei-me estar deitada sobre a coberta, a olhar o teto. Os sapatos do Luís, não tenho força para varrer a casa, limpar o pó. Os braços faltam-me. Ainda pensei, agarro nos remédios e tomo tudo de uma vez, mas não tenho coragem, sabes como é? Queria-me morta, mas o corpo não quer, não me deixa. Quem vai outra vez beijar-me o pescoço, minha querida?

Isto foi antes de ontem, no domingo. Deitei-me, pedi a Deus que me levasse, mas, de mão no peito, deixar-me estar sossegada, sem fazer barulho, deitada na cama. Que a vida se esqueça de mim.

O meu Luís zangava-se muito comigo se me visse neste estado. A vizinha bateu-me à porta aqui há dias. Carteiros não abro. A pequena da padaria também apareceu. Disse à vizinha que estou à espera de um parente.

Só saí uma vez. Não se via ninguém na rua. Pus-me a andar mesmo aqui, à beira da farmácia. Quis ir até à esquina. Não fui capaz. Uma agonia, morri de amor. Se calhar, a eternidade é esta bagunça.

Outro dia, vi o meu Luís deitado na cama ao meu lado. O que te queria pedir é se fazias o favor à tua amiga de vir cá pintar-me o cabelo, mas só quando te der jeito. Era um grande favor que fazias a esta tua grande amiga. A gente amanha-se no lavatório, trazias o xampu e os rolos, secador tenho cá. Tenho muito medo de Deus me acudir e de eu me ir de noite e aparecer ao meu Luís nesta figura. Se havia coisa que o teu amigo Luís gostava era de me ver acabada de pentear. Fazes isso à tua amiga? Considera este o meu último desejo e nunca mais te chateio, Carminda. Desculpa se alguma vez te falhei. Acode-me, por favor, não te tomo mais de umas poucas horas.

A tua saudosa amiga,
Laurinha


Ilustração de Arjan Martins, artista carioca que aborda a diáspora africana e o colonialismo em suas obras.

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