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André Lajst e Sabrina Abreu

Sally Rooney aderiu a boicote racista ao vetar seu livro em Israel

Autora de 'Pessoas Normais' não permitiu o lançamento de seu novo romance no país

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André Lajst

Cientista político, doutorando em ciências políticas e sociais pela Universidade de Córdoba e diretor-executivo da ONG educacional StandWithUS Brasil

Sabrina Abreu

Jornalista e escritora, diretora de comunicação e cultura da ONG educacional StandWithUS Brasil

[RESUMO] Autores sustentam que atitude da escritora irlandesa Sally Rooney, que recusou a publicação de seu romance mais recente em Israel em razão de seu suporte aos palestinos, a colocou ao lado de um movimento racista e contraproducente de boicote ao país, que não leva em conta a complexidade dos conflitos na região.

​A recusa da escritora irlandesa Sally Rooney em permitir que seu novo romance, "Belo Mundo, Onde Você Está", publicado no Brasil pela Companhia das Letras, tenha uma edição israelense aqueceu, como era de se esperar, o debate a respeito do BDS, movimento que prega o boicote, o desinvestimento e sanções a Israel no âmbito cultural, econômico e científico.

O objetivo é pressionar o país a aceitar o retorno dos refugiados palestinos e seus descendentes, se retirar das fronteiras pré-1967 e suspender a Lei do Retorno, que garante a judeus o direito de emigrar para Israel —o que acabaria por descaracterizar Israel como o único Estado de maioria judaica no mundo.

Para além dessa pauta, a informação, publicada em primeira mão pelo jornal Haaretz e confirmada tanto pela autora quanto pela Modan Publishing House, casa editorial que lançou os dois primeiros livros de Rooney em Israel, suscitou debates periféricos.

Houve discussões relacionadas à identidade da autora, seu gênero, idade e nacionalidade; ao fato de Israel ser singularizado como pária entre acadêmicos e artistas que mantêm relações mesmo com ditaduras; quão frutífera essa ruptura tende a ser para o processo de paz; e, especialmente, se há nela indícios de antissemitismo.

Nos últimos dias, pontos de ônibus em Londres receberam cartazes que utilizam a capa e a fonte do livro mais famoso de Rooney, "Pessoas Normais", para protestar com os dizeres: "Pessoas normais boicotam Israel". A ação do coletivo local Protest Stencil repercutiu nas redes sociais e pautou a mídia britânica e internacional, apontando a amplitude do gesto de Rooney.

Nascida em 1991, Sally Rooney é uma escritora best-seller conhecida por obras dedicadas às relações de personagens millennials como ela. Entre os que não concordam com as opiniões e atitudes da autora quanto a Israel, há os que se valem de preconceitos, como o etarismo e o machismo, para desabonar seu posicionamento político. Segundo essa vergonhosa linha de argumentação, ela seria uma mulher jovem demais para entender a complexidade do conflito.

Entretanto, ainda que seus livros sejam centrados em interações de personagens presos em uma adolescência tardia, com poucas certezas sobre as próprias vidas e um pálido verniz de consciência social que chega a ser engraçado —não se sabe se de modo proposital—, a ficção não reflete necessariamente, como qualquer leitor médio deveria saber, as convicções de uma escritora. Não se pode atribuir à criadora a ingenuidade e a confusão dos jovens inventados por ela.

Ecos da atenção que Rooney dispensa às disputas entre israelenses e palestinos aparecem aqui e ali em seus livros anteriores. Em um diálogo do seu romance de estreia, "Conversas entre Amigos" (2017), as ex-namoradas Frances e Bobbi concordam que, sendo complicado entender relações de poder, devem fiar-se à bondade como parâmetro para deliberar quem é melhor ou pior nas trocas pessoais ou na política internacional.

"Quer dizer, isso é uma questão no discurso público. A gente acaba perguntando, por exemplo, se Israel é 'melhor' do que a Palestina", resume a narradora Frances.

Em uma passagem de "Pessoas Normais", a personagem Marianne vai a um protesto contra a guerra em Gaza. "Marianne [...] queria parar toda a violência cometida pelos fortes contra os fracos". Mas ela sabia que "viveria e morreria em um mundo de extrema violência contra os inocentes".

Fortes e fracos, opressores e oprimidos e até —inacreditavelmente— colonizadores e colonizados são divisões simplificadas e distorcidas comumente usadas pelos que pregam o boicote cultural a Israel. Talvez não pela ingenuidade, mas pela visão dicotômica de israelenses e palestinos, a prosa de Rooney pode coincidir com o ideário do BDS.

Uma justificativa divulgada pela autora é que a Modan Publishing House tem o governo israelense como cliente e produziu um guia usado pelo Exército. Os leitores pró-boicote saudaram a decisão de não aceitar dividir a mesma editora com o que parece ser a representação do próprio mal.

Em maio deste ano, durante a escalada da violência entre Israel e o Hamas, grupo terrorista e partido político que controla a Faixa de Gaza, Rooney assinou, ao lado de dezenas de artistas e intelectuais, o documento intitulado Carta contra o apartheid.

Nele, havia menção à lamentável morte de civis em Gaza e aos gritos de "morte aos árabes", que realmente foram ouvidos em manifestações de extremistas judeus israelenses —coibidas e punidas pela polícia de Israel.

Não há, contudo, palavra sobre a violência do Hamas, da Jihad Islâmica e de outros radicais palestinos, que lançaram mais de 4.000 mísseis contra civis israelenses ao longo de dez dias, ou registro de extremistas árabes israelenses que agrediram judeus ultraortodoxos e postaram o registro das ações no TikTok.

Autoproclamado "movimento que trabalha para acabar com o apoio internacional para a opressão dos palestinos de Israel e pressionar Israel a respeitar o direito internacional", o BDS busca emular os movimentos que pregavam o boicote à África do Sul sob o regime do apartheid, forçando paralelos entre a segregação de negros e o status de palestinos em territórios da Cisjordânia, Gaza e dentro de Israel.

Para alimentar tal narrativa, judeus israelenses recebem o rótulo de colonizadores, sendo nivelados com holandeses e britânicos, exploradores estrangeiros da África do Sul.

A peripécia retórica ignora propositalmente a ancestralidade judaica, ligada há milênios à terra onde hoje se situa Israel, o completo desinteresse dos fundadores das diversas correntes do sionismo moderno em estabelecer colônias ou expulsar árabes e, finalmente, o status real da minoria árabe no país e dos palestinos que vivem na Cisjordânia.

Terra natal de Sally, a Irlanda está entre os países com maior adesão econômica e política ao movimento de boicote. Em texto disponível no site do BDS, que comenta a lei que proibiu em Dublin a comercialização de mercadorias produzidas em assentamentos israelenses, Abdulrahman Abunahel, coordenador do BNC (Boycott National Committee), justificou o apoio irlandês aos palestinos como fruto da solidariedade entre dois povos colonizados.

Uma das especulações periféricas levantadas seria se sua nacionalidade teria relação com a decisão de não publicar "Belo Mundo" em hebraico, o que a autora não comentou.

Em Israel, árabes e judeus trabalham lado a lado em todos os setores da sociedade, inclusive no atual governo, que conta com um partido árabe-islâmico na coalizão. Tampouco ocorre nos territórios administrados pela Autoridade Palestina situação análoga à segregação sul-africana.

Existe, sim, um conflito em andamento, o que torna a situação política entre lideranças e civis de cada lado extremamente complexa. Porém, não se trata de pura opressão ou violência do certo contra o errado, como quer o BDS.

Por exemplo, a barreira de separação, citada pelo movimento como a prova do apartheid, foi construída em 2002, no auge da Segunda Intifada, levante violento contra Israel, quando centenas de atentados mataram mais de 1.400 israelenses e turistas e deixaram milhares de feridos.

Formada de 90% de cerca e 10% de muro de concreto, a estrutura provoca uma divisão —e espera-se que seu traçado ou sua remoção possam ser discutidos, caso haja paz—, ao mesmo tempo que evitou 100% de novos atentados suicidas e não constitui um crime de guerra.

Mas, para Rooney, os dados e as camadas complicadoras parecem não importar. Ela enxerga o BDS simplesmente como uma "campanha de base antirracista e não violenta".

Já a ADL (Liga Antidifamação) discorda. A organização norte-americana, que monitora a incidência de antissemitismo e outras formas de racismo no mundo, "está preocupada com o quanto campanhas anti-Israel, como o movimento BDS, fornecem respostas simplistas, injustas e não construtivas para o complexo conflito israelense-palestino" e aponta que, embora as críticas às políticas e ações israelenses não sejam inerentemente problemáticas, certas formas de retórica e ativismo anti-Israel resvalam no preconceito, ao deslegitimar o país e demonizar o sionismo que lhe deu origem.

Comentando a decisão de Rooney, o ministro israelense da Diáspora, Nachman Shai, chamou o movimento BDS de "antissemitismo em uma nova roupagem". O fato de Rooney não rejeitar a edição de seus livros na China ou na Rússia, contumazes transgressores dos direitos humanos, mas apenas em Israel, entre todos os países, corrobora essa visão ou, ao menos, lança dúvidas sobre sua coerência e solidariedade.

De novo, não há correspondência entre o modo como a minoria muçulmana é maltratada pelo governo chinês ou a comunidade LGBTQIA+ é perseguida pela administração de Vladimir Putin e a realidade dos palestinos, em Israel ou nos territórios, apesar das dificuldades inerentes ao conflito que inegavelmente afetam os civis.

Mais de uma vez, membros e ações do BDS se provaram racistas. Em 2020, um dos seus mais conhecidos porta-vozes, o músico Roger Waters, chamou Sheldon Adelson, empresário judeu americano, de "titereiro" e fez afirmações delirantes para relacionar Israel à morte de George Floyd.

Como se sabe, a figura do mestre de marionetes e a existência de uma conspiração judaica contra o resto do mundo é parte de sedimentados estereótipos usados para motivar a perseguição aos judeus, encontrando versões nos Protocolos dos Sábios de Sião e na propaganda nazista da década de 1930.

Em 2015, o BDS chegou a convencer os organizadores do Festival Rototom Sunsplash, na Espanha, a condicionarem a participação de Matisyahu, cantor judeu americano, a uma declaração que o artista deveria dar contra o sionismo.

Rejeitada por Matisyahu e levada ao conhecimento de organizações contra o antissemitismo, a decisão foi revertida na Justiça e o show foi realizado. Mais tarde, os nove ativistas responsáveis pelas ameaças foram julgados e condenados por uma corte espanhola por preconceito e descriminação.

Ainda que o objetivo de Sally Rooney seja legitimamente ligado à paz, a escritora escolhe colocar-se ao lado de um movimento racista e contraproducente.

A premissa do BDS contra Israel é que o país infringe a lei internacional. Porém, os membros fundadores do movimento, que desde 2005 trabalham incansavelmente para expandi-lo, são contra a existência do país. De acordo com suas colocações, Israel não possui lugar no mundo, independente do tamanho e local de suas fronteiras.

Uma contradição, pois Israel é um Estado legítimo perante a lei internacional e propor a suspensão dos direitos políticos de 9 milhões de pessoas, incluindo os árabes israelenses que lá vivem pacificamente, até participando do Parlamento, seria um crime contra a humanidade e uma violação do direito internacional, que o BDS diz proteger.

O movimento não almeja uma solução de dois Estados, na qual Israel poderia continuar a existir, mas a criação de um Estado palestino e a transformação de Israel em um Estado binacional onde, uma vez mais, judeus seriam minoria.

Tampouco leva em consideração acontecimentos históricos, como as guerras que envolveram israelenses e palestinos, assim como a Partilha da Palestina, de 1947, que propôs a criação de dois países, um para os judeus, que aceitaram, e outro para os árabes, que disseram não. Impossível falar do conflito sem levar em consideração esses e outros múltiplos fatores, que em nada coincidem com o ocorrido na África do Sul.

Um dos personagens de Rooney, Cornell avalia que é "óbvio que a gente não vai salvar o Oriente Médio falando sobre ele em uma festa". Infelizmente, vale também para boicotes literários ou para qualquer medida que busque transformar em narrativa aérea e adocicada uma tragédia que já dura cem anos.

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