Semana de 22 deve ser revista, mas é delírio querer cancelá-la

Catálogo de mostra no MAM coloca evento modernista em perspectiva

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Marcos Augusto Gonçalves

Jornalista, editor da Ilustríssima e autor do livro ‘1922 - a Semana que Não Terminou’ (Companhia das Letras), sobre o evento modernista

[resumo] Há tempos, vozes denunciam o que seria uma armação de São Paulo para consagrar a Semana de 22 como fundadora do modernismo. Catálogo de mostra no MAM-SP coloca o tema em perspectiva, mas reafirma força do grupo paulista.

Não é de hoje que vozes se levantam para contestar o que seria uma trapaça de São Paulo ao disseminar, com considerável êxito, a versão de que o modernismo eclodiu no Brasil em fevereiro de 1922, no Theatro Municipal, onde se realizou a Semana de Arte Moderna. Representantes da intelectualidade paulista teriam ao longo de décadas transformado o evento num divisor de águas que deixaria a cidade e o estado no papel triunfante de locomotiva cultural, a puxar o comboio "passadista" do restante do país.

Mesmo posta assim, de maneira esquemática, a objeção tem seu fundamento. O modernismo obviamente não eclodiu em lugar nenhum de uma hora para outra, e a fetichização da Semana, com as reiteradas e laudatórias comemorações, tem cumprido nas últimas décadas o que parecia ser o plano original de marcar uma data a favor de São Paulo.

O argumento, contudo, se enfraquece quando vem em companhia de uma espécie de ressentimento negacionista que tende a ver em tudo fraude e armação. Nem tanto ao mar, nem tanto ao planalto paulista. Se é fácil atacar os ardis paulistas, chega às raias do delírio a tentativa de cancelar a rica influência e a permanência na cultura brasileira de nomes nascidos do modernismo da Pauliceia nos anos 20, como Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral.

Agora, quando se aproxima a data do centenário da Semana, as interpelações e críticas ao "paulistocentrismo" se intensificam e parece ser cobrado um ajuste de contas com as diversas manifestações renovadoras que ocorreram pelo país de fins de século 19 às primeiras décadas do século 20.

Diga-se que também não é de hoje que boa parte de intelectuais e pesquisadores de São Paulo diverge da ideia da Semana de 22 como um Big Bang da arte moderna brasileira. É fantasiosa a suposta coesão de São Paulo na defesa dessa versão simplista e ufanista.

Não apenas visões críticas, mas também detratores paulistas do grupo modernista desde sempre existiram. Se houve apoio de setores esclarecidos do baronato do café (da família Silva Prado notadamente) à realização da Semana, também se manifestou a fúria da elite provinciana e conservadora contra os chamados "futuristas".

É interessante que no âmbito do centenário parta também de São Paulo, no caso do campo das artes plásticas, um esforço louvável para colocar a Semana e o movimento modernista em perspectiva temporal e geográfica: a exposição "Moderno Onde? Moderno Quando?", com curadoria de Aracy Amaral e Regina Teixeira de Barros. É uma lástima que a mostra em cartaz no MAM, no parque do Ibirapuera, se encerre neste domingo —e não perdure até o ano do centenário.

Permanecerá, contudo, seu catálogo, lançado na última semana, concebido pelas curadoras como obra de referência, que apresenta uma reunião de textos assinados por nomes de diversos centros do país, com o propósito de pontuar "os núcleos de surgimento de expressões de modernidade nas primeiras décadas do século passado".

A exposição e o catálogo recobrem um arco de questões e de obras no período que vai do final do século 19 ao ano de 1937, quando se instala o Estado Novo. As curadoras selecionaram 36 artistas, entre oitocentistas, como o carioca Estêvão Silva ou o paulista Almeida Júnior, e modernos do século 20, como Alfredo Volpi, Alberto da Veiga Guignard e Cícero Dias —passando por aqueles diretamente ligados à Semana e ao grupo paulista, como Anita Malfatti, Di Cavalcanti e Victor Brecheret.

Além da apresentação das organizadoras, o catálogo traz artigos de Luiz Felipe de Alencastro, Felipe Chaimovich, Ana Maria de Moraes Belluzzo, Aldrin Moura de Figueiredo, Cacá Machado, Durval Muniz de Albuquerque Júnior e Ruy Castro. São visões que problematizam o tema de ângulos variados, também com perspectivas de cidades do Norte e do Nordeste.

"A ideia foi mesmo mostrar um modernismo expandido, e não apenas concentrado em São
Paulo", explicam as curadoras à Folha. É a partir da década de 1940, dizem, "que a Semana passa a se tornar ‘histórica’ para o meio cultural nacional" —depois da célebre palestra de Mário de Andrade, em 1942, no Itamaraty, no Rio, em que faz um balanço crítico do movimento, e de um artigo de Oswald de Andrade ("Antes do Marco Zero") publicado em 1943 na imprensa paulista.

Em 1972, durante a ditadura militar, o cinquentenário foi marcado por uma grande exposição no Masp —e desde então comemora-se ritualisticamente em São Paulo os aniversários da Semana, em especial nas datas redondas.

Essas rememorações, ressaltam as duas pesquisadoras, também sempre foram acompanhadas por "reflexões críticas de muitos que nelas veem um ufanismo paulista querendo se impor ao Brasil como única e válida interpretação".


Quem são os autores do catálogo de exposição do MAM sobre a Semana de 1922

1. Luiz Felipe de Alencastro
Historiador e professor da Escola de Economia da FGV-SP. Nascido em Santa Catarina, analisa do ponto de vista político, econômico e social o período em torno da Semana e o contexto sul-atlântico, com destaque para as relações entre Brasil e Argentina

2. Felipe Chaimovich
Doutor em filosofia e curador do MAM-SP de 2007 a 2019, destaca a presença da família Prado na São Paulo do início do século 20 e o papel que exerceu na concepção e realização da Semana

3. Ana Maria de Moraes Belluzzo
Historiadora da arte, curadora independente e professora livre-docente da FAU-USP, situa historicamente a geração modernista e analisa obras indispensáveis para o debate sobre modernismo no Brasil

4. Aldrin Moura de Figueiredo
Diretor do Museu do Instituto Histórico e Geográfico do Pará e professor de história da UFPA, problematiza as fronteiras geográficas do modernismo brasileiro e põe em xeque a imagem da Amazônia como mera fornecedora de fábulas para a criação de uma identidade nacional

5. Cacá Machado
Historiador e compositor, dirigiu a Funarte (2008-2010) e atualmente é diretor de Cultura da Unicamp. Em seu texto, examina as pesquisas de Mário de Andrade e discorre sobre a polifonia da cultura musical brasileira, oriunda de diferentes setores da sociedade

6. Durval Muniz de Albuquerque Júnior
É professor visitante da UEPB e professor titular aposentado da UFRN, especialista em teoria e filosofia da história. Seu texto discute os embates entre o modernismo pernambucano e o paulista a partir da atuação de Gilberto Freyre e Joaquim Inojosa

7. Ruy Castro
Escritor e jornalista mineiro sediado no Rio de Janeiro, colunista da Folha, opõe-se às narrativas tradicionais sobre a Semana de 22, levantando uma série de questões e comentários que relativizam a importância do evento para o processo de modernização do país

Moderno Onde? Moderno Quando? A Semana de 22 como Motivação

  • Preço R$ 100 (218 págs.)
  • Curadoria de Aracy A. Amaral e Regina Teixeira de Barros
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