Descrição de chapéu
Luís Augusto Fischer

Consagração da Semana de 22 impôs falsa ideia de que São Paulo foi o berço do modernismo

Às vésperas do centenário do movimento, é hora de ouvir outras vozes do país, defende professor gaúcho

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Luís Augusto Fischer

Professor de literatura na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e autor, entre outros livros, de "Literatura Brasileira - Modos de Usar" (L&PM) e "Duas Formações, Uma História" (Arquipélago). Lançará no próximo ano um estudo que descreve o processo de consagração do modernismo paulista, pela Todavia

[RESUMO] Processo de divinização da Semana de 22, estabelecido há pelo menos cinco décadas, impôs a falsa ideia de que o movimento paulista foi o berço da modernidade no país e de que dele dependeu tudo o que de bom e ousado aconteceu na cultura brasileira, contra um suposto reacionarismo empedernido de cariocas e de todo o resto do país, avalia professor. Às vésperas do centenário da Semana, defende, é hora de ouvir outras vozes de um período de forte inquietação cultural.

Bicentenário da Independência e centenário da Semana de Arte Moderna de São Paulo: comemorações desse porte não podem passar batidas pelo calendário —e não passarão.

Em fevereiro de 2022, terá lugar em Goiânia, com subsedes em Ribeirão Preto (SP), Toledo (PR), Palmas (TO) e Sorriso (MT), a Semana de Arte Neomoderna brasileira, para atualizar a inteligência, a arte e o pensamento nacionais neste novo e vibrante século. O século do agro brazuca, o século da soja que sai daqui para alimentar porcos e gente pelo mundo afora, o século do estilo sertanejo universalizado.

A revolução digital emparelhou a importância de velhas formas artísticas, como a literatura e a pintura, e de novas formas, que são arte mas também diversão e filosofia. Design, moda, passatempo, decoração são agora integrantes do Metaverso Planetário em que estamos ingressando, pintados com as cores nacionais.

Na programação, haverá muito sertanejo (modalidades sofrência e vim-te-comer), chapéu texano, romerobritto, TikTok dance, reciclagem de cultura popular autêntica, de mistura com os estilos capturados por nossos agentes neomodernos —gente formada em Miami, Seul e Pequim, para muito além de Paris, Londres, Roma e Nova York, capitais importantes do século 20, do qual cumpre nos despedir.
Um novo Brasil vai emergir. O século 21 será agroneomoderno, ou não será.

Esse pesadelo ainda não existe, espero que nem em imaginação. Ele foi esboçado aqui para um exercício de comparação: a Semana de Arte Moderna de São Paulo, aquela do Theatro Municipal de São Paulo, em fevereiro de 1922, deve ter sido vista com uma semelhante aura de estranheza e repulsa pelo mundo da melhor inteligência sediada no Rio de Janeiro, a então capital do país.

Atenção para as restrições: o mundo da melhor inteligência sediada no Rio. Não estamos falando de velharias que ainda respiravam, vivos ou por sua fama póstuma, como Olavo Bilac e Coelho Neto. Estamos falando de Machado de Assis (falecido apenas 14 anos antes de 22), Álvaro Moreyra, Ismael Nery, Dante Milano, Julia Lopes de Almeida, João do Rio (falecido em 21), Lima Barreto, Chrysanthème, Carmen Dolores (morta em 1910). E de Pixinguinha, Sinhô, Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth.

Como demonstra fartamente a recente antologia organizada por Ruy Castro ("As Vozes da Metrópole: uma Antologia do Rio dos Anos 20"), e como sabe todo o mundo que leu ou ouviu os acima citados, o Rio de Janeiro era já moderno, sem ismo.

Em jornais, revistas, livros, espetáculos e discos era possível entrar em contato com cultura popular urbana vibrante, inconformismo, conflitos sociais da sociedade de classes, feminismo e divórcio, arguição da moral pequeno-burguesa, defesa de estados alterados de consciência, complexidade cultural à toda prova, ironia, desejo e prática de liberdade. Tudo isso e mais que isso.

Quem não sabe disso pode achar, e costuma crer, que todas esses temas e essas discussões dependeram da Semana paulista —mas não, absolutamente não.

Eles e elas circulavam antes, quando menos na capital brasileira de então, que se era a sede da Academia Brasileira de Letras, uma instituição que nasceu com os olhos postos no passado, era também a sede dos Poderes da República e da administração do Brasil desde os anos de 1760; era o lugar dos grandes cargos letrados federais, onde ganhavam seus salários muitos escritores e intelectuais; era o lugar em que o samba e o choro iam sendo sintetizados; e era um porto internacional aberto ao mundo.

(Para não perder o fio da meada: o que é que não tinha nesse Rio de Janeiro já moderno? Nacionalismo, indianismo literário, ânsia de ruptura. Isso, sim, é que nasceu, ou renasceu, com o modernismo paulista.)

O Rio de Janeiro, concordo com o leitor, não era a oitava maravilha do mundo. Tinha sido a cidade mais escravagista do planeta até pouco antes e abrigava massas de deserdados a quem não socorreu o Estado republicano de 1889, nem para fazer justiça elementar, como a de oferecer alternativas razoáveis de ingresso no mundo da liberdade ou da não escravidão.

Tinha escassas relações com o universo ameríndio, mas abrigava o trabalho do inovador antropólogo Roquette-Pinto. De todo modo, era uma cidade cosmopolita, que conversava com o Ocidente todo por suas figuras de proa cultural, tanto quanto ia acolhendo as preciosas formas artísticas novas de matriz popular.

Do ponto de vista do Rio, então, para quê uma semana para modernizar a arte e o pensamento? Algo assim só caberia, como de resto admitiu Mário de Andrade em famosa conferência (lida no Rio) de 1942, em uma cidade rica, mas provinciana, como São Paulo. Um festival rico e provinciano, que agregava figuras então prestigiosas, como Graça Aranha, que com o tempo seria expulso do panteão modernista, e figuras protofascistas, como Plínio Salgado, ao lado do artista realmente triunfador nas décadas seguintes, Mário de Andrade.

Se assim foi, tem o direito de perguntar o perplexo leitor, como é que há mais de uma geração a gente aprende na escola que dependeu da Semana de Arte Moderna paulista tudo de bom, inventivo, atualizado, ousado, ao mesmo tempo mais profundamente nacional e mais abertamente cosmopolita, que apareceu na cultura brasileira?

A resposta é tão simples de enunciar quanto inusitada para o quadro vigente da vida letrada brasileira: o processo de entronização e divinização da Semana de 22 foi obra de uma longa construção, que demorou ao menos meio século para se impor e dependeu de figuras-chave no plano da crítica e da historiografia, tanto quanto de instituições no plano da dominação empírica.

Figuras-chave: Mário de Andrade, absolutamente vital para o tipo de mentalidade que o tempo consagraria, secundado por Oswald de Andrade e outros participantes da década de 1920. No plano intelectual e crítico, Paulo Prado, pensador estratégico da Semana, Sérgio Buarque de Holanda, depois Antonio Candido (e muitos de seus orientandos, futuros professores da USP e de outras instituições) e Alfredo Bosi (autor da lamentável manobra intelectual chamada "pré-modernismo") foram as principais vozes, não a defender o legado modernista paulista, como se diz, mas a disputar explicitamente o significado desse legado, contra outros pontos de vista que relativizavam a importância dos feitos paulistanos.

(Não, não há bandidos ou mocinhos nisso, e não se trata aqui de um juízo moral: Sérgio Buarque, Candido e Bosi figuram aqui porque foram protagonistas desse processo. Tivesse sido outro o curso das coisas, outros seriam os nomes aqui considerados.)

Instituições: a política cultural modernista, particularmente pelas ideias de Mário, logo alcançou órgãos de Estado, como o Departamento de Cultura da prefeitura da capital paulista e agências federais, como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Gente de qualidade afinada com esse ideário esteve na criação e na consolidação da primeira universidade moderna e rica do país, a USP, que sediará a reinterpretação da então chamada identidade brasileira.

Por trás de tudo isso, a mais decisiva das instituições, se é que como tal se pode qualificar a irresistível ascensão da economia paulista, que do café derivou para a indústria e a finança, alcançando, nos anos 1960, a clara dominação do cenário nacional, de mãos dadas com a velha e abominável tradição centralista do Estado nacional brasileiro.

No meio desse longo processo, muitos desbastes foram feitos na grande árvore modernista. Oswald ficou com a pecha de irresponsável, em contraponto com o responsável-mor pelo novo nacionalismo modernista, Mário. Menotti del Picchia, Guilherme de Almeida e Tácito de Almeida foram, por motivos variados, sendo varridos para baixo do tapete; Plínio Salgado foi expulso da companhia.

Entre os não paulistas participantes da Semana, duas figuras mereceram ativo rechaço por parte dos intelectuais modernistas paulistas: Ronald de Carvalho e Graça Aranha. Manuel Bandeira não repudiou na totalidade o modernismo paulista, mas preferiu não estar em São Paulo durante a Semana e mais de uma vez renegou o título de João Batista do movimento —dado por Mário de Andrade, que nessa imagem cristã postulava para si, imodesta e implicitamente, o papel do verdadeiro redentor.

Apenas nos anos 1970 foi pacificada, como discurso hegemônico do campo letrado —universidades, programas de ensino e de vestibular, escolas, crítica de varejo na imprensa, editoras, concursos—, a ideia de que foi a Semana que inventou tudo de bom, moderno, futuroso e válido no Brasil, de 1922 em diante. A Semana era cinquentona quando passou a integrar a rotina do ensino médio e se impôs a leitura obrigatória de "Macunaíma".

As comemorações acadêmicas foram muitas nessa passagem, assim como foi forte o apoio oficial, estadual e federal, para a publicação das obras completas de Mário e Oswald (que outro escritor mereceu tal apoio?).

Assim, no coração da ditadura militar brasileira —também ela nacionalista e, a seu truculento modo, modernizante—, os agora obrigatórios exames vestibulares unificados passaram a ditar a regra do ingresso dos jovens nas universidades, mediante programas em que a Semana de Arte paulista era comparada com as maiores revoluções culturais da humanidade ou, quando menos, era tratada como o mais importante dos eventos culturais brasileiros de todos os tempos. (Duvida? Pega os programas da época.)

Assim, faz 50 anos que a gente aprende, no ar cultural que se respira, inclusive na escola, essa nova verdade: a Semana é o Big Bang da modernidade, inaugurando a vida inteligente no Brasil, contra o conservadorismo ou o reacionarismo empedernido e unânime dos cariocas e de todo o resto do país. Não fosse pela Semana e pelos paulistas, estaríamos todos perdidos no século 19 ainda, embotados de parnasianismo e sorriso-da-sociedade, tomando chá errado na Academia Brasileira de Letras.

Cinquenta anos são duas gerações, tempo e espessura histórica suficientes para a operação de anacronismo e desinformação ganhar ares de verdade histórica —e de verdade retrospectiva: ficam relativizadas ou são até mesmo apagadas várias camadas de tempo e inúmeras ações ocorridas na vida real brasileira, de forma a garantir a verdade imposta por décadas de interpretação.

Além do que já se disse acima, Di Cavalcanti é tratado como acessório no processo, quando dele dependeu muita coisa decisiva; obras como "Macunaíma" e o "Manifesto Antropófago", que nasceram em 1928, alguns anos depois da Semana, são tratadas como brotadas da Semana ela mesma; para piorar, o romance realista dos anos 30 é interpretado como dependente da Semana, com o quê se engorda indevidamente o espólio paulista; mais recentemente, inclusive o samba carioca vem de ser tratado, por uma figura inesperada como Emicida (em seu "AmarElo"), como ligado ao que fizeram e pensaram os paulistas de 1922.

Operações intelectuais sofisticadas, como a perversa invenção da categoria do pré-modernismo, invenção de Bosi (e não de Alceu Amoroso Lima, como Bosi alega), ou triviais, como o apagamento e o rebaixamento do valor de vários escritores em ação no Rio e em outras cidades brasileiras, são levadas a cabo sistematicamente, e aí ocorre o milagre às avessas.

Ei-lo aqui: um erro comum e terrível para quem pensa sobre a história —qualquer um de nós, profissionais ou leigos no tema— consiste em tomar os fatos do presente como sendo desaguadouro natural do passado. O mau raciocínio dessa modalidade de compreensão leva a supor que algo aconteceu assim porque só podia ter acontecido assim. É um tipo de fatalismo, mas é pior.

Quem pensa e sente assim, olha o passado como sendo aquilo que veio a dar no presente, em uma linha reta. Daí, quando se dirige ao passado vai direto aos fatos que confirmam seu presente, selecionando apenas os elementos que explicam, condicionam, prenunciam (ou parecem explicar, condicionar, prenunciar) o que está aqui no presente.

Esse erro se vê fácil em biografias. Biógrafo que pensa desse jeito vai dizer que o biografado célebre no presente, quando tinha 7 anos e rabiscava na calçada de casa, dava já a ver o grande artista plástico que seria. Bobagem, porque o menino de 7 anos poderia ter morrido de catapora no mês seguinte ou ter virado bombeiro ou ter migrado para a China. Pierre Bourdieu explicou esse erro, elementar e muito danoso, em um indispensável artigo, "A Ilusão Biográfica".

Projetando o presente sobre o passado, dando por pressuposto que o que ocorreu só poderia ter ocorrido como ocorreu, envenenando sua leitura de forma a enxergar apenas elementos que confirmem sua pressuposição, a vitória da visão de mundo modernista paulista fez crer que desde 1922 só ela era moderna.

Walter Benjamin falava da necessidade de considerar a história de outro modo: o passado como um conjunto de futuros potenciais —um deles vai acontecer, enquanto outros não, o que não os impede de terem existido e de eventualmente manterem, aqui no presente, uma energia interessante, uma utopia, um sonho. Olhar o passado como prenhe de futuros, não como desembocando em apenas um futuro fatal.

Assim me parece que devemos olhar para a Semana de Arte Moderna, que completa cem anos daqui a pouco. Não como sendo a raiz do que agora acontece (e muito menos de tudo de bom que acontece agora), mas como sendo um episódio interessante, que ao lado de muitos outros formou parte de um tempo de inquietação grávido de muitos futuros, alguns dos quais não aconteceram, mas nem por isso devem deixar de estar em nossa consideração do passado.

As ideias e as obras canônicas geradas pelos paulistas modernistas valem sim —não talvez o que alegam valer, mas o que toda ideia e obra de arte vale. Que outras vozes de 1922 tenham o direito de aparecer para nossa leitura, no presente.

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