Investidores nos EUA veem interferência constante do Planalto

Silas Martí
Nova York

O pedido de demissão do presidente da Petrobras devolveu a estatal à estaca zero em sua relação com investidores no pós-Lava Jato.

Visto pelo mercado como um executivo habilidoso, que conduziu a petroleira para fora do buraco nos últimos anos, Pedro Parente deixa um vácuo no comando e a certeza para os acionistas de que a ingerência do Planalto na estatal não deve terminar tão cedo.

Desde o início da greve dos caminhoneiros, que travou todo o país nos últimos dias, e o anúncio do corte no preço do diesel, o preço das ações da Petrobras despencou cerca de 35%, resultando numa perda de seu valor de mercado de mais de R$ 150 bilhões, o que neutraliza os ganhos dos últimos dois anos, época em que Parente esteve na presidência.

Na Bolsa de Nova York, papéis da empresa despencaram 15% com o anúncio de sua demissão, com ações negociadas a US$ 10,11 no fim do pregão –há duas semanas, papéis eram vendidos por cerca de US$ 17.

 

O JP Morgan, seguindo o exemplo do Credit Suisse e do Merril Lynch na semana passada, também rebaixou sua nota para a empresa depois da demissão de Parente. Um comunicado do banco acrescentou que sua saída indica que não há mais um “pilar robusto de governança” na empresa.

Em nota, a vice-presidente da Moody’s, Nymia Almeida, também criticou a troca de comando, dizendo que isso compromete as melhoras financeiras recentes da estatal.

“O valor da ação vinha melhorando e de repente jogaram tudo pela janela. Eles voltaram à estaca zero de novo”, diz John Herrlin, analista do banco Société Générale, que também rebaixou a nota da petroleira. “Acabamos de ver apunhalado alguém que consertava as coisas, e a reação do mercado é desconfiar de quem for entrar no seu lugar.”

Herrlin acrescenta que a saída de Parente é um alerta a investidores, dizendo que os interesses do governo prevalecem sobre os dos acionistas.

“É ruim para a empresa e ruim para o país”, ele diz. “Pensei que Parente tivesse autonomia e sobreviveria, mas isso mostra que o executivo no comando da Petrobras sempre vai estar a serviço do governo quando deveria haver uma separação entre Estado e igreja.”

Mas dúvidas sobre a separação de fato entre os rumos da empresa das decisões políticas no país acaba levando a outra separação, afastando investidores de ações da estatal.

Paul Cheng, analista do banco Barclays, diz que a interferência do Planalto na política de preços da Petrobras decretou o “fim da lua de mel” com o governo e põe em risco os rendimentos de acionistas.
“Os recentes eventos que afligem as ações provam que há um alto risco político de investimentos na Petrobras, e seus papéis devem ficar sob pressão até as eleições em outubro”, afirmou Cheng, em um comunicado aos investidores.

Ele não está sozinho nessa avaliação. Outros analistas também temem um quadro de uso político da estatal, em especial nas eleições deste ano.

Fernando Valle, analista do setor de energia da Bloomberg, afirma que a demissão de Parente “mostra que o risco de ingerência ainda é alto na Petrobras e levanta um alerta para investidores em época de eleição, já que a Petrobras pode ser usada para controlar a inflação e a opinião pública”.

E, na visão dele, os problemas da estatal só devem aumentar nos próximos meses, com a dificuldade de encontrar um substituto do “mesmo calibre” de Parente se não houver garantias de autonomia e independência da firma.

“O grande problema é que já não há desconforto por parte do governo com essas interferências, então, se fizeram isso uma vez, podem fazer mais e mais vezes”, diz Muhammed Ghulam, da consultoria Raymond James, em Houston. “Num ano de eleição, pode haver ainda mais e mais greves.”

Mas há um consenso entre analistas de que o pior já passou e que na ressaca do corte do diesel diante da greve dos caminhoneiros e da demissão de Parente a Petrobras entra agora num longo período de recuperação, que será lenta.

“O tombo já aconteceu”, diz Ghulam. “Mas a perspectiva daqui para frente é muito negativa. A saída do presidente não vai ter um impacto direto em lucros ou prejuízos, mas a transição para outro presidente pode se tornar um processo bagunçado num momento bastante tumultuado.”
 

 

 

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