Descrição de chapéu Financial Times

China cresce no menor ritmo em 2 anos em meio a preocupação com guerra comercial

PIB avança 6,7% no segundo trimestre, ainda acima da meta para 2018, de 'cerca de 6,5%'

Gabriel Wildau
Hong Kong | Financial Times

A economia chinesa se expandiu em 6,7% no segundo trimestre em relação ao mesmo período do ano anterior, seu menor crescimento desde 2016, sob o impacto de uma campanha agressiva de redução do endividamento que restringiu o investimento em infraestrutura.

O ritmo de expansão anual anunciado na segunda-feira (16) continua acima da meta governamental de "cerca de 6,5%" de crescimento para este ano, mas a desaceleração surge em um momento no qual a guerra comercial entre a China e os Estados Unidos agrava a situação adversa criada pela desaceleração na demanda interna. O PIB (Produto Interno Bruto) chinês havia crescido em ritmo anualizado de 6,8% nos três trimestres precedentes.

Operários trabalham em fábrica na cidade de Huaibei, na China - AFP

Uma campanha para combater o endividamento excessivo e o risco financeiro, iniciada no começo do ano passado depois de quase uma década de pesado estímulo ao crédito, pesou sobre o investimento em ativos fixos, um dos pilares do crescimento. Esses desembolsos cresceram em apenas 6% no primeiro semestre de 2018, um recorde de baixa.

"Uma das principais razões para a desaceleração é que o investimento em infraestrutura começou a se desacelerar no primeiro trimestre, com os esforços do governo [central] para controlar o endividamento dos governos locais", disse Haibin Zhu, economista chefe para a China do banco JPMorgan Chase em Hong Kong.

"A boa notícia é que existe espaço para prover mais apoio fiscal por meio de cortes de impostos e investimento mais alto em infraestrutura. A expectativa é de que o governo aja nesse sentido", ele acrescentou.

Uma política monetária mais firme também gerou arrasto para o crescimento. Números divulgados na sexta-feira mostram que a base monetária M2 e o crescimento geral do crédito —incluindo empréstimos bancários e empréstimos extrapatrimoniais— registraram seu mais baixo crescimento de todos os tempos em junho. O impacto das novas regras cujo objetivo é reduzir o risco gerado pelo sistema bancário paralelo resultou em forte contração dos empréstimos por instituições não bancárias.

Em resposta a sinais de desaceleração, o banco central afrouxou sua política nas últimas semanas, reduzindo as reservas que os bancos chineses precisam manter depositadas. Os analistas acreditam que o crédito tenha chegado à sua maior contração em junho, e que vai se acelerar nos próximos meses.

Mao Shengyong, porta-voz do Escritório Nacional de Estatísticas da China, disse que o impacto do conflito comercial entre a China e os Estados Unidos sobre a economia chinesa seria "relativamente limitado".

Mas à véspera de uma conferência de cúpula com a União Europeia que começou segunda-feira, na qual o presidente chinês Xi Jinping deve tentar projetar uma frente unida contra o protecionismo comercial liderado pelos Estados Unidos, Mao enfatizou que qualquer impacto negativo iria além da China.

"Essa fricção comercial que os Estados Unidos causaram unilateralmente influenciará os dois países. Mas hoje a economia mundial tem cadeias de suprimento estreitamente integradas. A distribuição é mundial, e com isso muitos países serão atingidos", ele disse.

O impacto da guerra comercial ainda não se fez sentir nos dados econômicos divulgados pela China. Dados alfandegários chineses publicados na sexta-feira mostram que o superávit mensal da China no comércio com os Estados Unidos foi o maior da história, em junho, chegando a US$ 29 bilhões. As exportações gerais subiram em 11,3% no mês passado, superando as expectativas.

Mas o efeito do conflito comercial pode começar a surgir nos dados macro nos próximos meses, depois que Estados Unidos e China impuseram cada qual tarifas sobre US$ 34 bilhões em produtos importados do parceiro, a partir de 6 de julho. Isso vai tornar mais agudo o dilema das autoridades econômicas entre reduzir o endividamento ou preservar o crescimento.

"Antecipamos que o crescimento no [segundo semestre] será desafiado pelo crescimento lento do crédito e pela atividade imobiliária mais morna. A intensificação do conflito comercial com os Estados Unidos também começará a pesar sobre o crescimento", escreveu Louis Kuijs, diretor de economia asiática da Oxford Economics em Hong Kong, na segunda-feira.

"Mas os dados mais recentes sobre as exportações da China indicam que o ímpeto da demanda mundial mais ampla por enquanto continua sólido", ele afirmou.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

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