Tabela de frete provoca 'overbooking' em navios de exportações

Relatório da Maersk aponta que problema deverá reduzir exportações do país neste ano

Taís Hirata
São Paulo

O impacto da tabela de frete rodoviário chegou às exportações e tem levado as empresas de transporte marítimo a praticar um “overbooking” de até 200% nos navios. 

O abalo também deverá provocar uma queda das exportações —o que já foi percebido no segundo trimestre e deverá continuar ao longo do ano, segundo relatório da Maersk, líder global em transporte marítimo. 

O tabelamento do frete rodoviário foi uma das concessões do presidente Michel Temer para encerrar a paralisação dos caminhoneiros, em maio deste ano.

Containers coloridos  empilhados no patio do Brasil Terminal Portuario (BTP) no terminal de Santos
Containers empilhados no patio do Brasil Terminal Portuario (BTP) no terminal de Santos - Eduardo Knapp/Folhapress

A medida sofreu duras críticas do agronegócio e da indústria, que questionam a constitucionalidade da tabela no STF (Supremo Tribunal Federal). 

Além de provocar uma alta no custo do transporte, estimada em 12% pela CNI (Confederação Nacional da Indústria), a medida mudou a forma de negociar com os caminhões. 

“A negociação passou a ser diária, tanto do preço como da disponibilidade do caminhão na data escolhida. Como resultado, os clientes não conseguem prever com precisão quando a carga chegará [ao terminal portuário]”, afirma Antonio Dominguez, diretor da Maersk para a Costa Leste da América do Sul.

A partir daí, cria-se um efeito cascata: para garantir o espaço na embarcação, os exportadores fazem várias reservas para uma só carga. 

Isso aumenta o risco das empresas de transporte marítimo de ficarem esperando um carregamento que não vai aparecer. 

Segundo a Maersk, grandes exportadores tem chegado com metade da carga para a qual reservaram espaço, e clientes de menor porte simplesmente não aparecem. 

Com isso, as companhias passaram a fazer um “overbooking” de até 200% —ou seja, como já sabem que grande parte das cargas não chegarão, fazem duas vezes mais reservas do que de fato caberia no navio, para conseguir efetivamente enchê-lo.

Mesmo com a medida, entre 15 de julho e 15 de agosto, 200 mil toneladas de mercadorias deixaram de ser exportadas devido ao problema, estima a companhia.

A prática de “overbooking” começou em 2016, quando o espaço disponível nos navios começou a cair, devido à crise econômica que derrubou as importações, o que levou as companhias marítimas a reduzir a frota no país. 

À época, porém, a situação era menos grave: a reserva adicional de segurança era de 10% do espaço. O quadro se agravou a partir da paralisação dos caminhoneiros, segundo a Maersk. 

Outros fatores também têm pressionado os exportadores, como a volatilidade do câmbio e safras fortes, que ampliaram os volumes a serem enviados, segundo o relatório. 

Além da falta de previsibilidade das entregas, o aumento de custo tem levado empresas de menor porte a simplesmente cancelar parte dos carregamentos, segundo Sérgio Mendes, diretor-geral da Anea (Associação Nacional dos Exportadores de Algodão) e da Anec (Associação Nacional dos Exportadores de Cereais).

Por enquanto, a solução tem passado por uma maior comunicação entre exportadores e armadores, para que estes sejam pelo menos avisados quando a carga não for chegar. 

O ideal para as empresas de transporte marítimo, porém, seria que o pagamento fosse feito no ato da reserva —como ocorre nas companhias aéreas, por exemplo—, para coibir essas reservas adicionais, que hoje não são cobradas, afirmou Dominguez. 

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