Aliados de Bolsonaro culpam líderes governistas por ataques a Guedes

Desarticulados, novatos não conseguiram blindar ministro da economia

Thiago Resende Angela Boldrini
Brasília

A confusão protagonizada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, e a oposição durante reunião na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça), na quarta-feira (3), levantou uma nova onda de críticas sobre a articulação política do governo Jair Bolsonaro (PSL).

Deputados defensores da reforma da Previdência reclamaram que os líderes governistas deixaram Guedes à mercê dos ataques da oposição e que faltou orientação estratégica para os membros aliados do colegiado sobre como se posicionar na discussão.

O presidente da CCJ, Felipe Francischini (PSL-PR), reconheceu que faltou articulação política para evitar a extensa sequência de questionamentos de deputados contrários ao texto na comissão.

Os procedimentos para a audiência com Guedes foram combinados previamente.

"Tudo foi combinado em sessões públicas, em reuniões da comissão. Eu vi que faltou realmente articulação", disse ele, que foi eleito para a CCJ sob a proteção do ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni.

A reclamação é ecoada não só pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que na quarta questionou o fato de os líderes Delegado Waldir (PSL-GO) e Major Vitor Hugo (PSL-GO) não terem organizado uma lista de falas intercaladas com deputados defensores da reforma.

Uma das reclamações é que, como a base governista é composta em grande parte por novatos de primeiro mandato, faltou orientação sobre procedimentos técnicos do debate.

Por exemplo, recomendando que deputados favoráveis à reforma também assinassem o requerimento pedindo a audiência com Guedes, já que os autores têm preferência na hora de falar.

Como só houve assinaturas de oposicionistas, os 12 requerentes que assumiram as primeiras falas, de dez minutos cada, eram todos de partidos como PT, PSOL, PDT e PSB.

A oposição selecionou em sua maioria parlamentares experientes para o colegiado.

Os deputados formaram fila já na última terça-feira de março, dia 26, para se inscrever para falar com a presença de Guedes. Os favoráveis à reforma foram para o fim da lista.

Além disso, poucos líderes partidários compareceram à sessão. O próprio líder do PSL, Waldir, demorou a chegar à comissão e foi um dos últimos a se inscrever para falar.

No Novo, por exemplo, a implosão da reunião gerou um debate interno sobre como se posicionar frente à oposição, que colocou sua tropa de choque no colegiado.

Apesar do bate-boca com o ministro, o presidente da CCJ diz acreditar que não houve baixa nos votos esperados a favor da PEC da reforma da Previdência.

Ele ainda diz que o governo irá aprovar a proposta, e que o calendário de votação será mantido para a semana do dia 17 de abril.

O secretário-adjunto de Previdência do Ministério da Economia, Bruno Bianco, que nesta quinta-feira (4) se reuniu com os membros da CCJ em sessão sobre aspectos técnicos da PEC, minimizou o episódio entre Guedes e deputados.

"Me parece que esse tipo de embate é comum", afirmou. Bianco continua otimista com a aprovação da reforma na CCJ. "A proposta é absolutamente constitucional."

Aliados de Bolsonaro também se pronunciaram minimizando o episódio. O vice-líder do governo na Câmara, Darcísio Perondi (MDB-RS) disse que deputados ficaram indignados com a discussão entre Zeca Dirceu (PT-PR) e o ministro. "Ele desrespeitou o ministro não só como autoridade, mas como idoso. Acho que isso aumentou os nossos votos aqui", afirmou.

O ministro e o deputado petista se envolveram em confusão depois que Dirceu disse em seu discurso que Guedes era "tigrão" com aposentados e "tchutchuca" com privilegiados da sociedade. O ministro revidou: "Tchutchuca é a mãe!".

Com a confusão instalada, Francischini encerrou a sessão abruptamente.

Rogério Marinho, secretário especial de Previdência e Trabalho, afirmou que Guedes teve serenidade, e respondeu como ofensa pessoal, mas que deputados estão mais abertos à aprovação da proposta.

"Todas as intervenções, até aquelas desaforadas ou fora do tom, admitiam que a reforma é necessária, mesmo que não essa que está sendo proposta. O tom mudou", afirmou Marinho em São Paulo.

Colaborou Anaïs Fernandes, de São Paulo

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