Após Bolsonaro desautorizar secretário, porta-voz nega divergências no governo

'Continuo e muito', disse Cintra ao deixar Planalto após reunião com presidente

Talita Fernandes Gustavo Uribe
Brasília

O porta-voz da Presidência, general Otávio Rêgo Barros, afirmou nesta segunda-feira (29) que "não há fricção" entre o presidente Jair Bolsonaro e o secretário da Receita, Marcos Cintra.

Cintra foi desautorizado por Bolsonaro após dizer em entrevista à Folha que pretendia incluir igrejas na cobrança de tributos no país. Irritado, o presidente gravou um vídeo para acalmar os ânimos da bancada evangélica.  

"Não há fricção entre o nosso presidente e o secretário. Apenas o presidente —por conta de seus conceitos políticos, das suas percepções políticas— entendeu que não é nem que não e necessário, não se deve bitributar as igrejas em função do conhecimento que ele tem neste assunto", afirmou Rêgo Barros.

Questionado sobre a permanência de Cinta no governo, o porta-voz respondeu que Bolsonaro não falou sobre a possibilidade de saída do secretário.

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O porta-voz Rêgo Barros - AFP

"O presidente absolutamente não fez nenhum comentário no sentido de que haja qualquer que seja a possibilidade de substituição."

Ao deixar o Palácio do Planalto no início da noite desta segunda, onde se reuniu com o presidente, Cintra se resumiu a dizer que fica no governo. "Continuo e muito", afirmou.

Em rápida declaração à imprensa na noite desta segunda, o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que Cintra não propôs aumento de tributos.

“Nós temos dito que vamos reduzir e simplificar impostos. Em nenhum momento ele disse que vai aumentar impostos, não foi isso que ele disse, foi mal interpretado”, afirmou.

O ministro não fez comentários sobre a declaração feita pelo secretário em defesa do fim da imunidade tributária para igrejas.

Em entrevista à Folha, publicada na edição desta segunda, o secretário da Receita disse que um novo tributo, que deve ser criado para simplificar o modelo de arrecadação no país, teria ampla abrangência, recaindo inclusive sobre igrejas, que hoje são isentas.

A fala incomodou líderes evangélicos, que rapidamente telefonaram para Bolsonaro pedindo explicações. O presidente foi eleito com grande apoio da bancada evangélica.

Em resposta às reclamações, ele prometeu a parlamentares que gravaria um vídeo desmentindo a cobrança e se disse surpreso com a declaração de Cintra. 

Em uma mensagem de 41 segundos, Bolsonaro disse duas vezes que nenhum imposto será criado para as igrejas.

“Quero me dirigir a todos vocês, dizendo que essa declaração não procede. Quero dizer que em nosso governo nenhum novo imposto será criado, em especial contra as igrejas, que, além de terem um excelente trabalho social prestado a toda a comunidade, reclamam eles, em parte com razão ao meu entendimento, que há uma bitributação nessa área”, afirmou.

Ao final da mensagem, Bolsonaro fez questão de reforçar: "Então, bem claro: não haverá novo imposto para as igrejas. Bom dia a todos. E fiquem com Deus”.

O vídeo foi então distribuído para os líderes pelo WhatsApp antes mesmo de ser divulgado nas redes sociais do presidente. 

Antes de fazer a gravação, Bolsonaro telefonou para o ministro da Economia, Paulo Guedes, questionando a declaração do secretário e avisando que desautorizaria sua fala.

À tarde, após retornar da abertura de um evento do agronegócio no interior paulista, o presidente se reuniu separadamente com Guedes e Cintra. A agenda com ambos já estava prevista desde sexta-feira (26).

Segundo o porta-voz, o tema sobre os impostos foi tratado no encontro, mas o assunto "foi superado" pelo governo.

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