Após restringir sacolas, cidade californiana quer acabar com copos de café

Berkeley foi uma das primeiras dos Estados Unidos a adotar a coleta seletiva de lixo

Emily Chasan Hema Parmar
Nova York

A República Popular de Berkeley, na Califórnia, se orgulha de sua liderança nas questões cívicas e ambientais. A pequena cidade a leste de San Francisco, um reduto dos progressistas, foi uma das primeiras dos Estados Unidos a adotar a coleta seletiva de lixo. Proibiu o uso de isopor, e foi pioneira nas restrições às sacolas plásticas para compras. Alguns meses atrás, o legislativo municipal de Berkeley colocou de aviso prévio um novo flagelo ambiental: os copos de café para viagem.

Cerca de 40 milhões de copos descartáveis são jogados no lixo em Berkeley a cada ano, de acordo com o legislativo, quase um por morador/dia. Por isso, em janeiro o governo municipal anunciou que as cafeterias terão de cobrar uma taxa adicional de US$ 0,25 (R$ 0,98) dos consumidores que optarem por copos para viagem. "Não podemos mais esperar", disse Sophie Hahn, a vereadora que propôs a medida, no momento do anúncio.

Copos de papel da marca Starbucks
Copos de papel da marca Starbucks; cidade nos EUA restringe embalagens - Jason Redmond/AFP

Sobrecarregados de lixo, governos de todo o mundo estão proibindo o uso de embalagens e copos descartáveis. A Europa decretou que os copos descartáveis devem ser descontinuados até 2021. A Índia pretende eliminá-los até 2022. Taiwan estabeleceu uma data-limite em 2030. Sobretaxas como as impostas por Berkeley devem se tornar mas comuns, em um esforço por mudar rapidamente o comportamento dos consumidores, antes da imposição de proibições mais diretas.

 

Para cadeias como a Starbucks, que consome seis bilhões de copos descartáveis por ano, isso representa nada menos que um dilema existencial. A Dunkin' recentemente mudou de nome para reduzir a ênfase em "donuts" de seu nome original, e agora extrai 70% de seu faturamento da venda de cafés e derivados. Mas a questão também é problema premente para o McDonald's e o setor de fast food como um todo.

Executivos suspeitavam há muito tempo que esse dia chegaria. Separadamente e de modo coletivo eles já vinham trabalhando há mais de uma década em alternativas mais sustentáveis ecologicamente para substituir o copo de papel com revestimento plástico, paredes duplas e tampa plástica usado pelo setor.
O esforço não teve grande sucesso.

"Isso realmente me incomoda", disse Scott Murphy, vice-presidente de operações do Dunkin' Brands Group, que consome um bilhão de copos descartáveis ao ano. Ele vem trabalhando na alteração do projeto dos copos da empresa desde que esta assumiu o compromisso de deixar de usar copos de espuma, em 2010.

Este ano, as lojas da Dunkin' estão enfim fazendo a transição para copos de papel, e a empresa continua em busca de novos materiais e designs.

"As coisas são um pouco mais complicadas do que as pessoas costumam imaginar, quando pensam sobre nossa posição", diz Murphy. "O copo é nossa interação mais direta com o consumidor. É parte importante de nossa herança e imagem".

Copos descartáveis são uma invenção relativamente moderna. Cerca de 100 anos atrás, os ativistas da saúde pública lutavam por proibir outro tipo de copo –o vasilhame metálico ou de vidro que era usado pelas pessoas para beber água nas fontes públicas. Quando Lawrence Luellen inventou e patenteou um copo descartável com revestimento por cera, descreveu o produto como uma inovação higiênica, uma medida profilática para combater doenças como a pneumonia e a tuberculose.

A cultura do café para viagem demorou muito mais a emergir. O McDonald's lançou suas opções de café da manhã nos Estados Unidos, no final dos anos 70. Pouco mais de uma década mais tarde, o Starbucks estava inaugurando sua 50ª loja. As duas empresas, mais o Dunkin', vendem US$ 20 bilhões ao ano em café, hoje, de acordo com uma estimativa do analista Peter Saleh, do BTIG.

Enquanto isso, empresas como a Georgia-Pacific and International Paper cresceram em companhia do mercado de copos descartáveis, que atingiu os US$ 12 bilhões em 2016. Em 2020, ele deve movimentar perto de US$ 20 bilhões ao ano.

Os Estados Unidos respondem por cerca de 120 bilhões de copos de papel, plástico e espuma para café a cada ano, ou cerca de um quinto do total mundial. Quase todos esses copos –99,75%– terminam no lixo, e até mesmo os copos de papel podem demorar 20 anos a se decompor em um aterro sanitário.

Uma onda de proibições a sacolas plásticas inspirou os novos esforços para conter o descarte de copos. Recipientes para comida e bebida são um problema muito maior, gerando 20 vezes mais lixo do que as sacolas plásticas fazem, em qualquer dado local. Mas retornar ao uso de sacolas de tecido para compras é relativamente fácil. No caso dos copos descartáveis para café, não existe alternativa simples. Berkeley encoraja os compradores a levarem copos de casa com eles para comprar café, e tanto o Starbucks quanto o Dunkin' oferecem descontos a quem o fizer.

As lojas de café sabem que copos reutilizáveis são uma boa solução, mas no momento eles podem representar "um pesadelo operacional" para as franquias, diz Murphy. Os atendentes não sabem se o recipiente está sujo ou se devem lavá-lo, e é difícil saber que quantidade servir como café pequeno ou médio em um recipiente grande.

Uma década atrás, o Starbucks assumiu o compromisso de servir 25% de seu café em copos levados pelos clientes. A meta foi reduzida, mais tarde. A empresa dá desconto as quem leve seu copo, mas apenas 5% dos compradores o fazem. No Reino Unido, ela adotou uma sobretaxa de cinco pence (centavos de libra) sobre os copos descartáveis, por algum tempo no ano passado, e disse que isso resultou em elevação de 150% no uso de copos reutilizáveis.

E com isso as companhias continuam a trabalhar em um copo melhor.

O Dunkin' precisou de nove anos para desenvolver uma alternativa ao seu copo padrão, de espuma. Uma tentativa inicial requeria novas tampas, e a reciclagem das tampas é difícil. Protótipos feitos de material 100% reciclado se dobravam ou abaulavam no fundo. Um copo feito de fibras de cogumelo prometia decomposição rápida, mas era caro demais para permitir produção viável em larga escala.

A cadeia enfim decidiu adotar um copo de papel de parede dupla, com revestimento plástico, espesso o bastante para proteger as mãos do consumidor contra o calor sem necessidade de uma capa externa, e compatível com as tampas existentes. Os copos são feitos de papel obtido de fontes eticamente aprovadas, e se biodegradam mais rápido que os de espuma, mas esse é o limite do avanço - sua produção é mais cara e eles não são recicláveis, na maioria dos lugares.

Copos de papel são notoriamente difíceis de reciclar. As empresas de reciclagem se preocupam com o efeito dos revestimentos plásticos sobre suas máquinas, e por isso terminam descartando a maioria dos copos. Há três máquinas de reprocessamento capazes de separar o papel do revestimento plástico, na América do Norte.

Se as cidades puderem melhorar a reciclagem em escala maciça, cerca de 4% dos copos de café poderiam ser reciclados, dentro de alguns anos, ante apenas 0,25% hoje, de acordo com o Grupo de Recuperação e Reciclagem de Papel do Reino Unido. Mas é um "se" considerável. Os consumidores em geral descartam os copos de café ainda com as tampas plásticas, que teriam de ser removidas antes de poderem ser recicladas separadamente.

O Dunkin' diz que está trabalhando com governos municipais a fim de garantir que os copos que podem ser reciclados de fato o sejam. "É uma jornada - e não creio que um dia chegue ao fim", disse Murphy. O McDonald's recentemente formou parceria com a Starbucks e outros restaurantes de fast food para apoiar o NextGen Cup Challenge, um prêmio de US$ 10 milhões para incentivar o desenvolvimento e acelerar a produção de um copo descartável mais ecológico. O concurso anunciou 12 vencedores em janeiro, entre os quais copos feitos de papel-cartão reciclável e passível de uso em compostagem, o desenvolvimento de um revestimento de base vegetal capaz de reter líquidos, e esquemas para encorajar o uso de copos reutilizáveis.

"Estamos em busca de soluções que sejam viáveis comercialmente em curto prazo, e coisas que despertem aspirações", disse Bridget Croke, vice-presidente de assuntos externos na Closed Loop Partners, uma empresa de investimento com foco em reciclagem que está administrando o concurso.

Um copo capaz de se degradar mais rapidamente seria uma solução - a proibição europeia abre uma exceção para copos que possam ser usados em compostagem e se desintegrem em 12 semanas -, mas mesmo que um copo como esse estivesse disponível, os Estados Unidos não dispõem de instalações industriais de compostagem em número suficiente para utilizá-lo. E nesse caso os copos descartados seriam encaminhados a aterros sanitários, onde não se decompõem.

Em sua reunião mundial de 2018, o Starbucks testou discretamente um copo de café feito de partes recicladas de outros copos - o que é visto como o grande objetivo nessa área. Foi mais um espetáculo performático do que um teste prático: para produzir a série de teste, a empresa recolheu caminhões de copos e os enviou para reprocessamento na Sustana, uma empresa do Wisconsin. De lá, a fibra recuperada foi levada a uma fábrica de papel da WestRock no Texas, para conversão em copos; os logotipos foram impressos por uma terceira empresa. Mesmo que o copo resultante seja melhor para o meio ambiente, o processo usado para fazê-lo não é. "Há um grande desafio de engenharia", disse Croke.

"Fica claro que as soluções em que as empresas vêm trabalhando para resolver esse problema não são rápidas o bastante".

Por isso, os governos, a exemplo do de Berkeley, decidiram não esperar. A prefeitura da cidade fez pesquisas com os moradores antes de impor a sobretaxa, e constatou que ela convenceria 70% das pessoas a começarem a levar seus copos, com um valor de sobretaxa de 25 centavos de dólar, de acordo com Miriam Gordon, diretora de programa da Upstream, uma organização sem fins lucrativos que ajudou a prefeitura de Berkeley a redigir seu projeto de lei.

A sobretaxa deve funcionar como experimento de comportamento humano, e não como um imposto tradicional. Os cafés de Berkeley ficam com o dinheiro arrecadado, e podem até baixar os preços ao consumidor, para manter o valor total inalterado. Mas os consumidores precisam ser informados de que a sobretaxa existe. "Isso precisa ficar visível para o consumidor", disse Gordon. "É isso que motiva as pessoas a mudar de comportamento".
 
Bloomberg, tradução de Paulo Migliacci

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