Em carta aberta, apoiadores de demitidos da Abril comparam família Civita a colonizadores

Empresa está em recuperação judicial e tem dívida de R$ 1,6 bilhão

São Paulo

Em uma carta aberta, quase 250 ex-funcionários, colaboradores e ex-colaboradores da Editora Abril comparam a família Civita a colonizadores que exploraram a riqueza do Brasil e abandonaram o país depois.

O documento é uma defesa a demitidos que não receberam indenizações previstas em lei.

“Depois de permanecer no país por pouco mais de meio século, e aqui fazer fortuna, os herdeiros se retiram do negócio, deixando a população nativa entregue à própria sorte —sem pagar sequer as bugigangas que, agora, são devidas por lei”, afirmam os signatários da carta.

A Abril está em recuperação judicial e não pagou verbas rescisórias e multa sobre o FGTS de 1.254 funcionários demitidos.

A dívida trabalhista da editora soma R$ 90 milhões, o que significa 5,6% do R$ 1,6 bilhão devido. Os principais credores da empresa são grandes bancos.

No texto, jornalistas signatários afirmam que o patrimônio da família Civita foi calculado em US$ 3,3 bilhões (R$ 13 bilhões) pela revista Forbes, no ano de 2016.

“Calcula-se que, para quitar todos os compromissos com todos funcionários deixados para trás, inclusive empregados com problemas crônicos de saúde, filhos com deficiência, famílias com geladeira vazia e crianças fora da escola, bastaria abrir mão de menos de 1% dessa quantia”, diz o texto.

No documento também são citadas informações do MPT (Ministério Público do Trabalho), segundo as quais os acionistas retiraram da empresa, entre 2013 e 2017, R$ 117,6 milhões. 

“Enquanto tomavam medidas que empobreciam os funcionários, chamados a aceitar cotas crescentes de sacrifício, com demissões sem fim e medidas de austeridade cada vez mais severas, acionistas investiam no próprio enriquecimento”, diz a carta.

O texto, ilustrado com gibis do Tio Patinhas (no passado publicado pela editora), foi publicado no blog do jornalista Juca Kfouri, hospedado pelo UOL. Kfouri é colunista da Folha.

Letreiro em prédio da editora Abril na marginal Tietê - Folhapress

Leia a íntegra do documento

Carta aberta apoia demitidos da Abril

Reunidos, nós, ex-funcionários, ex-colaboradores e colaboradores da Editora Abril, queremos manifestar total indignação diante da atitude da empresa, que desrespeita os direitos de 1.254 trabalhadores demitidos.

Não é possível enxergar o colapso da maior editora de revistas da América Latina apenas com o olhar analítico de quem acompanha a atual conjuntura econômica do país.

Para além da derrocada econômica, a queda da principal editora de revistas da América Latina representa uma tragédia social e uma armadilha moral, que ameaça e humilha trabalhadores demitidos a quem se nega aquilo que está previsto em lei.

A causa, aqui, pouco tem de misteriosa. Encontra-se na cobiça de dirigentes caloteiros, que não respeitam o próprio país que acolheu os fundadores do grupo, que em 1950 desembarcaram em São Paulo.

Em vários momentos de uma história de décadas, a família Civita teve acesso a recursos importantes do Estado —isto é, do povo brasileiro— para reforçar receitas publicitárias, ampliar investimentos e engordar os lucros dos acionistas, catapultados às listas de grandes bilionários do planeta.

Recentemente, graças ao Ministério Público do Trabalho, descobriu-se que, nos anos anteriores à queda, ocorreram dois movimentos simultâneos nos bastidores do grupo.

Enquanto tomavam medidas que empobreciam os funcionários, chamados a aceitar cotas crescentes de sacrifício, com demissões sem fim e medidas de austeridade cada vez mais severas, acionistas investiam no próprio enriquecimento.

O levantamento do Ministério Público do Trabalho mostra que:

Em 2013, os acionistas levaram R$ 30 milhões para casa.

Em 2014, R$ 24 milhões.

Em 2015, R$ 19 milhões.

Em 2016, R$ 22,8 milhões.

Em 2017, R$ 21,8 milhões

Também foi nesse período que a família Civita se desfez de um dos negócios do grupo, a Abril Educação, vendida por uma soma estimada em cerca de R$ 1,3 bilhão.

Em 2016, o patrimônio da família foi calculado em US$ 3,3 bilhões pela revista Forbes. Calcula-se que, para quitar todos os compromissos com todos funcionários deixados para trás, inclusive empregados com problemas crônicos de saúde, filhos com deficiência, famílias com geladeira vazia e crianças fora da escola, bastaria abrir mão de menos de 1% dessa quantia.

Não seria, por nenhum critério, um grande sacrifício. Seria uma forma de cumprir uma obrigação, e também de retribuir, pagando esses brasileiros, pelas imensas oportunidades que o Brasil ofereceu aos Civita.

Ao retirar-se da empresa, entregue a um proprietário que até aqui não assumiu nenhum compromisso com o direito dos ex-funcionários, a família Civita cumpre uma trajetória que marca os piores momentos da história do país – a exploração colonial, agora em versão século 21.

Depois de permanecer no país por pouco mais de meio século, e aqui fazer fortuna, os herdeiros se retiram do negócio, deixando a população nativa entregue à própria sorte – sem pagar sequer as bugigangas que, agora, são devidas por lei.

Por isso, nós, ex-funcionários, ex-colaboradores e colaboradores da Editora Abril, deixamos claro o nosso apoio aos 1.254 demitidos, exigindo o pagamento integral das verbas rescisórias e da multa sobre o FGTS, imediatamente.

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