Com 2 novas fábricas a cada 3 dias, Brasil chega à marca de mil cervejarias

De 2014 para cá, mais de cem novas fábricas são abertas por ano no país

Sandro Macedo
São Paulo

Na região metropolitana de Salvador, a cidade de Lauro de Freitas não é exatamente um grande polo cervejeiro do país. Mas é do município no litoral norte baiano que veio uma notícia que o setor celebra: o registro da milésima fábrica de cerveja no Brasil no Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento).

A dona do número de quatro dígitos é a Cervejaria Artesanal Mascarenhas, uma fábrica-bar com produção de 3.000 litros por mês.

Red IPA da Cervejaria Artesanal Mascarenhas, em Lauro de Freitas, Bahia
Pequenas marcas como a Cervejaria Artesanal Mascarenhas são responsáveis pelo crescimento no setor cervejeiro do país - Divulgação

“Cerca de 30% fica no bar, o resto distribuímos para outras cidades da Bahia e Sergipe”, diz o fundador Antonio Luiz Mascarenhas Ramos Jr., ex-profissional de TI que, como muitos, começou a fazer cervejas como hobby e transformou a diversão em negócio.

Essas pequenas marcas são as principais responsáveis pelo crescimento no setor, avalia Carlo Lapolli, presidente da Abracerva (Associação Brasileira de Cerveja Artesanal).

“[As pequenas marcas] ganharam notoriedade, espaço de gôndola e conquistaram o consumidor”, afirma.

O ano de 2018 já representava o melhor em novas fábricas, com 210 aberturas, fechando o ano em 889. Isso significa que 2019 tem tudo para ser melhor ainda, com 111 novidades em apenas 150 dias, ou uma fábrica a cada 32 horas e meia aproximadamente (ou duas a cada três dias).

Para se ter uma ideia do boom dos últimos anos, em 1999 o país contava com 192 fábricas. Dez anos depois, o número saltou para modestos 255.

De 2014 para cá, no entanto, mais de cem novas fábricas são abertas por ano. Segundo Lapolli, o crescimento reflete a apuração do gosto do consumidor.

“Até pouco tempo atrás, o brasileiro tinha apenas uma imagem, da bebida estupidamente gelada. Hoje a busca por itens diferenciados aumentou e o mercado começou a ver a cerveja artesanal com um potencial até então não explorado”, comemora.

Outra novata entre as cervejarias, a paulista Startup Brewing funciona como fábrica e aceleradora para outras marcas menores e já produz 70 mil litros por mês, já com capacidade de expansão. Para André Franken, sócio da empresa, o mercado ainda está longe de seu ápice.

“Os Estados Unidos têm 7.000 independentes. O público brasileiro ainda está aprendendo a beber cerveja, e está ficando mais exigente”, diz. 

“Mas o poder aquisitivo do brasileiro não é alto e os cervejeiros precisam se conscientizar disso. Não adianta fazer a melhor cerveja do mundo se ninguém puder pagar.”

Uma de suas marcas, a UX Brew acaba de lançar a First Steps, uma New England IPA com adição de coco. “A proposta é trazer uma experiência diferenciada para o usuário”, afirma Franken.

Mesmo quem está há bastante tempo nesse mercado vê com bons olhos a chegada de novas marcas às gôndolas.

Tonéis de inox da fábrica da Cervejaria Artesanal Mascarenhas, em Lauro de Freitas, Bahia
Tonéis de inox da fábrica da Cervejaria Artesanal Mascarenhas, em Lauro de Freitas, Bahia - Divulgação

 “Nosso principal concorrente ainda é o universo de cervejas comerciais, que tem preços muito inferiores”, afirma Adilson Altrão, diretor-executivo da Schornstein, marca de Pomerode (SC), que iniciou as operações em 2006 (quando o Brasil tinha 226 cervejarias) com 10 mil litros por mês.

Hoje chega a 180 mil litros, com São Paulo e Santa Catarina como principais mercados.

O fato de chegar a mil fábricas cervejeiras “traz implicações por espaços no ponto de venda, mas é a afirmação da força do segmento e da cultura cervejeira, alterando o padrão de consumo”, complementa Altrão.

Ele diz que o segmento ainda tem muito a crescer, “pois ainda representa muito pouco do que pode vir a alcançar.”
 

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