França diz que não está preparada para ratificar acordo UE-Mercosul

Franceses são os mais reticentes à resolução porque temem efeitos para o setor agrícola

Paris

A França não está preparada no momento para ratificar o acordo comercial assinado na sexta-feira (28) entre a União Europeia (UE) e o Mercosul, após 20 anos de negociações, afirmou nesta terça-feira (2) a porta-voz do governo francês, Sibeth Ndiaye.

"Vamos observar com atenção e, com base nestes detalhes, vamos decidir", declarou em uma entrevista ao canal de notícias BFM.

Como fez durante as negociações do acordo comercial entre UE e Canadá, a França solicitará garantias aos países do Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai), completou a porta-voz.

Sibeth Ndiaye
A porta-voz do governo francês, Sibeth Ndiaye - Ludovic Marin - 19.jun.2019/AFP

"Não posso dizer que hoje vamos ratificar o Mercosul [...] A França, no momento, não está pronta para ratificar", disse Ndiaye.

O acordo anunciado na sexta-feira por UE e Mercosul é o maior já assinado pelo bloco europeu.

A França é um dos países mais reticentes ao acordo porque teme os efeitos para seu influente setor agrícola, que pode ser afetado pela grande entrada de produtos sul-americanos no mercado.

Os fazendeiros franceses, muito dependentes dos subsídios europeus e organizados em propriedades familiares que geram uma renda pequena (€ 10 mil a € 12 mil de média em 2018, segundo a Federação Nacional de Carne Bovina), afirmam que não conseguirão competir com o que chamam de fábricas de carne sul-americanas. 

Eles ressaltam as diferenças nas práticas dos dois continentes, que não favorecem os europeus: enquanto na UE as normas ambientais são cada vez mais rígidas, na América do Sul são utilizados antibióticos, hormônios do crescimento e soja geneticamente modificada. 

Também nesta terça-feira, o ministro das Relações Exteriores francês, Jean-Yves Le Drian, disse ao Parlamento que ainda não se sabe se o acordo atendeu às exigências da França.

"Os limites que traçamos para o acordo são claros." Ele disse que ainda é preciso ver se Paris dará apoio, quando examinar os detalhes do acordo.

Na segunda-feira (1º) Pascal Canfin, eurodeputado da plataforma Renaissance [Renascimento] de Emmanuel Macron, disse em um programa de rádio que o voto dos franceses a favor do acordo comercial não está garantido.

"Até agora eu não vi o acordo, ninguém viu, exceto a Comissão Europeia", disse Canfin.

Portanto, "nada é garantido em termos de ratificação no Parlamento Europeu, e no que diz respeito aos 23 membros da lista do Renascimento, vamos analisar, mas o nosso voto a favor não está garantido", acrescentou.

O deputado destacou o impacto do acordo sobre o setor agrícola e disse que ainda não viu o mecanismo de salvaguarda previsto para "interromper as importações se o acordo desestabilizar os setores europeus, especialmente os franceses".

Com agências de notícias

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