Governo tem que olhar com carinho crise ambiental, diz presidente do HSBC Brasil

Para executivo, é difícil estimar os danos que a crise atual ligada às queimadas na Amazônia

Tássia Kastner
São Paulo

O presidente do HSBC Brasil, Alexandre Guião, afirmou que o governo brasileiro precisa demonstrar preocupação com a causa ambiental, mas disse ainda ser difícil estimar os danos que a crise atual, ligada às queimadas na Amazônia, podem gerar aos negócios do país.

Após a venda para o Bradesco, há três anos, o HSBC está se estruturando como um banco de atacado, prestando serviços para grandes empresas multinacionais. O objetivo é alcançar 630 clientes em até cinco anos, disse em entrevista à Folha.

Segundo Guião, o banco atua para atrair investidores para o país e, encerrada as férias do hemisfério norte, o mercado financeiro voltará a registrar operações no mercado de capitais.

Alexandre Guião, 49, é formado em Administração, com foco em finanças pela Fundação Getulio Vargas e tem um MBA em Finanças da Columbia University. É presidente do HSBC Brasil, banco para o qual trabalha desde 2008. Iniciou a carreira como analista de crédito no Chase, passou pelo Rabobank, ABN AMRO, Deutsche Bank e Citi - Sergio Zacchi/Valor/Folhapress

A turbulência global que derrubou os mercados não deve impedir que os negócios ocorram, mas haverá uma revisão de preços, projeta. 

Ainda assim, ele vê com cautela o acirramento da tensão comercial entre Estados Unidos e China: apesar dos benefícios de curto prazo gerados pelo incremento de exportações, todos saem perdendo no longo prazo. Inclusive o Brasil.

A economia brasileira tem dificuldade de se recuperar, contrariando expectativas. O que aconteceu?

A gente teve um desafio maior durante o ano eleitoral do ano passado, em que havia uma indefinição com com próximo governo. Com a chegada desse governo, a ideia [do HSBC] foi exatamente o investimento, tanto que a gente está fazendo.

A gente entende que está demorando um pouco mais do que deveria a volta do crescimento econômico, mas as bases estão sendo criadas. Tivemos a reforma da Previdência aprovada na Câmara e agora indo pro Senado.

As privatizações acontecendo, a nomeação de pessoas de mercado para as principais cargos de grandes empresas governamentais e a seriedade do governo de querer fazer a coisa acontecer.

Nosso diagnóstico é que tá demorando um pouco mais do que deveria, mas a gente é otimista com relação a Brasil. Hoje nosso economista prevê 0,80% de crescimento para esse ano e 2% para ano que vem, o que mostra um pouco essa recuperação

Mas por que está demorando?

Todo processo complexo demanda uma articulação um pouco mais demorada e eu acho que exatamente foi esse o desafio que o governo teve, e ele está conseguindo se adaptar. É um governo novo, como a gente sabe, acabou de ser eleito, acabou de começar há oito meses.

Mas é um governo focado não só na reforma da Previdência, mas agora também na tributária, anunciando as privatizações. Tivemos projetos de sucesso na área de infraestrutura, que a gente acaba esquecendo de mencionar.

A gente entende que está caminhando para o destino certo e por isso mantivemos o nosso investimento.

O cenário externo, no entanto, é adverso. Tivemos algumas semanas de pânico no mercado financeiro. Não foi devido ao Brasil, graças a Deus. Esse aí a culpa não é nossa [risos].

Somos mercado emergente, e assim como todos emergentes, a gente acaba sofrendo um pouco mais, obviamente eu acho que não tava no radar do mercado internacional as primárias da Argentina, por isso a gente teve uma turbulência maior. O que foi um bom teste para o Brasil.

Obviamente que não estamos isentos, o dólar andando um pouco [é negociado ao redor de R$ 4,10].

O que eu vejo é que o Brasil está bem posicionado junto aos investidores tanto que a gente tem visto as operações de emissões de ações e dívida internacional. Em setembro abre a janela de novo [após as férias no hemisfério norte]. Obviamente a Argentina é um desafio, o investidor vai olhar com um pouco mais de cautela. 

O investidor vai ter apetite para Brasil nesse cenário?

Acho que continua, mas vai ter ajuste de preço tradicional quando tem esse tipo de desafio.

Não posso te abrir as operações, mas tem algumas coisas acontecendo sim, mas o mercado não pode ter mais surpresas com o nosso vizinho. 

Quando se olha mercados emergentes, o que mais me preocupa é a tensão comercial entre Estados Unidos e China e crescimento baixo da Europa, dos quais o Brasil não está isento.

O pessoa está tentando reagir a esse cenário mais volátil, o próprio Fed [Federal Reserve, o banco central dos EUA] está baixando juros.

Essa disputa entre Estados Unidos e China pode ser benéfica no curto prazo para países exportadores, como o Brasil. No longo prazo é ruim para todo mundo. 

E qual pode ser a reação de investidores internacionais à crise ambiental causada pelas queimadas na Amazônia? O governo age corretamente?

Acho que [as questões ambientais] são aspectos importantes para o futuro do globo, da economia mundial. O Brasil tem que estar atento a esse tipo de atitude e acho que é preciso esperar um pouco mais para saber o quanto isso vai influenciar nos negócios no Brasil.

O noticiário lá fora é negativo, a gente teve a capa da Economist há umas semanas. É uma preocupação mundial, é uma tendência mundial. É uma coisa que o governo brasileiro precisa olhar com carinho e entender as consequências do que pode acontecer. 

O cenário é de queda de juros no Brasil e no exterior. Qual o impacto da redução sobre o setor bancário?

É uma realidade mundial, a gente já vem convivendo com isso em outros países. Agora a gente tem aqui as condições macroeconômicas —com inflação sob controle, economia em lenta retomada e o dólar, por mais que esteja variando, dentro de uma banda específica. Isso te dá uma oportunidade de ter juros mais baixos. É uma questão dos bancos se adaptarem e se transformarem para essa realidade.

No setor de atacado é traduzido mais rápido. As multinacionais são as primeiras a se beneficiar pelas taxas de juros mais baixas e esse é um mercado que a gente vem operando há muito tempo. Então é questão de você oferecer as melhores soluções e navegar nesse cenário que parecia de curto prazo, mas parece que vai demorar um pouco mais. 

Como o HSBC vai operar no Brasil?

Há três anos, quando a gente vendeu o antigo banco paro Bradesco, montamos um banco de investimento. Desde então a gente veio fazendo uma transição, usando as nossas capacidades e nosso grande diferencial, que é a nossa presença global. Agora a gente volta a atuar no mercado e a nossa ideia é de ter a nossa fatia justa do mercado.

Nosso foco é no setor de atacado e a intenção é montar um banco de atacado completo, com tesouraria, investment banking (fusões e aquisições, mercado de capitais e emissões de ações), financiamento e gestão de caixa. A gente estava focado em 150 clientes, devemos ir a 630 ao longo dos próximos cinco anos.

Desses, 500 são multinacionais, por causa do nosso relacionamento global. Com relação a clientes brasileiros, a gente está focando nos grandes como Petrobras, Gerdau e Vale

Nosso objetivo é triplicar o tamanho do banco tanto em receita quanto em lucro operacional nos próximos cinco anos. 

Qual a sua avaliação da decisão da Caixa de lançar crédito imobiliário atrelado à inflação?

É uma linguagem [investimentos que rendem IPCA mais juros] que os fundos —de pensão e institucionais estão muito mais acostumados do que a TR [taxa referencial, que reajusta atualmente o crédito imobiliário].

Para realmente securitizar [empacotar dívidas], faz mais sentido. E abre muito mais espaço para o banco desovar isso no mercado. 

O desafio para a pessoa física é, como sempre, a inflação. Se você pensar nos últimos 20 anos, você tem agora um vale. Estamos em um momento que nos próximos dois três anos a inflação tende a ficar baixa, mas no longo prazo é difícil ter essa visibilidade. A gente teve em 2013, 2014, 2015 inflação que você pagaria 20% ao ano no financiamento imobiliário. Como é alternativa, eu não acho ruim.

Você tendo alternativa de taxas diferentes, o mutuário vai escolher. A gente vai estar juntos lendo no jornal daqui cinco ou dez anos para ver se isso vai ser bom ou ruim.

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