Descrição de chapéu Financial Times

Cinco desafios que Kristalina Georgieva enfrentará à frente do FMI

Presidente-executiva do Banco Mundial desde 2017, búlgara enfrentará desaceleração econômica e resgate à Argentina

James Politi
Financial Times

Kristalina Georgieva está a ponto de substituir Christine Lagarde como diretora executiva do Fundo Monetário Internacional (FMI), depois que o conselho da instituição multilateral de empréstimos sediada em Washington declarou na segunda-feira que ela era a única candidata ao posto.

Georgieva, 66, nascida na Bulgária, é presidente-executiva do Banco Mundial desde o começo de 2017, e enfrentará diversos desafios se sua indicação for confirmada pelo conselho do FMI. A falta de outros indicados significa que seu sucesso na disputa está praticamente garantido.

Como defensora do multilateralismo, Georgieva deve manter o foco recente de Lagarde no combate à mudança do clima, estímulo a uma maior participação feminina na força de trabalho, e redução a desigualdade.

Georgieva, 66, nascida na Bulgária, é presidente-executiva do Banco Mundial desde o começo de 2017. Foi comissária da União Europeia para assistência e combate a crises - Gonzalo Fuentes/Reuters

Veterana funcionária do Banco Mundial, Georgieva foi comissária da União Europeia para assistência e combate a crises. Ela tem mais experiência em desenvolvimento do que Lagarde, mas menos familiaridade com os problemas financeiros das economias avançadas.

O FMI anunciou que gostaria de concluir o processo seletivo no começo de outubro, o mais tardar. Enquanto Georgieva avança com tranquilidade para sua indicação, há cinco grandes questões que ela terá de enfrentar.
 

O futuro do resgate à Argentina

O maior resgate da história do FMI —uma aposta de US$ 57 bilhões na condução da economia pelo presidente reformista Mauricio Macri— está enfrentando águas revoltas.

Quando Georgieva assumir, a expectativa é de que Macri seja removido do posto em uma eleição que deve favorecer Alberto Fernández, um desafiante populista com pouca simpatia pelo FMI ou pelos termos de seu empréstimo.

A perspectiva de derrota de Macri causou uma queda forte do peso recentemente, anulando boa parte do progresso econômico conquistado e tornando mais provável que o FMI tenha de renegociar ou substituir o programa em vigor.

Ainda que o FMI tenha defendido sua abordagem, críticos questionaram tanto a concepção quanto a escala de seu empréstimo, e a incapacidade do Fundo para obter apoio mais amplo ao pacote por parte do público argentino.
 

A desaceleração econômica

A economia mundial está se desacelerando, o que coloca mais pressão sobre o FMI como emprestador mundial de último recurso.

De acordo com as projeções do FMI, que foram rebaixadas repetidamente, a produção mundial deve crescer em 3,2% este ano, ante 3,8% em 2017 e 3,6% em 2018. A tendência de queda aumenta o risco de que mais países precisem buscar ajuda do FMI.
 

Conflito comercial

A guerra comercial entre Washington e Pequim não só deitou sombras sobre a economia mundial como fez de instituições multilaterais, a exemplo do FMI, campos de batalha no conflito.

Lagarde tinha relacionamentos sólidos tanto com Trump quanto com a liderança chinesa, e o mesmo pode ser dito sobre Georgieva.

Mas o FMI mesmo assim corre o risco de ser apanhado no meio se os Estados Unidos ou a China objetarem a suas pesquisas, contestarem suas constatações básicas ou dificultarem um resgate problemático. O trabalho do Fundo quanto à transparência cambial e de dívidas também será acompanhado atentamente.

Encontrar dinheiro

Georgieva terá de colocar os toques finais em um acordo negociado por Lagarde para renovar os arranjos de empréstimo entre o FMI e os Estados Unidos, que manteria os recursos do FMI em cerca de US$ 1 trilhão. Mas muita gente no Fundo não acredita que isso seja suficiente, dada a demanda que a instituição pode encontrar em caso de uma nova recessão ou crise financeira.

Na próxima campanha de arrecadação de fundos do FMI, Georgieva pode tentar realizar o que Lagarde não conseguiu: uma elevação permanente do capital da instituição, em troca de mudanças de governança que dariam mais poder às grandes economias de mercado emergente —uma mudança que seria controvertida tanto junto à Europa quanto junto aos Estados Unidos.
 

Os reincidentes

Além da Argentina, o foco de Georgieva estará na Ucrânia e no Paquistão, dois outros países que tomam empréstimos do FMI frequentemente mas jamais conseguiram estabilizar plenamente suas economias e sistemas financeiros.

Com um novo governo no poder em Kiev, a Ucrânia tem a esperança de selar um acordo com o FMI por novos empréstimos, ainda este ano.

Depois de meses de negociações, o Paquistão garantiu novos empréstimos em julho, a despeito de preocupações americanas de que o dinheiro poderia ser usado para pagar dívidas com a China - mas existem dúvidas quanto ao sucesso desse programa. 

Financial Times, tradução de Paulo Migliacci

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