Desmatamento é problema econômico, diz coordenadora de comunicado de fundos

Economista defende colaboração global contra derrubada e incêndios na floresta amazônica

Fabiano Maisonnave
Hamburgo (Alemanha)

Ao voltar das férias, no final de agosto, a consultora ambiental Danielle Carreira topou com cerca de 800 e-mails de representantes de fundos de investimento de países ricos preocupados com a onda de queimadas que varre a Amazônia e contribuiu para escurecer o céu da maior cidade do Brasil.

Três semanas depois, na quarta-feira passada (18), um comunicado redigido por Carreira e subscrito por 230 fundos, que juntos administram US$ 16 trilhões (R$ 66,7 trilhões), exortava o Brasil a adotar medidas eficazes contra o fogo e o desmatamento. A inciativa foi vista como parte de uma uma crescente pressão internacional sobre o governo Jair Bolsonaro, duramente criticado pela sua política ambiental. 

“A gente vive hoje em uma economia globalizada. Não existe mais um problema local. E o problema do desmatamento da floresta é muito maior do que só meio ambiente: é econômico, político, cultural e exige colaboração em nível global”, diz a economista mineira de 45 anos, em entrevista à Folha por telefone, de Londres.

Na capital britânica, ela trabalha na iniciativa Princípios Para o Investimento Responsável (PRI). Fundada dentro da ONU em 2006, hoje atua de forma independente e tem cerca de 2.500 signatários, entre fundos de pensão, seguradoras e até dois bancos centrais, de Hong Kong e da Holanda. Somados, administram US$ 85 trilhões (R$ 354,6 trilhões).

Carreira coordena três projetos de iniciativas ligadas ao uso sustentável do solo. O mais antigo deles é o setor de óleo de palma, vetor de desmatamento na Indonésia e na Malásia. Na América Latina, o foco é nas cadeias da soja e da pecuária.

“O setor financeiro quer fazer dinheiro? Claro, a preocupação econômica é enorme. Mas, se pensar nos fundos de pensão que estão investindo a longo prazo, por exemplo, eles não veem sustentabilidade em um setor que depende da expansão de terra. Há um limite, as chamadas fronteiras planetárias.”

A maior parte dos 230 fundos que assinaram o comunicado da semana passada é da Europa, dos EUA e do Canadá. O país com mais representantes é o Reino Unido (47), seguido pelos norte-americanos (34) e pela França (20).

O maior fundo da lista é o francês Amundi, o principal da Europa, que administra 1,4 trilhão de euros (R$ 6,34 trilhões), quase equivalente ao PIB do Brasil.

Carreira explica que, desde quarta-feira (18), outros fundos aderiam ao comunicado, mas que um novo balanço só ficará pronto nos próximos dias.

Sobre a pressão dos fundos contra o desmatamento na Amazônia, a economista diz que o grande precedente mundial é a cadeia do óleo de palma, na Ásia, projeto iniciado pelo PRI em 2011. 

“Hoje, vemos que grandes investidores europeus não investem nas empresas produtoras”, afirma. “A gente tem a chance de tentar evitar que a reputação tão suja do óleo de palma aconteça com a soja. Manter uma boa reputação é muito mais fácil do que limpá-la.” 

Com relação à atuação do governo Bolsonaro diante do aumento no desmatamento e nas queimadas, a consultora afirma que o principal ponto foi a demora em responder ao problema. “Acho que teve muita informação errada. O problema do desmatamento acelerou agora, mas não é novo.”

A economista diz que o objetivo do comunicado não foi “apontar o dedo”, mas “um chamado à colaboração”.

“O Brasil já foi um líder no mercado da sustentabilidade. Os investidores estão conversando com as empresas e com todas as ONGs. Essa colaboração já existe. Ter o envolvimento do governo também é muito importante.”

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