Dúvidas sobre retomada da economia e queimadas atrasam investimento no Brasil, dizem analistas

Especialistas reunidos em evento do BTG em Nova York falam que risco de recessão global piora cenário

Marina Dias
Nova York

Investidores estrangeiros esperam resultados objetivos da agenda econômica do governo Jair Bolsonaro (PSL) antes de colocar dinheiro no Brasil, mas a crise da Amazônia está atrasando ainda mais a aposta no país.

Analistas afirmam que, nas últimas semanas, dúvidas sobre as queimadas e o desmatamento na floresta —com repercussão internacional— estavam presentes em pelo menos 70% das conversas com investidores nos EUA e na Europa. O baixo crescimento da economia brasileira, porém, ainda é o principal motivo para afastar o aporte de recursos no país.

"O Brasil tem boas perspectivas, mas o fato é que a economia ainda não reagiu. Muita gente pensa que esperou até agora [para investir], que o Brasil parece um emergente melhor, mas os números não estão lá para provar isso. Quando aparecerem, talvez a gente consiga se destacar dos outros emergentes e receber um pouco mais de fluxo", afirma Carlos Sequeira, chefe de pesquisa de ações para a América Latina do BTG Pactual.

Apesar do avanço da reforma da Previdência no Congresso —aprovada na Câmara e com previsão de chancela do Senado—, as previsões do PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil estão abaixo de 1% para este ano e, para 2020, o índice está em torno de 2%. Os dados estão acompanhados de baixa produtividade e pouco estímulo fiscal, o que afugenta investidores externos.

De acordo com os especialistas, a mensagem aos donos do dinheiro hoje é que o Brasil vai crescer devagar, mas continuamente, e que logo as reformas e abertura de mercado propostas pela equipe do ministro Paulo Guedes (Economia) vão ter reflexo nos números macroeconômicos.

A avaliação é que a confiança dos investidores em relação ao país têm aumentado mas, com a escalada da crise da Amazônia, foi preciso acrescentar à retórica otimista mais explicações para tentar manter o quadro.

Nesta quarta-feira (18), por exemplo, 230 fundos de investimento —que juntos administram cerca de US$ 16 trilhões (R$ 65 trilhões)— pediram ao Brasil que adote medidas eficazes para proteger a região da floresta.

Chefe de renda variável para a América Latina do BTG Pactual, Will Landers afirma que os esclarecimentos recorrentes servem para dissipar as preocupações e evitar qualquer impacto maior em possíveis investimentos.

Durante evento nesta semana em Nova York, diversos analistas fizeram uma avaliação uníssona de que não haverá uma enxurrada de capital estrangeiro no Brasil —como era esperado após a eleição de Bolsonaro— mas que o cenário de crescimento pequeno, porém, constante pode se converter logo em investimentos.

Nenhum deles arrisca uma data para que isso aconteça, mas Landers, por exemplo, diz que o Brasil deve recuperar seu grau de investimento entre 2021 e 2022, o que seria mais um estímulo para o aporte de capital externo.

Os especialistas dizem ainda que a possibilidade de recessão global —agravada com a guerra comercial entre EUA e China e a imprevisibilidade do Brexit— é outro ingrediente na carteira de investidores que evitam o Brasil.

Quando o mundo entra em desaceleração, países emergentes são os mais afetados e, de acordo com os analistas, essa percepção é maior do que qualquer agenda liberal que agrade a empresários e investidores.

"Na hora que o investidor estrangeiro fala que tem que tirar o risco da mesa, [investir no] mercado emergente é justamente aumentar esse risco. Não importa que o Brasil está melhor que os outros, se tem agenda melhor que os outros. O fato é que o Brasil entra na categoria 'mercados emergentes', que está menos em voga porque as pessoas estão com medo [de arriscar diante da iminência de uma crise global]", conclui Sequeira.

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