Piora na indústria dos EUA derruba mercados; Ibovespa perde os 100 mil pontos

Em agosto, estrangeiro retirou R$ 10 bilhões da Bolsa brasileira

Júlia Moura
São Paulo

As principais Bolsas globais tiveram sessões de queda nesta terça-feira (3) com a contração da atividade industrial americana pela primeira vez em três anos. Também pesou a falta de negociações entre Estados Unidos e China, cenário que, segundo o presidente americano Donald Trump, deve ser ainda pior caso ele se reeleja. 

Com o viés negativo, a Bolsa brasileira caiu 0,93% e perdeu os 100 mil pontos. O dólar se manteve estável, a R$ 4,18.

Operador na Bolsa de Nova York
Bolsas têm sessões de queda nesta terça-feira (3) - Xinhua/Guo Peiran

Dados divulgados nesta terça mostram enfraquecimento da economia americana e preocupam investidores. 

Em agosto, a atividade manufatureira nos Estados Unidos, divulgada pelo Instituto de Gestão de Fornecimento (ISM, na sigla em inglês) teve o pior resultado em três anos, em 49,1 pontos, contra expectativa de 51,3 de economistas ouvidos pela Bloomberg. Em julho, o índice foi de 51,2 pontos.

Há contração quando o índice fica abaixo dos 50 pontos. Algo visto também no índice de novos pedidos na indústria, com 47,2 pontos em agosto, ante 50,8 pontos em julho e uma expectativa de 50,5. Este é o pior patamar do índice desde 2012.

O ISM informou que houve "uma queda notável na confiança empresarial" e que "a questão comercial continua sendo a mais significativa, indicada pela forte contração nos novas encomendas de exportação".

Outro indicativo de fraqueza veio de dados do Departamento de Comércio americano. Eles mostram que, em julho, os gastos com construção subiram 0,1% em relação ao mês anterior. Economistas consultados pela Reuters previam crescimento de 0,3%. Na comparação anual, os gastos com construção caíram 2,7%.

Já os dados de junho foram revisados ​​para mostrar queda de 0,7%, ante baixa de 1,3% relatada anteriormente.

O levantamento também mostra que o investimento em obras públicas aumentou 0,4%, após cair 3,1% em junho. Os gastos com projetos de construção privados caíram 0,1% em julho, revertendo o ganho de 0,1% em junho.

Os temores do mercado de que a guerra comercial possa desencadear uma recessão nos EUA foram ampliados com a declaração de Trump de que seria mais duro nas negociações com a China em um segundo mandato se as discussões comerciais se arrastarem.

As duas maiores economias do mundo impuseram novas tarifas sobre os produtos um do outro no domingo (1º). Negociadores americanos e chineses anunciaram que iriam se reunir presencialmente em Washington neste mês, mas uma data ainda não foi definida.

Diante deste cenário, as Bolsas de Nova York, em volta de feriado, caíram. O índice Dow Jones recuou 1%, S&P 500, 0,7% e Nasdaq, 1%. 

A inversão da curva de juros de curto e longo prazo nos EUA se ampliou. Agora, o título de três meses rende 0,49% a mais que o de dez anos. 

Na Europa, há a dificuldade do premiê britânico Boris Johnson de chegar a um acordo com o Parlamento para um plano para o brexit, o que pode levar a eleições gerais. Nesta terça, mais um agravante: o primeiro-ministro perdeu maioria na Casa.

A situação levou o rendimento do título de dívida de 30 anos do Reino Unido a cair mais de 10% nos últimos dois dias, para o menor retorno histórico do investimento, de 0,91%. A libra esterlina também perde força e está em US$ 1,20, menor valor nominal desde 2017.

Nesta sessão, a Bolsa de Londres teve leve queda de 0,2%. Paris caiu 0,5% e Frankfurt 0,36%. 

No Brasil, a indústria também recuou. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a produção industrial caiu 0,3% em julho, na comparação com o mês anterior.

Na comparação com o mesmo mês do ano passado, a queda chegou a 2,5%. Economistas ouvidos pela Bloomberg previam alta de 0,5% na relação junho e julho de 2019 e queda de 1,2% na comparação com o mesmo mês do ano passado.

“O dado de hoje reforça a leitura de que o ritmo de recuperação econômica segue lento e faz-se necessário continuar cauteloso quanto às perspectivas de crescimento no 3º trimestre (que pode ser bem próxima de zero ou até mesmo negativo) e para o ano de 2019”, afirma Ronaldo Guimarães, sócio diretor do banco digital Modalmais. 

A Bolsa brasileira caiu 0,93%, a 99.680 pontos. O giro financeiro foi de R$ 17,4 bilhões, acima da média diária para o ano. 

SAÍDA DE ESTRANGEIRO BATE R$ 10 BI EM AGOSTO

Segundo dados da B3, o saldo de movimentações do estrangeiro ficou negativo em R$ 10,7 bilhões em agosto, mês marcado pelo agravamento da guerra comercial e dados que apontam desaceleração da economia.

O resultado é pior, inclusive, que maio de 2018, período da greve dos caminhoneiros e crise do preço dos combustíveis, quando a Petrobras perdeu R$ 137 bilhões em valor de mercado em duas semanas.

No acumulado de 2019, a saída é de R$ 21,2 bilhões, pior resultado desde 2008, ano da crise financeira, quando estrangeiros retiraram R$ 44,6 bilhões da Bolsa brasileira, valor corrigido pela inflação.

Naquele ano, o mês de pior saída foi junho, com retirada de R$ 14 bilhões. 

(Com agências de notícia)

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