Macri recusa paternidade de moratória e põe culpa na oposição

Presidente argentino tem pela frente uma missão difícil de mostrar-se viável após perder por 15 pontos nas primárias

Sylvia Colombo Mariana Carneiro
Buenos Aires

O governo do presidente Mauricio Macri rejeita a paternidade da moratória parcial da dívida, decretada na semana passada, porém considera que superestimou sua própria capacidade de solução de problemas e que estes pareciam mais simples antes da posse do presidente, em dezembro de 2015.

A avaliação, feita pelo entorno do presidente à Folha, é a de que o mau humor de investidores com o país não se deve à política atual, mas à expectativa de que a oposição deixe de honrar os pagamentos futuros.

O governo ainda se justifica com o argumento de que ganhou com uma pequena margem, o que fez com que tivesse de governar com minoria no Congresso.

Na semana passada, o governo anunciou que pagará somente 15% da dívida de curto prazo no vencimento e prometeu ainda enviar ao Congresso uma proposta para rever os vencimentos de mais longo prazo, protegidos por leis locais.

A previsão inicial era que o texto seria apresentado na sexta passada, mudou para esta quarta (4). Nesta segunda (2), a ideia voltou a ser adiada. Lacunza afirma que prefere chegar a um acordo mais compacto com a oposição antes que se vote esse projeto.

Embora tenha adotado medidas que se assemelham às práticas dos peronistas que os antecederam na Casa Rosada, os macristas creem que os investidores sabem distingui-los. 

Desde as eleições primárias, em 11 de agosto, o dólar escalou e os títulos negociados no exterior atingiram as mínimas históricas. 

Com a sangria nas reservas, o governo acionou no fim de semana uma série medidas de controle cambial, impondo restrições de empresas e pessoas físicas ao dólar.

Acostumados a fazer poupança na moeda americana, muitas vezes guardando cédulas em casa ou em caixas-fortes nos bancos, os argentinos foram limitados a comprar US$ 10 mil por mês. O valor, convertido pela cotação desta segunda, seria de 580.410 pesos. Para ter uma ideia, o salário de Macri é de 286.000.

Entre os auxiliares do presidente, o teto elevado é uma evidência contras as críticas da oposição, que acusa o governo de ter ressuscitado o chamado “cepo” —limite de acesso a dólares empregado na gestão Cristina Kirchner e que Macri prometera derrubar.

Não há “cepo”, dizem os macristas, que preferem usar a expressão “controle de câmbio”, a exemplo do termo adotado para desviar-se da moratória parcial: reperfilamento.

Para além da discussão semântica, Macri tem pela frente uma missão difícil de mostrar-se viável após perder por 15 pontos nas primárias. No dia 22 começa oficialmente a campanha eleitoral, e a expectativa, na Casa Rosada, é que o presidente possa recuperar terreno com o mote de que a Argentina pode ser melhor e superar a crise. 

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