Queimadas derrubam produtividade em áreas de soja em MT

Segundo o Inpe nos primeiros 15 dias do mês foram 420 focos de incêndios em Paranatinga

Marcelo Toledo
Ribeirão Preto

O cenário mostra que o local foi devastado. Queimadas intensas, propagadas por fortes ventos e auxiliadas pelo tempo seco, destruíram barracos, mais de 5.000 hectares de lavouras (7.002 campos de futebol) e mataram animais de criação no distrito Santiago do Norte, em Paranatinga (MT).

A situação de perdas no campo, no entanto, não se restringe à cidade mato-grossense, que só nos primeiros 15 dias do mês teve 420 focos de incêndios, segundo o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

As queimadas fora de controle já atingiram pastos, mataram animais, destruíram máquinas agrícolas e geraram prejuízos milionários a produtores rurais de estados como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Rondônia e Goiás.

A produtividade de soja para a próxima safra —que começará a ser plantada— nos locais atingidos será inferior em 5 ou 6 sacas por hectare, o que significa cerca de 10% do colhido na média do estado —56,6 sacas, segundo Wellington Andrade, diretor-executivo da Aprosoja (Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso).

O problema, que levará ao menos três safras para ser revertido, ocorre porque o fogo destroi a palhada do milho —a palha que sobra após a colheita da cultura serve de cobertura para a safra seguinte de soja.

“Esse solo leva de três a quatro anos para recuperar aquela matéria orgânica novamente. Ou seja, só vai colher a produtividade que colhia naquele talhão três anos depois. Enquanto isso é um prejuízo cumulativo. Além disso, o solo perde qualidade e é preciso botar mais insumos, mais fertilizantes, mais tecnologia. Tudo isso encarece”, disse.

Mato Grosso declarou situação de emergência, medida já adotada por 18 municípios, entre eles Paranatinga.

Há relatos de graves problemas, porém, em quase todo o país. Nesta semana, um incêndio destruiu lavouras de cana e milho e matou vacas queimadas em Passos (MG).

Na semana anterior, uma queimada destruiu um curral, cercas e um trator em Monte do Carmo (TO). Já em Salto de Pirapora (SP), o fogo destruiu uma plantação de eucaliptos.

Os focos se proliferaram com rapidez devido ao tempo seco, com baixa umidade relativa do ar, e ventos fortes, principalmente entre 10h e 17h, segundo Thomas Paschoal, presidente do Sindicato Rural de Paranatinga.

“Na região houve perda de gado, cercas, currais e tratores. O prejuízo é muito grande em madeira e arame também”, afirmou.

O cenário é agravado com a dificuldade de acesso para combater as queimadas, como em Santiago do Norte, que tem estradas de acesso ruins.

Segundo ele, há áreas de palhada queimadas que eram mantidas há até dez anos por produtores rurais. “A riqueza que agregava ao solo era fantástica. Agora terão de começar tudo do zero, de novo”, disse Paschoal.

Crimes

A avaliação do setor é que há incêndios criminosos, mas não de produtores ateando fogo em suas próprias fazendas.

“Neste ano o tempo seco está acima da média, tanto em termos de umidade quanto em temperatura. Sempre há um espírito de porco, não descartamos incêndio intencional, criminoso. Mas ele jamais vai ocorrer dentro da propriedade rural, o dono é o que mais teme o fogo na lavoura”, disse Andrade.

A Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes), por meio de nota, repudiou práticas que possam incorrer no desmatamento ilegal ou em queimadas, em especial na Amazônia.
Segundo a associação, que representa 31 empresas responsáveis por 92% das exportações de carne bovina do país, a pecuária tem se pautado pela sustentabilidade e prima pela qualidade e segurança dos alimentos.

“O Brasil possui uma das mais rígidas e rigorosas legislações ambientais do mundo, que determina, entre outras normas, a obrigatoriedade de produtores rurais preservarem de 20% a 80% de matas nativas dentro de suas propriedades, dependendo do bioma. Dessa forma, ressaltamos a confiança na implementação de medidas de combate a práticas ilegais de desmatamento e na identificação e punição dos responsáveis por tais ações”, diz comunicado da entidade.

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