Com queda de juros, BNDES não faz falta para crédito, diz presidente da Mercedes-Benz

Para Philipp Schiemer, banco estatal só era preferido porque oferecia crédito a taxas subsidiadas

Raquel Landim
São Paulo

O alemão Philipp Schiemer, presidente da Mercedes-Benz no Brasil, diz que o BNDES “não faz falta nenhuma” no financiamento de caminhões agora que os juros estão mais baixos. Ele afirma que o banco estatal só era o preferido pelos subsídios.

“O BNDES praticava juro negativo, dinheiro de graça. Foi uma irresponsabilidade e até hoje pagamos o preço”, diz. 

Segundo o executivo, hoje as taxas são iguais e os clientes preferem os bancos comerciais, que já chegam a 30% do mercado —os 70% restantes das vendas são financiadas pelas próprias montadoras.

Philipp Schiemer, 55, é presidente da Mercedes-Benz no Brasil e na América Latina. - Zanone Fraissat/Folhapress

Com 17 anos de experiência no Brasil, Schiemer está otimista com o governo Bolsonaro por causa das privatizações e da realização das reformas econômicas. Ele reconhece que a polarização da sociedade afeta a economia e a imagem do Brasil lá fora, mas faz questão de frisar que isso “não começou nesse governo”.

“Os escândalos de corrupção prejudicaram a imagem do Brasil de uma maneira brutal”, afirma.

As vendas de caminhões subiram 40% de janeiro a setembro em relação ao mesmo período do ano passado. O que está puxando essa recuperação? 
O mercado está crescendo e deve fechar o ano com um aumento entre 35% e 40%. Chegaremos a cerca de 100 mil caminhões vendidos, é uma recuperação depois de uma crise sem precedentes. As vendas, que chegaram a 170 mil em 2011, caíram para 50 mil em 2016. 

O avanço é significativo em termos porcentuais, mas ainda moderado.

Vários fatores colaboram. Primeiro, a agricultura está forte, o que impulsiona a venda para o transporte da safra. Segundo, os grandes frotistas, que durante a crise haviam parado de comprar, voltaram a trocar os caminhões. 

O terceiro é a queda da taxa de juros. Praticamente todos os caminhões são vendidos a prazo, portanto juros baixos tornam o produto mais atrativo. E os bancos comerciais, que haviam saído desse mercado por causa do aumento da inadimplência, retomaram a oferta de crédito. 

Quem está financiando a recuperação?
As linhas do BNDES estão com uma demanda muito baixa... O BNDES quase não tem mais relevância. Durante a crise, apenas os bancos das montadoras financiaram caminhões. Desde 2018, Itaú, Bradesco e outros voltaram e respondem por cerca de 30% das nossas vendas. 

A queda da Selic está chegando para o nosso cliente —com um certo atraso, mas está. O que o BNDES faz hoje é dar crédito para caminhoneiros autônomos para a manutenção do veículo. É uma função social. 

Durante anos o BNDES foi o principal financiador de caminhões no Brasil. O banco está fazendo falta?
O BNDES não faz falta nenhuma. O crédito deles era subsidiado. O financiamento sempre foi mais burocrático do que nos bancos comerciais. Só era o preferido porque, pelo subsídio, oferecia uma taxa super atrativa.

Hoje as taxas são iguais, e os clientes preferem bancos comerciais, que são mais rápidos flexíveis. 

Alguns analistas dizem que houve uma venda excessiva de caminhões por causa do subsídio do BNDES. O senhor concorda? 
Sim. Durante três anos, tivemos vendas completamente fora da demanda normal. A Selic estava em 8% e o BNDES Finame oferecia juros de 2,5%. Isso é juro negativo: dinheiro de graça. Foi uma irresponsabilidade e até hoje pagamos o preço.

Quando temos uma crise econômica, o governo pode dar incentivo, faz parte do jogo. Mas, naquela época, o incentivo foi muito além do necessário. E, quando o mercado reagiu, poderia ter retirado o subsídio aos poucos, mas não foi o que aconteceu. O subsídio só terminou quando o dinheiro acabou.

Em 2015, após as eleições, os juros para a compra de caminhões subiram de 2,5% para 15% e o mercado colapsou. Se as taxas tivessem subido em etapas, talvez o sofrimento tivesse sido menor. Agora os juros baixaram naturalmente e o cliente consegue pagar. 

As vendas de caminhões cresceram, mas a produção avançou apenas 13% e o emprego continua com queda de 4%. Quando a recuperação do setor vai chegar ao emprego?
Nós voltamos a contratar. Desde 2018, já admitimos 1,4 mil pessoas. É verdade que na crise saíram 5 mil. Como o PIB ainda está crescendo muito pouco, cerca de 1% este ano, o avanço do emprego vai ser conservador.

Voltamos a trabalhar em dois turnos e, em algumas fases da produção, até em três, mas ainda temos uma capacidade ociosa de 40%.Também não podemos esquecer que a indústria sofreu o impacto da crise na Argentina. Calculo que o PIB brasileiro perdeu 0,5% por causa do vizinho. 

O setor de caminhões costuma ser um bom termômetro para o investimento e para o PIB. O senhor acredita que a economia brasileira vai voltar a crescer? 
Não são todos os segmentos de caminhões que estão crescendo. O que está puxando é o veículo extra-pesado, basicamente agricultura e distribuição de líquidos. 

Varejo e construção civil, que são clientes importantes, ainda tem que voltar. A reação nesses setores é modesta, mas, pela primeira vez nos últimos cinco anos, temos empreiteiras fazendo consultas. O “varejinho”, o pequeno caminhão que supermercados utilizam para transportar produtos, também começou a voltar. 

Qual é a sua avaliação do governo Bolsonaro?
Esse governo chegou com o lema de liberalização da economia, de fazer as reformas necessárias, privatizar e desburocratizar. O Executivo e também a Câmara e o Senado estão indo na mesma direção, o que é uma surpresa muito positiva.

As privatizações vêm ocorrendo. Foram feitos leilões de óleo e gás, de aeroportos, estradas. Tudo isso vai impactar no investimento e os resultados aparecerão a partir de meados de 2020. Isso significa um crescimento do emprego quase garantido.

Com juros baixos, empresários também vão criar coragem para fazer investimentos. Até mesmo pequenos poupadores devem aplicar seu dinheiro em novos negócios em vez de viver de renda. 

Com as reformas, o ambiente de negócios está melhorando. É claro que poderia ser mais rápido. Deveríamos ter aprovado a reforma da Previdência três meses atrás e partido para o próximo assunto, já que é uma reforma que não resolve o problema. 

O Congresso está discutindo a reforma tributária, mas o Executivo ainda não apresentou sua proposta. Por que ela é tão importante?
A reforma tributária vai ser muito difícil, mas é urgente. Acredito que teremos avanços no ano que vem. Hoje o Brasil não é competitivo e um dos grandes entraves é o sistema tributário. 

Na Mercedes, temos em torno de 30 a 40 empregados para administrar impostos. Em qualquer outro país, são dois. E, mesmo com tanta gente, corremos o risco de não atender alguma exigência. 

Os impostos no Brasil são muito elevados, mas sabemos que não vai dar para resolver isso, porque o governo está quebrado. No entanto, se a reforma apenas reduzisse a complexidade e aliviasse a exportação, o benefício seria enorme.

Ainda não incluímos nos nossos planos a realização de uma reforma tributária, mas acredito que existe chance.

Qual é a sua opinião sobre a ideia de recriar a CPMF? 
Em relação ao imposto sobre transações financeiras, esse tributo está queimado. É uma pena porque nem chegamos a ouvir a proposta do ministro [da economia, Paulo] Guedes direito. O nome já atrapalhou toda a discussão.

O governo Bolsonaro quer maior abertura da economia e fechou acordo de livre-comércio com a União Europeia. O setor automotivo é uma moeda de troca, porque é bastante protegido. O senhor é contra ou a favor da abertura? 
Somos totalmente favoráveis. Não adianta o Brasil se fechar, porque o mercado local não suporta a indústria automotiva instalada no país. A indústria brasileira tem que ser competitiva lá fora e isso só vai ocorrer facilitando a entrada de componentes.

Lógico que a abertura não pode ser do dia para noite, senão a indústria quebra. É necessário uma fase de adaptação, para as empresas fazerem investimentos. Não adianta produzir aqui com o mesmo padrão dos anos 80. O Estado também tem que se preparar: fazer a reforma tributária, aliviar a exportação, melhorar a logística e a infraestrutura.

Como está a imagem do Brasil no exterior? O senhor elogia a condução da economia, mas está preocupado com outras questões, como direitos humanos ou meio ambiente?
Como multinacional, temos uma política forte para a diversidade —LGBT, racial, mulheres. E isso é independente do governo. Sei que o Brasil, infelizmente, vive uma polarização, que também existe em outros países. Só que essa polarização não é de agora. 

Parece que o Brasil foi de um extremo ao outro e tomara que, no futuro, se encontre no meio. A polarização afeta o clima da economia e a imagem do Brasil lá fora. Mas vamos ser bem claros: não começou com esse governo. 

Os escândalos de corrupção prejudicaram a imagem do Brasil de maneira brutal. E isso tem um reflexo direto na maneira que as multinacionais fazem negócios por aqui.

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