EUA reforçam apoio à Argentina na OCDE e deixam de fora Brasil

Em carta, Estados Unidos respaldam também a Romênia; candidatura brasileira não é citada

São Paulo

O governo dos Estados Unidos deu respaldo às candidaturas de Argentina e Romênia para uma vaga na OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) em uma carta enviada ao órgão.

No documento, não há nenhum apoio à candidatura do Brasil —o país não é sequer citado—, mesmo após o governo americano ter anunciado apoio à candidatura brasileira.

O presidente dos EUA, Donald Trump, havia sinalizado apoio ao Brasil após o presidente Jair Bolsonaro abrir mão de benefícios na OMC (Organização Mundial do Comércio) dados a países em desenvolvimento.

O conteúdo da carta, datada de 28 de agosto, foi divulgado pela agência Bloomberg.

Integrantes do governo procurados pela Folha declaram que a indicação da Argentina não é novidade para eles. Argumentam que desde os primeiros contatos da gestão de Jair Bolsonaro, os auxiliares de Trump deixaram claro que Argentina seria o país indicado pelos americanos.

Donald Trump e Jair Bolsonaro durante visita aos Estados Unidos - Brendan Smialowsk - 19.mar.19/AFP

Há 40 dias, dizem pessoas ligadas à equipe econômica, o ministro da Economia, Paulo Guedes, foi informado por um representante do governo americano de que a indicação do país vizinho ocorreria em breve.

A Romênia é uma indicação dos europeus.

A entrada na OCDE pode levar alguns anos. E o governo Trump é contra a ampliação do número de países-membro na organização.

Em nota, a embaixada dos Estados Unidos em Brasília negou que o país estivesse deixando de apoiar a entrada do Brasil na OCDE.

“A declaração conjunta de 19 de março do presidente Trump e do presidente Bolsonaro afirmou claramente o apoio ao Brasil para iniciar o processo para se tornar membro pleno da OCDE e saudou os esforços contínuos do Brasil em relação às reformas econômicas, melhores práticas e conformidade com as normas da OCDE. Continuamos mantendo essa declaração”, disse a embaixada, em nota.

O texto ainda destaca: “apoiamos a expansão da OCDE a um ritmo controlado que leve em conta a necessidade de pressionar as reformas de governança e o planejamento de sucessão. Continuaremos a trabalhar com outros membros da OCDE para encontrar um caminho para a expansão da instituição. Todos os 36 países membros da OCDE devem concordar, por consenso, com o calendário e a ordem dos convites para iniciar o processo de adesão à OCDE”

 Segundo a agência Reuters, a carta se insere em um xadrez político maior, que inclui a oposição dos EUA à gestão de Angel Gurría, secretário-geral da OCDE.

O governo americano não compartilha a visão de Gurría para as regras da organização, pela avaliação de que os rumos pretendidos preconizam uma influência excessiva da Europa sobre a OCDE —americanos e europeus divergem, por exemplo, em questões de tecnologia, regulação e meio ambiente.

Uma pessoa a par do assunto afirmou à Reuters que, enquanto os EUA miram a sucessão de Gurría —que deverá ocorrer em 2020—, a perspectiva é que não irão se manifestar formalmente sobre qualquer mudança mais no desenho para adesão de novos membros.

Além de Argentina e Romênia —que deram entrada no pedido para ingressar no clube dos países ricos antes do Brasil—, Bulgária também está na disputa. Com o ingresso de mais dois países europeus no grupo, norte-americanos avaliam que uma OCDE mais "europeizada" poderia ser uma barreira aos seus interesses.

Eleições argentinas

O timing da carta, de acordo com outra pessoa a par do assunto também ouvida pela Reuters, ainda tem referência ao resultado das eleições primárias na Argentina.

No início de agosto, o mercado argentino sofreu forte abalo na esteira da esmagadora vitória do candidato de oposição Alberto Fernández nas eleições primárias, afetando severamente as chances de reeleição do presidente Mauricio Macri. A citação à Argentina no documento poderia beneficiar o presidente argentino, defensor do livre mercado e tido como aliado dos EUA, em sua disputa pela reeleição.

Na carta, os americanos teriam favorecido o critério de cronologia, dando apoio aos argentinos, que começaram o processo de adesão primeiro e que já tinham respaldo de Trump há mais tempo.

A solicitação formal do Brasil para se juntar à OCDE foi feita em maio de 2017, no governo de Michel Temer, representando um esforço para fortalecer os laços com as nações desenvolvidas do Ocidente, depois que governos anteriores priorizaram as relações com países em desenvolvimento.

A OCDE aconselha seus 36 membros, na sua maioria países ricos, e é considerada uma influenciadora-chave na arquitetura econômica mundial. Dentre os emergentes que fazem parte do grupo, estão países como Turquia, México e Chile.

Histórico

Em março deste ano, o presidente Trump afirmou publicamente que endossaria a campanha brasileira para o ingresso na OCDE. 

Ao ser questionado por jornalistas durante uma visita de Bolsonaro à Casa Branca, em Washington, ele respondeu: “estou apoiando o Brasil”.

Em troca de obter o apoio dos Estados Unidos, o Brasil prometeu abrir mão de seu “tratamento especial e diferenciado” na Organização Mundial de Comércio (OMC), que dá ao país maiores prazos em acordos comerciais e outras flexibilidades.

Uma das medidas efetivamente adotadas pelo governo brasileiro foi elevar para 750 milhões de litros, ante 600 milhões anteriormente, a cota para importações anuais de etanol sem tarifa. A medida vigorará por 12 meses e foi comemorada pelo presidente americano, Donald Trump, já que Estados Unidos são os principais exportadores de etanol para o Brasil.


O que é a OCDE?

Criada em 1961 e com sede em Paris, a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) é formada por 36 países. Um dos pilares da origem do seu surgimento é a defesa do livre mercado. A organização costuma promover políticas econômicas e conectar governos e indústrias para a troca de experiências e soluções para o desenvolvimento econômico

Qual a importância para o Brasil fazer parte da OCDE?

Nesta organização, o Brasil poderia se tornar mais atraente para o mercado externo, fortaleceria a confiança de investidores e estabeleceria diálogos com outras economias desenvolvidas

Com Reuters

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