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Mercado dá recado de esgotamento do modelo de exploração

Empresas estrangeiras parecem aguardar ajustes que justifiquem ampliar investimentos no Brasil

O mercado aguardou com grande expectativa o desenrolar do megaleilão desta semana. Os resultados foram ruins ou a expectativa foi superestimada?

De um lado, a Petrobras saiu fortalecida no pré-sal e o governo conseguiu trazer recursos substanciais para a União. De outro, a participação de empresas estrangeiras nos leilões se limitou a um percentual pequeno das empresas chinesas CNOOC e CNODC, sinalizando que talvez seja hora de repensar o modelo de exploração do petróleo no Brasil.

Construção e Montagem Industrial para as Plataforma P-48.
Plataforma P-48, da Petrobras - Divulgação/Mip Engenharia

A Petrobras foi protagonista, ao desembolsar um bônus alto para ampliar sua participação em áreas em que já opera. Mesmo com a preocupação externada pelo mercado com a alavancagem e impacto financeiro no curto prazo, a oferta da empresa no leilão segue na linha do seu posicionamento estratégico.

O tempo dirá a dimensão do impacto do pagamento do bônus no endividamento da empresa, o que dependerá do sucesso do desinvestimento.

Já sob a ótica do setor de petróleo, é importante analisar os dois leilões conjuntamente e no contexto do histórico recente do pré-sal.

A realização do leilão da cessão onerosa foi, por si só, uma vitória. Foi preciso vencer etapas que incluíram uma longa negociação entre Petrobras e União, além medidas regulatórias e legais.

O resultado foi uma arrecadação líquida de R$ 36 bilhões em bônus e a perspectiva de investimentos nessas áreas. Esse valor foi inferior ao esperado, mas fica a dúvida se as expectativas criadas pelo leilão, com bônus de assinaturas altíssimos, é que não foram otimistas demais.

No entanto, o desfecho do leilão, em que novamente não houve oferta de empresas estrangeiras, foi uma surpresa.

O sucesso das rodadas anteriores está ligado aos ajustes regulatórios iniciados no governo Temer, que destravou a agenda e atraiu empresas que buscavam —e conseguiram— se posicionar de maneira estratégica no pré-sal.

Para dar um passo além, as empresas parecem estar em compasso de espera, aguardando mais ajustes que justifiquem ampliar o peso do Brasil no seu portfólio global.

Os resultados dos leilões desta semana não necessariamente significam um desinteresse das empresas internacionais no setor de petróleo no Brasil, mas apontam para um esgotamento do modelo.

A partilha, o direito de preferência da Petrobras e sua condição de operadora nas áreas em que exerce a preferência podem não ter sido fatores decisivos nas rodadas passadas. Mas, diante da perspectiva de aprimoramentos em um futuro próximo sinalizada próprio pelo governo, vale a pena esperar por condições mais favoráveis. 

Na cessão onerosa, a resposta talvez seja mais simples: a conta não fechou. A falta de apetite por essa oferta específica está relacionada a um desenho de leilão que privilegiou o pagamento do bônus à vista em detrimento da parcela de óleo-lucro (“a prazo”).

Como mostrou o resultado dos leilões, o recado foi dado pelas empresas. É preciso iniciar um novo ciclo.

Lavinia Hollanda

sócia e diretora-executiva da Escopo Energia

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