Coronavírus trava novos negócios entre Brasil e China

Com limitações para o trânsito, assinatura de contratos é protelada, principalmente de médias empresas

São Paulo

A empresária Natália Martins, 31, já havia feito investimentos para divulgar o lançamento de sua nova linha de produtos de beleza, de origem chinesa, quando teve de cancelar a viagem ao país asiático, em que fecharia contratos para a importação das mercadorias.

Com o surto de coronavírus, que já causou 565 mortes e 28,3 mil infecções e que tem a China como o principal foco, negócios entre chineses e brasileiros que dependem de trânsito das pessoas estão sendo afetados.

Vários executivos e empresários estão optando por adiar não só a viagem em que acertariam contratos e alinhariam fornecimentos de produtos; também decidiram não fechar a negociação por hora.

“Estava pronta para ir em março, para estreitar as relações com as fábricas, fechar valores, para poder trazer cosméticos voltados para a pele e rosto, mas tive de cancelar”, diz Natália, proprietária da empresa de beleza Natália Beauty Academy.

“Iríamos lançar a linha [de produtos] em junho, mas agora não temos previsão nenhuma, porque [com essa situação] não tem como saber, e parece que está piorando.”

Natália Martins, 31, cancelou viagem à China em que acertaria preços de produtos de beleza
Natália Martins, 31, cancelou viagem à China em que acertaria preços de produtos de beleza - Eduardo Knapp/Folhapress

A mudança nos planos por conta da epidemia também foi relatada por chefes de entidades que fazem a intermediação entre empresários brasileiros e chineses.

Charles Tang, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China diz que suspendeu uma incursão com outro brasileiro.

“Posterguei a viagem com um empresário que iria comprar toda a maquinaria para a produção de vitaminas A e E na China. Tivemos que adiar”, diz Tang.

“Vamos esperar para ver quando vai ser seguro viajar para a China. Isso logicamente afeta a economia, porque o Brasil importa muita coisa da China. Não são só coisas que você encontra na rua 25 de Março [polo de comércio popular na região central de São Paulo], mas máquinas e tecnologia.”

O diretor do CEBC (Conselho Empresarial Brasil-China), Roberto Milani, conta que pelo menos três executivos ligados à entidade que tinham viagens programadas em janeiro tiveram que adiá-las.

“Estão esperando para ver como as coisas vão ficar para marcar as visitas. São profissionais que iriam comprar ou vender mercadorias da ou para a China. É importação ou exportação”, afirma.

Segundo Milani, incursões ao país neste momento são arriscadas devido às restrições no fluxo de entrada e saída de pessoas.

“Não adianta mandar um executivo para a China. Já há problemas de tráfego de avião, nem todas as companhias estão voando para lá. Você corre o risco de precisar sair [da China] e não conseguir.”

Na semana passada, companhias aéreas anunciaram a suspensão total ou parcial de voos para a China —e de lá para outros países— devido ao surto de coronavírus.

British Airways, United, Air Canada, Cathay Pacific, Air India e a finlandesa Finnair avisaram que vão, temporariamente, cancelar ou reduzir a quantidade de voos para cidades como Pequim e Xangai.
O impacto do surto, portanto, afeta tanto aqueles que querem ir ao país como também quem quer vir fazer negócios no Brasil.

“Executivos da região de Wuhan não podem nem sair do país. Como que eles vão vir para o Brasil analisar projetos de investimento?”, diz Tang, da Câmara Brasil-China.

A preocupação, no entanto, não deve se estender a todos os negócios entre os dois países, segundo especialistas em investimento ouvidos pela Folha. Na avaliação deles, o problema deve ficar circunscrito a empresários de médias empresas, que ainda não conhecem seus fornecedores e querem visitar o país antes de fazer o aporte.

“Grandes empresas brasileiras já estão na China. Não tem nenhuma que está começando agora. As principais chinesas também estão aqui. A reunião que não é feita pessoalmente pode ser feita pela internet, em alguma sistema de conferência”, afirma Hsieh Yuan, diretor para a área de China da consultoria Mazars.

“Agora, quem é iniciante, de médio porte, eu diria que vai ter que esperar esse pico de crise passar. Mas o verão já está chegando, o que deve mudar as coisas por lá”, diz.

Na mesma linha, Renato Baumann, subsecretário para investimentos estrangeiros da secretaria-executiva da Camex (Câmara de Comércio Exterior), afirma ver prorrogação de negócios em casos de companhias que ainda não comercializam com os chineses.

“As empresas que ainda não estão lá e querem explorar mercado, ou vice-versa, que não estão aqui e querem vir, podem ser impactadas, porque o negócio depende muito da relação direta.”

Já projetos grandes, como de concessão e privatização no Brasil, não devem ser afetados, avalia Baumann.

“Em princípio não vejo grandes dificuldades e não deveria afetar os investimentos, porque [a epidemia] ainda é um processo em curso, e não dá para saber a dimensão que vai tomar. Além disso, boa parte dos investidores tem representação aqui”, afirma.

“Participar de editais de grandes projetos, isso pode ser feito pela internet, não depende da presença física.”

Para Fabiana D’Atri, economista do Bradesco, é cedo para fazer prognósticos do impacto do coronavírus porque epidemias passadas mostram que os surtos tendem a se atenuar com a proximidade do verão.

Em relação aos investimentos, ainda que haja prorrogações, ela diz que o saldo final para o ano não deve mudar.

“Mesmo que você tenha um impacto pontual, não haverá alteração no PIB. Até porque as decisões de investimentos que estamos falando não são de curto prazo, mas de prazos mais dilatados”, diz.
“Você troca de um mês para o outro, mas ao longo do ano, essas decisões vão ser tomadas.”

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