Descrição de chapéu The New York Times

Empresas de tecnologia mais ricas ampliam poder e praticamente eliminam concorrência

A despeito do escrutínio das autoridades regulatórias, as grandes do setor continuam a crescer em velocidade notável

Daisuke Wakabayashi Matt Phillips
São Franscisco | The New York Times

Quando a controladora do Google, a Alphabet, anunciou na segunda-feira que sua receita havia ultrapassado os US$ 161 bilhões no ano passado, isso serviu como um lembrete claro da distância crescente que separa as empresas de tecnologia mais ricas do restante do setor. E existe pouco motivo para acreditar que isso vá mudar.

Nas duas últimas semanas, Microsoft, Apple e Amazon –todas as quais, como a Alphabet, estão flertando com uma capitalização de mercado de US$ 1 trilhão em Wall Street– anunciaram resultados recorde. O último dos membros das cinco grandes companhias de tecnologia, o Facebook, que está a meio caminho de um valor de mercado de US$ 1 trilhão, também reportou resultados muito fortes.

Com cada trimestre que passa, as empresas de tecnologia mais ricas estão ampliando seu poder, tornando mais difícil que rivais de menor porte concorram com elas e que empreendedores criem o próximo Google ou Facebook.

A Amazon e a Microsoft estão lucrando com a transição para a computação em nuvem. A Apple continua a controlar o mercado de apps, smartphones e aparelhos vestíveis mais caros, enquanto Google e Facebook mantêm seu controle sobre a publicidade digital.

A força gravitacional desse pequeno grupo de empresas pode ter implicações muito sérias para a economia mundial. Poucas empresas de tecnologia conseguem arcar com o investimento necessário a acompanhar as gigantes. As demais? Muitas vezes precisam pagar pelo acesso aos muitos, muitos clientes e à tecnologia das gigantes.

Google foi a quarta big tech a valer US$ 1 trilhão - Thomas Pete/Reuters

“Os fortes estão ficando mais fortes, e os fracos mais fracos. É um mercado em que alguns têm e muitos não têm”, disse Daniel Ives, diretor executivo de pesquisa de ações na corretora Wedbush Securities. “Em 20 anos cobrindo o setor de tecnologia, jamais vi uma situação parecida com essa”.

A despeito do tom ameaçador adotado por Washington e outras capitais, fica claro que o escrutínio regulatório e legal sobre as companhias de tecnologia mais valiosas até agora pouco fez para prejudicar seus resultados. Os resultados financeiros delas no ano passado podem emprestar peso maior aos argumentos de que um punhado de empresas, com fatias dominantes de mercado, e diante de concorrentes impotentes, está tirando vantagem indevida de seu controle.

Amazon, Apple, Alphabet, Microsoft e Facebook tiveram lucro líquido combinado de US$ 55,2 bilhões em seus trimestres mais recentes. As cinco empresas de tecnologia que as seguem de mais perto, somadas, lucraram cerca de US$ 45,5 bilhões em seus quatro últimos trimestres. Embora o Facebook esteja defasado ante as demais das Cinco Grandes, continua a ter valor de mercado duas vezes mais alto do que a sexta colocada no ranking da tecnologia, a Intel.

O quadro se torna mais e mais sombrio, quanto mais embaixo a empresa estiver no ranking da tecnologia. Número crescente de startups vem cortando empregos para manter as despesas sob controle. E companhias de tecnologia mais velhas, ainda lucrativas mas perdendo influência lentamente, vêm lutando para se adaptar às mudanças na paisagem.

À medida que os ricos se tornam ainda mais ricos, se torna possível que estendam seu alcance. Estão derrotando rivais aproveitando seu tamanho, ou em certos casos os adquirem. E estão contratando os melhores engenheiros do setor, oferecendo-lhes salários que empresas menores não têm possibilidade de equiparar.

A Amazon anunciou na semana passada que havia investido na infraestrutura necessária para acelerar o prazo de entrega de produtos aos membros de seu programa Prime de dois para um dia, o que cria um desafio ainda maior para seus concorrentes no varejo. Mas as operações da segunda-feira em Wall Street demonstraram o quanto é difícil se manter membro do clube do US$ 1 trilhão. A despeito de seu domínio no ramo de comércio eletrônico e computação em nuvem, o valor de mercado da Amazon caiu para um pouco menos de US$ 1 trilhão.

A Apple recentemente reservou bilhões de dólares para investir na criação de programas de TV e filmes destinados ao seu serviço de vídeo por assinatura, em um desafio à Netflix, e a Alphabet fechou acordo para adquirir a Fitbit, que produz equipamentos vestíveis que registram dados sobre atividades esportivas, por US$ 2,1 bilhões, em novembro, e a Looker, produtora de software analítico, por US$ 2,6 bilhões em junho.

“As empresas dominantes atuais têm muito poder, em uma gama muito ampla de mercados, e continuam a explorar esse poder a fim de se expandir em novos mercados”, disse Patrick Spence, presidente-executivo da fabricante de alto-falantes Sonos, em uma audiência antitruste do Congresso, no mês passado em Boulder, Colorado.

A Sonos abriu um processo contra o Google, que ela acusou de violar cinco de suas patentes, entre as quais uma sobre tecnologia que permite que alto-falantes sem fio se conectem e sincronizem uns com os outros.

As empresas mais ricas de tecnologia parecem estar desafiando a suposição de Wall Street de que, à medida que uma companhia cresce, se torna mais difícil para ela encontrar novas maneiras de ganhar dinheiro e manter um crescimento rápido. A Alphabet anunciou que seu lucro no quarto trimestre de 2019 foi 19% superior ao do período um ano antes. A receita subiu em 17%, para US$ 46,1 bilhões, ligeiramente abaixo das expectativas de Wall Street. As ações da companhia caíram em 4% em transações posteriores ao fechamento do mercado.

Para acalmar as preocupações sobre a lentidão de sua principal atividade, a venda de anúncios vinculados a buscas, a Alphabet revelou pela primeira vez números detalhados sobre a receita de suas unidades YouTube e de computação em nuvem, que estão crescendo mais rápido que o resto da empresa. O YouTube vendeu US$ 15,1 bilhões em publicidade em 2019, uma alta de 36%, e a unidade de computação em nuvem do grupo cresceu em mais de 50%, faturando US$ 8,9 bilhões. A receita da publicidade vinculada a buscas cresceu em 15%, para US$ 98,1 bilhões.

Gene Munster, sócio diretor da Loup Ventures, uma companha de capital para empreendimentos de Minneapolis, disse que a situação era cada vez mais difícil para novos desafiantes, porque os atuais líderes eram muito efetivos em termos de “evolução gradual”, como prova o desenvolvimento de seus serviços por assinatura pela Apple, para acompanhar as vendas de hardware, ou a incursão do Google ao ramo de computação em nuvem. As grandes empresas de tecnologia ingressam habilidosamente em novos mercados, com preços mais baixos e verbas de marketing maiores do que as de seus concorrentes.

Com o tempo, elas assumem o controle desses segmentos.

A natureza desproporcional dos lucros de algumas dessas empresas resultou em uma explosão de riqueza no mercado de ações.

O valor total das ações da Microsoft cresceu em quase 70% no ano passado, acrescentando mais de US$ 500 bilhões ao valor de mercado da companhia. A Apple elevou sua capitalização de mercado em mais de US$ 550 bilhões, com uma disparada de 85% no preço de suas ações.

A alta de mais de 30% no valor de mercado da Alphabet elevou sua capitalização em US$ 200 bilhões. A Amazon, que registrou uma alta de 20%, ficou um pouco para trás das rivais, mas ainda assim elevou seu valor de mercado em cerca de US$ 200 bilhões.

As grandes empresas de tecnologia que dominam os mercados abertos de ações estão no extremo mais aguçado de uma tendência mais ampla na vida empresarial dos Estados Unidos. Nos últimos 50 anos, as maiores companhias dos Estados Unidos capturaram porção maior dos lucros produzidos pelas empresas americanas de capital aberto, de acordo com pesquisas de Kathleen Kahle, professora de finanças da Universidade do Arizona, e René Stulz, economista da Universidade Estadual do Ohio.

Em 1975, as 100 maiores companhias de capital aberto abocanharam cerca de 49% dos lucros registrados pelo total das empresas de capital aberto. Em 2015, essa proporção havia saltado a 84%, a pesquisa deles demonstrou. Os números não foram atualizados depois disso, mas Kahle afirmou em uma troca de e-mails que duvidava que a proporção tivesse diminuído.

“Há muitas empresas pequenas e nada lucrativas e algumas poucas empresas grandes e muito lucrativas”, afirmou Kahle em um email.

Ives prevê que as cinco grandes companhias competirão por US$ 2 bilhões em novos gastos com tecnologia nos próximos anos. Será difícil para o restante do setor acompanhá-las.

“Nos últimos anos, a estrada se bifurcou e separou vencedores de perdedores”, ele disse.


 
Tradução de Paulo Migliacci

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