Descrição de chapéu Coronavírus

Ajuda de banco público contra vírus pode não chegar ao pequeno negócio

Instituições querem mais garantias e histórico de bom pagador, o que deve atrair grande empresa

Brasília

Apenas 15% do dinheiro liberado pelos maiores bancos públicos para linhas especiais de crédito de capital de giro chegará às pequenas e médias empresas --as mais afetadas pela crise do coronavírus.

Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil irão disponibilizar R$ 145 bilhões às empresas.

Desse montante, a menor parcela --cerca de R$ 22 bilhões-- será para as pequenas e médias, segundo estimativas de executivos da Caixa e do BB feitas com base em análise de crédito. Eles falaram sob a condição de anonimato.

A tendência, de acordo com eles, será concentrar a maior parte do dinheiro em empresas de grande porte, pois são justamente elas que têm bom histórico de pagamento.

Para pequenas e médias empresas, a maioria com risco elevado de crédito, será preciso apresentar novas garantias.

Os bancos dizem oficialmente que atendem pedido do governo Jair Bolsonaro (sem partido) para injetar dinheiro na economia e na saúde.

Ao todo, o socorro das instituições à economia, segundo anúncio do governo federal, chegará a R$ 178 bilhões. Além de capital de giro, outros produtos estão previstos.

"Somos um banco social, mas somos um banco", afirmou o presidente da Caixa, Pedro Guimarães, em entrevista à Folha na quinta-feira (19).

Guimarães, que direcionou até o momento R$ 78 bilhões em dinheiro novo para reforçar as linhas de crédito do banco, disse promover uma migração da carteira de grandes empresas para micro e pequenas. Mesmo assim, elas seguirão o rito de análise de capacidade de pagamento.

"Passando nos testes de crédito, vamos financiar. O que não vai acontecer é fazer [uma operação] sem dar garantias", disse.

Na Caixa Econômica, serão destinados ainda R$ 30 bilhões para a compra de carteiras de outros bancos (empréstimos concedidos por outras instituições) que enfrentarem problemas de caixa por causa da crise do coronavírus.

Outros R$ 3 bilhões serão direcionados exclusivamente para hospitais e Santas Casas que atendam pela rede do SUS (Sistema Único de Saúde).

O restante --R$ 45 bilhões-- é o que, efetivamente, abastecerá linhas de capital de giro na Caixa --ajuda para empresas enfrentarem o problema da falta de dinheiro, que não terá entrada suficiente de receitas ao menos pelos próximos três meses, segundo projeções de economistas.

O presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, em foto com o presidente Jair Bolsonaro - Adriano Machado/Reuters

As estimativas mais pessimistas indicam que o pico de contaminação dos brasileiros pelo coronavírus ocorrerá em meados de abril. Seriam afetadas cerca de 40 mil pessoas.

Nas projeções mais conservadoras, o vírus deve contaminar cerca de 20 mil pessoas. A situação deve voltar à normalidade em meados de junho.

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou na sexta-feira (20) que o sistema de saúde deverá entrar em colapso no próximo mês. Segundo ele, os casos deverão cair a partir de setembro.

Para tentar amenizar efeitos da retração na economia, o Banco do Brasil pôs à disposição do mercado mais R$ 100 bilhões para linhas de crédito.

Mas somente 13 milhões de correntistas tiveram aumento do limite para novos empréstimos. Isso representa 37% do total de clientes.

O problema é que as pequenas e médias seguem estranguladas desde o fim da recessão, em 2018. A economia, que vinha ensaiando a retomada, volta a patinar. As empresas terão queda de faturamento.

Isso irá afetar especialmente comerciantes e prestadores de serviços porque as pessoas estão em casa, em quarentena.

Cerca de 9% da carteira de crédito vigente da Caixa é de empréstimos concedidos para esse grupo.

O Ministério da Economia, sob comando de Paulo Guedes, reviu a expectativa de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) para 2020 na sexta. A projeção foi cortada de 2,1% para 0,02%.

Dados do Banco Central do fim do ano passado indicam que as empresas estão em uma situação difícil para atravessar essa crise. Dentre os pedidos de recuperação judicial registrados pelo regulador até junho de 2019 --dado mais recente--, 98% eram de pequenas e médias empresas.

Ainda segundo o BC, o índice de recuperação desse segmento de empresas é muito baixo. Até hoje, 91% das pequenas e médias faliram no acumulado do ano. Apenas 9% voltaram à atividade plena.

Entre as companhias de grande porte, 43% foram à falência e 57% saíram da vala da recuperação.

O BC tem esse registro porque os bancos são credores de mais da metade da dívida das empresas falidas e das que foram reestruturadas (com renegociação de dívida).

Desse total, há provisionamento (reserva para perdas) da ordem de 70%. Ou seja: as instituições financeiras estão muito mais cautelosas na oferta de novos empréstimos, especialmente para as companhias de pequeno porte.

Levantamento feito pela Folha com base nas séries históricas do BC mostra que bancos públicos sempre foram mais conservadores, mesmo nas crises financeiras, o que abriu espaço para a atuação de bancos privados, como Itaú, Bradesco e Santander, na conquista de novos clientes.

Hoje, a Caixa concentra 63% dos empréstimos para empresas com risco muito baixo de inadimplência (AA e A) --a maior parte é de grandes empresas. Somente 23% da carteira foi para companhias com risco elevado (de E até H).

No Banco do Brasil, a situação é similar: 54% do crédito é para empresas de grande porte, com risco muito baixo, e 24% na categoria mais arriscada.

Mesmo assim, os bancos privados estão cautelosos. Nos bastidores, preferem deixar BB e Caixa na linha de frente à espera dos efeitos da crise nas próximas semanas.
Apesar de todos eles operarem com folga de capital (lastro próprio para bancar uma expansão repentina da oferta de crédito), afirmam que seguirão as regras de mercado para a concessão de novos empréstimos.

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