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Greenspan celebra triunfo do capitalismo americano e lamenta perda de dinamismo

Agora em português, livro de ex-presidente do Fed revisita história dos EUA para entender fatores que explicam êxitos e fracassos do modelo

São Paulo

Em março, quando lhe perguntaram sobre as consequências do avanço do coronavírus para a economia mundial, Alan Greenspan balançou a cabeça e resumiu sua opinião com uma frase de efeito. “Boa sorte para nós”, disse o economista, que completara 94 anos de idade uma semana antes.

Ele teme que os gastos públicos necessários para combater a epidemia e amortecer seu impacto empurrem os Estados Unidos para uma nova era de baixo crescimento econômico, descontrole fiscal e inflação alta —a combinação tóxica que os economistas batizaram como estagflação nos anos 1970.

“Tivemos um período longo com taxas de juros muito baixas e déficits governamentais muito elevados”, observou Greenspan, em encontro com um grupo de investidores que aconselha desde que deixou a presidência do Federal Reserve, o banco central americano. “A história sugere que não será diferente.”

Produção de B-24s na fábrica de Henry Ford de Willow Run, Michigan, durante a Segunda Guerra Mundial
Fábrica de River Rouge, da Ford, em 1940; na 2ª Guerra, unidade produziu peças para aviões - Bettmann Archive/Getty

Quem quiser aproveitar a quarentena para entender as razões do pessimismo de Greenspan encontrará um guia instrutivo em “Capitalismo na América”, livro que ele escreveu há dois anos com o jornalista Adrian Wooldridge, editor da revista britânica The Economist, e que acaba de ser traduzido no Brasil.

Ao mesmo tempo uma celebração da força do capitalismo dos Estados Unidos e um lamento pela perda de dinamismo que ele sofreu nos últimos tempos, o livro revisita a história americana desde a chegada dos primeiros colonos europeus para entender os fatores que explicam os êxitos e os fracassos do modelo.

Os heróis de Greenspan e Wooldridge são empreendedores que souberam explorar as vantagens oferecidas por um país com democracia estável, recursos naturais abundantes e universidades de primeira linha —dos magnatas da indústria no século 20 aos criadores dos gigantes da tecnologia no século 21.

Presidentes que em diferentes circunstâncias interferiram no ambiente econômico são tratados com desconfiança, embora os autores reconheçam que o esforço de mobilização industrial promovido pelo governo na Segunda Guerra Mundial foi decisivo para tirar os Estados Unidos da Grande Depressão dos anos 1930.

Para eles, o que distingue os EUA não é só o talento para o processo de destruição criativa que o austríaco Joseph Schumpeter (1883-1950) descreveu como motor do capitalismo, mas a aceitação do fato de que muitas vezes fábricas fechadas e desempregados são o preço a pagar pelo desenvolvimento.

Ao analisar o caso de empresas como o Google e o Facebook, os autores reconhecem que seu imenso poder econômico pode inibir o surgimento de competidores e frear a difusão de novas tecnologias, mas observam que a concentração é também consequência natural do sucesso que elas alcançaram.

Greenspan e Wooldridge não gastam papel e tinta para examinar as consequências da crescente desigualdade na distribuição da riqueza nos Estados Unidos. Anotam os progressos alcançados por mulheres e negros no mercado de trabalho, mas chegam ao fim do livro sem refletir sobre as desigualdades que persistem.

Presidente do Fed de 1987 a 2006, Greenspan chefiou a instituição durante o mais longo período de crescimento da história americana e deixou o cargo antes da eclosão da avassaladora crise financeira de 2008, que empurrou os EUA e as maiores economias do mundo para a recessão nos anos seguintes.

Acusado de ter contribuído para a formação da bolha de preços no mercado imobiliário que esteve na raiz da crise, Greenspan reconhece no livro que a política de juros baixos adotada pelo Fed pode ter sido um fator, mas divide culpas com investidores imprudentes e agências reguladoras desatentas.

Na sua visão, a economia americana já vinha perdendo fôlego antes da crise, que teria servido para expor suas deficiências e aprofundar esse processo. Entre 2011 e 2016, segundo os cálculos de Greenspan e Wooldridge, a produtividade nas empresas dos Estados Unidos cresceu apenas 0,7% por ano, em média.

“A América está parecendo mais uma economia madura típica do que uma nação excepcional: sobrecarregada por um governo pesado, atolada em um crescimento lento e temerosa em relação ao futuro”, eles dizem. “As engrenagens da grande máquina da prosperidade não estão mais funcionando tão bem.”

Para eles, dois problemas impedem os EUA de recuperar a energia do passado: o crescimento dos gastos do governo com aposentadorias, serviços de saúde e benefícios assistenciais para idosos e a instabilidade do sistema financeiro, atribuída em parte a excessos de regulação da economia.

Os gastos do governo com esses benefícios tendem a aumentar com o envelhecimento e a maior longevidade da população, sugando uma fatia maior dos recursos disponíveis para investimentos produtivos e tornando os EUA mais dependentes de crédito externo, argumentam Greenspan e Wooldridge.

Os autores reconhecem que parte do que classificam como excesso de regulação foi uma resposta necessária a abusos praticados por bancos e empresas antes da crise. O problema é que muitas ações de políticos e burocratas têm contribuído para travar o espírito americano empreendedor e inovador, dizem.

Eles lembram que empresas nascidas nos EUA lideram o desenvolvimento de novas tecnologias que podem se tornar dominantes nas próximas décadas, da inteligência artificial aos carros sem motorista e robôs do futuro, mas acham que algo se perdeu em meio às crises e transformações dos últimos anos.

Numa passagem amarga, eles observam que os jovens empreendedores americanos não sonham mais em ser o próximo Bill Gates, mas pensam no dia em que venderão seus negócios para o Google ou o Facebook. “São mais mendicantes da ordem estabelecida do que revolucionários radicais”, afirmam.

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