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Coronavírus, o debate econômico

A economia chega ao pronto socorro: uma crônica de economistas como médicos

Serviço de emergência da economia é de uma lentidão tenebrosa

VÁRIOS AUTORES (nomes ao final do texto)

A pandemia do novo coronavírus anunciou chegada há alguns meses no Brasil. Tal qual banhistas que acreditam que encontrarão porto seguro para um tsunami na avenida beira-mar, tomamos medidas econômicas modestas desde que percebemos que as ondas gigantes fariam estrago.

O tímido e limitado Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda alocou até agora pouco mais de R$ 12 bilhões. Os cerca de 45 milhões de brasileiros que não têm conta bancária puderam sacar os recursos do auxílio emergencial apenas a partir do dia 27 de abril, isto é, mais de um mês após o início das medidas de afastamento social. Além do baixo valor disponibilizado, há também gargalos operacionais impedindo o dinheiro de chegar a quem mais precisa.

A crise sanitária acelerou o ritmo legislativo, mas não o suficiente. A PEC do Orçamento de Guerra, louvável iniciativa, saiu dois meses após o início da guerra: muito rápido para uma emenda constitucional, muito lenta para uma guerra.

O serviço de pronto socorro da economia é de uma lentidão tenebrosa. Dependem deste atendimento milhões de vidas: as humanas, as que mais importam, e as pessoas jurídicas, que só existem, pasme-se, por causa das humanas.

Jair Bolsonaro e Paulo Guedes (Economia) em caminhada ao STF pelo fim do isolamento - Adriano Machado - 7.mai.2020/Reuters

Os pacientes chegam aos montes enquanto os economistas prendem-se a debates sobre como atendê-los. Alguns sugerem fazer uma transfusão de moeda. A reação de vários colegas foi intensa: no atual regime monetário em que vivemos, isso disparará compromissadas no mercado de reservas.
Outro presente na sala enxergou, pela porta entreaberta, as crescentes filas para saques de moeda.

Lembrou aos demais que os gastos públicos financiados por emissão, se bem direcionados, esterilizam reservas bancárias ao se tornarem papel moeda no bolso vazio dos mais carentes.

E há aqui uma grande diferença: no regime monetário em que vivemos, emitir dinheiro para os bancos, e esperar eventualmente chegar às pessoas, aumenta as reservas bancárias e força redução na Selic obrigando o aumento de operações compromissadas. Porém, dar o dinheiro para as pessoas e esperar chegar aos bancos dilui a elevação de compromissadas no tempo, reduzindo a pressão imediata sobre a Selic. Com a PEC do orçamento de Guerra faremos a primeira emissão, mas não a segunda. Por que a inexplicável diferença?

Por sinal, traço da grande desigualdade brasileira, a exclusão bancária mantém 50% dos meios de pagamento em dinheiro vivo, enquanto outros países já caminham para a digitalização plena de suas moedas. Do antagonismo, uma ideia: por que não optar por meios não tradicionais para fazer o recurso chegar ao povo? Quem sabe ampliamos o PIX para as pessoas terem contas no Banco Central?

Ainda não convencidos, os economistas prosseguem na controvérsia. Um adverte que a transfusão de moeda causará inflação, afinal é mais dinheiro para menos bens e serviços. Ouve-se uma questão: inflação em um paciente com atividade parada? Outro alerta: mas, e a taxa de câmbio nas alturas? Escuta-se uma resposta: câmbio só tem efeito se houver atividade econômica, uma preocupação adequada à fase de reabilitação.

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Pede a palavra a medicina econômica fiscalista. Em tom austero, um de seus defensores professa: não temos capacidade de reanimar o paciente com dívida pública, ela não pode mais crescer!

O diabo, que mora nos detalhes, relembra o fiscalista: famílias e empresas não são como o Estado. Ele emite dívida em sua própria moeda, tem 35% do PIB como receita e, como é um ente com expectativa de vida virtualmente ilimitada, tem maior capacidade para rolar sua dívida. Engajado, o diabo insiste: e por que deixaram de olhar a dívida líquida como indicador? Ela não instigava austeridade? O fiscalista fecha os olhos e ensaia uma fuga para a capela do hospital para pedir pela alocação eficiente da mão invisível do mercado. Vendo a cena, alguém grita feroz: e a mudança da cesta de componentes do IPCA? Ouve-se um último suspiro.

Sem entender muito bem o pronto socorro de economistas, uma médica afirma-lhes que desconhecem o que é um pronto socorro de verdade. Acossados, consentem calados.

A médica então lhes conta que os tratamentos eletivos são diferentes dos procedimentos de emergência. Nesta, salva-se a vida momento a momento. Estabiliza-se o paciente para reativar a atividade de forma autônoma. Mantém-se parte da medicação estabilizadora durante o início da sua recuperação. Inicia-se a reabilitação, diminui-se a dose das drogas de estabilização.

Transfere-se, então, o paciente ao quarto e libera-se a unidade intensiva para receber novas emergências. Dá-se alta ao paciente e prescrevem-se novas medidas e novos remédios. A conversa com os pacientes é clara para coordenar suas expectativas.

Toda a ansiedade precisa ser administrada para não gerar intermitências na recuperação.

É este protocolo que vem aumentando a expectativa de vida da população, ano após ano. A emergência exige ação imediata e efetiva de acordo com o protocolo da ciência econômica para calamidades. Poucos economistas são mais protocolares do que Gregory Mankiw e Kenneth Rogoff. A prescrição deles é inconfundível: “façam o que for preciso”. Sem pessoas físicas, as jurídicas fenecem. Se não fosse a vida humana, não haveria economia. Que a política econômica cuide logo da vida, pois é esta sua prioridade.

Monica de Bolle

diretora do Programa de Estudos Latino Americanos da Universidade Johns Hopkins e pesquisadora do Peterson Institute for International Economics

Élida Graziane

professora da FGV-SP

Luiz Gonzaga Belluzzo

professor da UNICAMP e da FACAMP

Fábio Terra

professor da UFABC e do PPGE-UFU

André Roncaglia

professor da UNIFESP e pesquisador do CEBRAP

Marcelo Medeiros

professor do Departamento de Sociologia da UnB

Nelson Marconi

professor da FGV-SP

João Prates Romero

professor da UFMG

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