Descrição de chapéu Coronavírus

Covid-19 aumentará desigualdade em hora muito infeliz para Brasil, diz historiador

Para austríaco Walter Scheidel, pandemia reflete diferenças na distribuição do desemprego e favorecerá quem já tem melhores oportunidades

São Paulo

O historiador austríaco Walter Scheidel, 53, produziu um marco ao publicar, em 2017, o best-seller "The Great Leveler", que agora chega ao Brasil como "Violência e a História da Desigualdade - Da Idade da Pedra ao Século 21".

No livro, o professor de história antiga da Universidade Stanford, na Califórnia, argumenta que a concentração de renda no mundo têm sido a regra ao longo dos tempos, não uma exceção provocada por disfuncionalidades econômicas.

Apoiado em minuciosa pesquisa, o autor sustenta que a desigualdade jamais diminuiu de forma pacífica.

O professor da Universidade Stanford Walter Scheidel durante palestra na Áustria
O professor da Universidade Stanford Walter Scheidel durante palestra na Áustria - ISTAustria no Twitter

Quando caiu, sempre houve episódios violentos, combinados ou não, que Scheidel chama de “quatro cavaleiros niveladores": Estados em colapso, revoluções transformadoras, grandes guerras ou pandemias catastróficas.

Ao longo da história, essas ações niveladoras (leveler, em inglês) aumentaram ou mantiveram constante a remuneração do trabalho, enquanto, por outro lado, reduziram ganhos de capital no topo da pirâmide.

Grandes guerras levaram à necessidade de maior taxação sobre os ricos e de intervenções posteriores para ajudar os mais pobres. Revoluções, como a russa e as chinesas no século 20, ou Estados em colapso reduziram a influência de classes dominantes.

Episódios como a peste negra na Europa, em meados dos anos 1300, inflacionaram o valor da mão de obra ao dizimar boa parte da população.

Nesse contexto, seria a pandemia da Covid-19 uma força niveladora? Para Scheidel, ela não tem essa dimensão. Ao contrário, a não ser que a crise econômica atual provoque uma disrupção profunda, o coronavírus poderá tornar o mundo ainda mais desigual.

Para o historiador, nesse contexto, o Brasil está em um momento “muito infeliz”.

O sr. menciona quatro “cavaleiros niveladores”. Temos uma pandemia global, mas vivemos em um mundo moderno, com ciência, hospitais e UTIs. O coronavírus pode ter um efeito nivelador? Essa pandemia é diferente não só por causa da medicina, mas por causa do vírus. Mesmo se não tivéssemos nenhum tipo de tratamento, ele provavelmente não mataria tanta gente quanto as pandemias do passado. A gripe espanhola foi bem mais severa, especialmente entre os jovens.

Nesse sentido, não teremos choque demográfico ou diminuição da mão de obra que levem os salários para cima. A desigualdade não será reduzida por esse mecanismo. Ao contrário, no curto prazo não há dúvida de que ela deve crescer, refletindo as diferenças na distribuição do desemprego em setores distintos. Também já vemos o mercado de ações se recuperando em meio a forte aumento do desemprego. Tudo isso favorecerá quem já tem melhores oportunidades.

A questão é se ao final desse processo não haveria uma redução da desigualdade como consequência das políticas adotadas contra a pandemia. Mas também não seria otimista, pois a história mostra que só há grande potencial transformador quando a crise é muito profunda.

Essa pandemia vem sendo razoavelmente bem administrada, com os bancos centrais intervindo para manter as economias à tona e políticas de curto prazo para impedir que a pobreza exceda um certo limite.
São ações que tendem a preservar a ordem estabelecida. A crise teria que sair totalmente do controle, com o mundo entrando em algum tipo de depressão que nos levasse a uma situação parecida com a dos anos 1930. Ou se o vírus não pudesse ser controlado no futuro nem por uma vacina.

Como o sr. vê as perspectivas do Brasil? O sr. já mencionou no passado que o país fazia um trabalho interessante no governo Lula, com programas voltados aos mais pobres. Agora, temos um governo supostamente liberal e uma pandemia. O momento para o Brasil e para a América Latina é muito infeliz. A primeira década deste século foi muito positiva, e não apenas para o Brasil. Houve um boom econômico, mudanças políticas que levaram a uma maior distribuição de renda e políticas para a educação. Muitas coisas juntas ocorreram no momento de um boom de demanda da China por commodities.

Isso ajudou a reduzir as desigualdades, mas os problemas começaram a aparecer cedo na década atual, e a tendência de equalização social parou repentinamente. A partir daí houve uma mudança política radical que não chega a surpreender se levarmos em conta o quão profundamente arraigado está o conservadorismo nessas sociedades. Isso talvez fosse até inevitável. E tudo talvez fique ainda pior com a crise em andamento agora.

Eu ficaria bastante pessimista em relação às perspectivas de o Brasil conseguir retomar uma trajetória de diminuição de suas desigualdades como o fez há 10 ou 15 anos. A não ser que, como disse, as coisas fiquem tão ruins que a pressão para mudanças seja muito grande. E apenas se livrar do atual governo talvez não seja o suficiente. Teria de haver um descontentamento muito grande entre os pobres e mesmo na classe média para que algo assim pudesse ocorrer.

O mundo viveu um significativo aumento da desigualdade nos últimos 40 anos. Não houve grandes guerras, revoluções ou epidemias. A desigualdade é mesmo o normal? Temo que sim. Quando há um período de estabilidade, e temos tido algo assim desde 1945 na maior parte do mundo, isso tende a favorecer a desigualdade. Basicamente porque as pessoas que têm suas vantagens tendem a preservá-las quando não há rupturas capazes de mudar o estado das coisas.

Quanto mais o tempo passa, mais a renda e a riqueza acabarão concentradas no topo. No máximo a desigualdade vai se estabilizar em um nível muito alto, como temos visto em alguns países. Historicamente, vemos um alto grau de desigualdade sempre esperando pelo próximo choque para mudar as coisas. De um modo mais geral, os países têm mantido as mesmas trajetórias em relação à desigualdade por várias gerações. Os níveis divergem, mas a trajetória é a mesma.

Se por um lado nunca tivemos na história recente um nível tão alto de desigualdade, também nunca tantas pessoas deixaram a miséria e a pobreza para trás, sobretudo na Ásia. Se as duas únicas escolhas fossem sermos todos pobres ou sermos menos pobres mas mais desiguais, provavelmente escolheríamos a segunda opção. Mas creio que essas não sejam as únicas saídas. Idealmente poderíamos pensar em um cenário onde haveria crescimento econômico e os pobres deixassem de ser pobres sem que a desigualdade aumentasse muito.

O sr. acaba de lançar "Escape from Rome" (fuga de Roma; ainda não publicado no Brasil). Do que se trata? O livro fala sobre os diferentes aspectos que tornaram o mundo moderno. Tem a ver com o fato de que, desde o fim do Império Romano, há 1.500 anos, a Europa nunca mais foi unificada sob um império e viveu um período de grande competição e fragmentação não só entre países, mas internamente.

Esse tipo de ambiente, muito pouco usual em termos históricos, foi central em permitir alguns desdobramentos que não veríamos de outro modo na história. Estamos falando de crescimento econômico, da criação de instituições independentes, de ciência, de conhecimento. Mesmo o colonialismo europeu foi produto dessa competição, levando os europeus para todos os cantos do mundo.

Tudo isso foi estimulado pela competição entre eles, que era grande na Europa e extrapolou para o mundo. Isso tudo criou uma condição fértil para a modernidade e a industrialização. Em um certo sentido, o mundo teve que escapar de Roma, um império monopolístico, para que tudo isso pudesse acontecer.

Sobre esse ponto, antes mesmo do coronavírus já assistíamos a uma tendência de os países se fecharem, sobretudo nos EUA e na Europa, com o multilateralismo em xeque. Isso vai piorar? Eu tendo a ser conservador nesse ponto. Vejo muitas pessoas dizendo que tudo vai mudar de uma forma dramática, mas não estou seguro disso. Certamente algumas coisas vão mudar na margem. O fluxo de mercadorias e capitais provavelmente continuará mais ou menos inalterado. O de pessoas talvez seja outra história nos próximos anos, mas isso não necessariamente será duradouro ou afetará a integração econômica.

É bastante provável que o crescimento econômico baseado na globalização continue sendo a regra, embora em ritmo mais lento. Mas a epidemia vai acelerar tendências que já vinham ocorrendo. Se a China conseguir proteger a sua população e recuperar a produção ao nível anterior à crise e os outros países falharem nisso, os chineses vão emergir em uma posição bem mais forte.

Mas isso só vai acelerar uma tendência, pois a China está nesse caminho há décadas. É mais ou menos como na crise de 2008 na Europa. Ela exacerbou problemas que já estavam latentes. Há algumas coisas que podemos esperar, como o fortalecimento da China, o enfraquecimento do federalismo entre o governo central e os estados nos EUA, uma maior fragmentação na Europa e um aumento do populismo na América Latina. Mas são tendências que estão aí há algum tempo. Só serão amplificadas por essa crise.


Walter Scheidel, 53

Professor de história antiga na Universidade Stanford. Autor de vários livros, suas pesquisas incluem história social e econômica antigas, demografia e história mundial.

Violência e a História da Desigualdade

  • Preço R$ 44,90 (e-book), R$ 109,90 (livro físico)
  • Editora Zahar (616 págs.)
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