Com restrições às compras, taxa de poupança atinge maior nível em cinco anos

Para especialistas, dinheiro guardado na crise pode ajudar no ritmo da retomada da economia

Rio de Janeiro e São Paulo

A taxa de poupança da economia brasileira voltou a subir no segundo trimestre, atingindo o maior nível desde o início de 2015. O movimento indica que o cenário de incertezas, aliado às restrições à abertura de lojas e equipamentos de lazer, vêm levando os brasileiros a guardar mais dinheiro.

Por um lado, dizem especialistas, essa poupança acumulada indica maior cautela do consumidor, mesmo com a injeção de recursos do auxílio emergencial na economia. Por outro, pode ajudar na recuperação da atividade impulsionando o consumo e investimentos nos próximos meses.

De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a taxa de poupança chegou ao 15,5% do PIB (Produto Interno Bruto) no segundo trimestre de 2020, alta de 1,8 ponto percentual em relação ao mesmo período de 2018. É a primeira vez desde 2013, que o indicador sobe nessa base de comparação.

"É um aumento bem significativo", disse a gerente de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca Palis, em entrevista nesta terça (1) para divulgar o PIB do segundo trimestre, que caiu 9,7% com efeitos negativos da pandemia sobre todos os setores da economia.

Ela avalia que os programas de apoio do governo, como o auxílio emergencial, compensaram parcialmente a perda de renda do brasileiro. E, sem poder sair de casa, ele está gastando menos também. O consumo das famílias, outro indicador do PIB, despencou 13,5% em um ano.

"Houve um aumento muito grande no depósito das famílias no sistema financeiro. Isso, inclusive, favoreceu o crescimento do setor financeiro no período", disse ela, referindo-se ao segmento de intermediação de serviços financeiros, um dos únicos a ter desempenho positivo em meio ao momento mais agudo da crise no país.

Para os economistas José Francisco de Lima Gonçalves e Mariana Major de Oliveira, do banco Fator, o aumento da poupança sinaliza dificuldades de contar com as transferências de renda para recuperar a atividade econômica no país, já que parte desse dinheiro pode ter ficado guardado.

O IBGE não consegue identificar se as transferências contribuíram para elevar a poupança. Palis afirma, porém, acreditar que a população de renda mais baixa usou o dinheiro do auxílio em necessidades essenciais. "Em geral, é usado pelo consumo e a gente vê que aumentou o consumo de alimento, de produtos de higiene", disse.

Pesquisa Datafolha de agosto mostrou que 53% dos brasileiros usaram o dinheiro preferencialmente para comprar comida. Em suas primeiras cinco parcelas, o auxílio emergencial de R$ 600 injetou R$ 254,4 bilhões na economia. O governo decidiu prorrogar o benefício, mas com um valor de R$ 300 por mês.

"Mas parte pode ter ido para a poupança também", acrescentou, lembrando que o medo da contaminação ou o fechamento das lojas faz com que muitas pessoas evitem frequentar estabelecimentos que prestam serviços, como salões de beleza, por exemplo.

Para o Banco Inter, o cenário reflete também insegurança do consumidor em meio à crise. "Parte da elevação da poupança nesse período é precaucional, relacionada às incertezas geradas pela crise", escreveram os economistas do banco, em relatório divulgado nesta terça.

Já o economista Nilson Leis, da Unisal, acrescenta que a amplitude do programa de auxílio garantiu o benefício a muitas famílias que não se enquadram nas condições do programa, o que também pode ter contribuído para a geração de poupança.

"Causa até surpresa, nesse período de crise, o acúmulo de poupança numa proporção maior do que vinha ocorrendo", afirma ele. "A poupança em normalmente reflete cenários de acúmulo quando a massa salarial cresce." No segundo trimestre, pelo contrário, a massa salarial caiu 4,4% em relação a um ano antes.

No primeiro trimestre, a taxa de poupança já havia subido, atingindo 14,1%, contra 9,4% do trimestre anterior. Mas esse movimento é normal, já que geralmente os gastos costumam ser maiores no fim do ano. No longo prazo, os resultados de 2020 parecem apontar uma reversão de tendência de queda iniciada na recessão do fim do governo Dilma Rousseff.

A taxa permanece ainda bem abaixo das verificadas nos anos de crescimento econômico nos governos Lula e Dilma, quando oscilava em torno de 20%, mas pode ajudar no ritmo da recuperação quando as incertezas diminuírem, dizem os economistas.

"Essa maior disponibilidade de poupança, aliada à baixa taxa de juros, pode impulsionar os investimentos nos próximos trimestres", diz o relatório do banco Inter. No segundo trimestre, a taxa de investimento ficou em 15%, abaixo da de poupança pela segunda vez desde 2008.

Nilson Leis acrescenta que a tendência é que essa poupança seja direcionada ao consumo com a melhoria do cenário econômico. "O dinheiro está na poupança. Pode alavancar, dar um recurso maior na economia nos próximos três a quatro meses."

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