Descrição de chapéu inflação

Moda vê Black Friday morna, Natal mais caro e falta de cores

Segundo executivos do setor, é possível prever aumento de até 20% nos preços das vitrines no fim de ano

São Paulo

“Não temos essa cor, nem esse tamanho. Mas você pode tentar essa blusinha, que tá em alta.”

Essa estratégia de sedução usada por vendedores de roupas dará a tônica do comércio deste final de ano num varejo impactado pela alta dos preços dos insumos da cadeia produtiva e a escassez de itens como tinta e peças de maquinário para a produção.

Segundo executivos e fontes do setor, é possível prever aumento de até 20% nos preços nas vitrines do Natal, em parte explicados pelos incrementos de 15% no valor dos tecidos jeans, 30% no quilo dos fios de algodão simples para malharia e 20% nos zíperes.

Esses são apenas três elos de uma conta complexa que quem paga é o consumidor, a depender do tamanho da varejista e da marca desejada. Quanto menor ela for, é consenso, menor o manejo para absorver os custos.

Nos bastidores da indústria ainda são relatadas escassez de colorações nas cores quentes, como o vermelho, e dificuldades para a compra das sacolas de papelão que recebem os logos. O prazo para entrega dos tonéis com tinta podem chegar a 90 dias.

O cenário está expresso em parte no Índice de Preços ao Produtor (IPP), calculado pelo IBGE, do segmento têxtil. Os dados mostram que o movimento de alta foi represado até julho, com uma variação acumulada de 8,5% até agosto. Apenas em setembro, houve salto de 3,56%, acima da média da indústria nacional, que subiu 2,37%.

“Não haverá escassez, mas veremos itens que ficarão com numeração defasada ou modelos em falta. Esses buracos podem acontecer principalmente nos itens importados, que representam em média 15% do varejo de moda e tiveram retração nos desembarques de 30% neste ano”, afirma o presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil de Confecção, Fernando Pimentel.

Ele relembra o ano de 2010, quando só o aumento do preço do algodão fez o IPP subir 20% e o da confecção, 5%. Neste ano, porém, o problema é conjuntural, e ao impacto no preço dos insumos será adicionado o da troca de coleções, processo comum ao período próximo do Natal.

“Temos que considerar os setores. Para quem vende ternos, o mercado está parado, então não deve haver aumentos. Para outros, a demanda está aquecida, então, é normal que haja ajustes de preço. Apostaria em preços 10% maiores em relação ao Natal passado. Comparados aos valores de agora, esse aumento será maior, obviamente”, diz ele.

Os “de agora”, leia-se, são os praticados nessa queima de estoque prolongada dos últimos meses provocada pelo fechamento do varejo físico, entre março e abril. Esses descontos devem fazer encolher os lucros com a Black Friday , que acontece nesta sexta (27), porque as margens já estariam no limite.

“Não apostaria em um movimento de promoções muito forte [na Black Friday], porque já há liquidações estruturadas em curso”, afirma Alberto Serrentino, diretor da consultoria Varese Retail e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo.

Nessa estruturação, há marcas que aplicam desde o início do mês descontos similares aos praticados pelo varejo no meio do ano. Na C&A, por exemplo, os descontos de até 70% estão concentrados em um perfil de peças pouco vendido durante o isolamento, como vestidos, saias e calças. Já no segmento de moletons, motor das vendas da moda neste ano, os descontos mínguam pela metade.

Mesma lógica seguiu a Shop2Gether, de tíquete médio mais alto, que apresenta como prévia de sua Black Friday uma enxurrada de calças de trabalho, saltos, blusas de seda e bolsas. Ou seja, o que ainda parece difícil fazer o consumidor comprar.

“Até o final do ano, haverá aumentos, mas serão moderados. A moda foi muito impactada pelo fechamento das lojas e as empresas precisam fazer caixa. Fala-se em 15% [de aumento], mas não será uma realidade para todos, porque o país abastece bem a própria demanda”, avalia Serrentino.

Nesse jogo de passa ou não repassa, é esperada uma concorrência feroz entre marcas. No ramo da lingerie, segmento que costuma ter boa performance no final do ano devido às superstições de cores do brasileiro, a italiana Intimissimi espera sair na frente mantendo o tíquete médio de R$ 200.

O espanhol Alvaro Gutierrez, que comanda a operação das 71 lojas físicas da rede no país, fechou com a sede italiana do grupo Calzedonia uma diminuição na margem para que, no final do ano, “os brasileiros se surpreendam”. Calcinhas e sutiãs representam cerca de 80% das vendas da grife.

“Será uma oportunidade para desmistificar a ideia de que a marca é cara. A concorrência vem aumentando os preços, em alguns casos até 30%, porque muitos não têm uma confecção verticalizada como a nossa. Importamos a um dólar ruim, mas repassar não está nos planos.”

Por causa dessa dependência dos fornecedores internacionais para garantir a cadeia de suprimentos e a escalada do dólar, grandes redes varejistas estão repensando seus acordos com empresas estrangeiras.

O grupo Guararapes, dono da Riachuelo, planeja extirpar no pós-pandemia os resquícios de 20% de peças vindas da Ásia em sua rede logística no país.

“Quem tinha três meses de planejamento cruzando os oceanos teve dificuldade de replanejar seus lançamentos por causa da demanda. Queremos abrir mão de uma pequena vantagem competitiva em preço para ter todos os vagões sob nosso controle”, garante o presidente do conselho de administração do grupo, Flávio Rocha.

A Riachuelo rebolou nos últimos meses para levar novidade às araras. Conseguiu segurar os preços usando a matéria-prima disponível em estoque e, como resultado, eliminou excedentes.

Os fretes de importação, cinco vezes mais caros se comparados aos dos níveis pré-pandemia –trazer da China um único container passou de US$ 800 para US$ 4.000 dólares–, ocasionaram uma corrida por tecidos de pronta entrega disponíveis na indústria.

De acordo com Leonardo Hallal, diretor de produto de uma das maiores fornecedoras de tecidos importados do país, a Focus Têxtil, isso fez com que a fatia de marcas do segmento premium sentisse mais o peso da alta do dólar em torno de 40% no acumulado do ano, o único preço que ele diz ter repassado.

“O ‘premium’ não deixou de ser ‘premium’. Mas o ‘middle’, esse que não é popular mas também não é luxo, está comprando mais tecidos mesclados, mais baratos que os naturais. Às vezes não é 100% do linho, por exemplo, mas sim um linho com viscose. Não é porcaria, mas só uma pressão para diminuir em até 10% o valor do pedido”.

Não quer dizer, porém, que os 30% restantes da conta do dólar serão repassados ao cliente final. Para Hallal, “o mercado não aguentaria porque o cenário do país, de crise e desemprego, não permite movimentos tão bruscos”. Ou seja, as marcas se viram com o que tem para hoje.

É tão séria a situação que mesmo a estilista de maior repercussão internacional da moda praia brasileira, Lenny Niemeyer, sentiu a água salgada demais em suas araras.

Ela comemora que sua coleção desfilada na São Paulo Fashion Week já tenha sido toda distribuída para multimarcas e lojas próprias antes mesmo da apresentação no início do mês, mas, segundo ela, não haverá reposição.

“Estão faltando fios de lycra, que devem atrasar 30 dias para chegar; o que custava R$ 40 foi para R$ 50; não há linho, nem algodão; e a metalúrgica da qual comprava aviamentos fechou as portas”, lamenta Niemeyer.

Os preços das peças de banho, segundo ela, ainda não sofreram ajustes, mas já pesa na conta que as bolsas feitas à mão, importadas de Madagascar, dobraram de preço.

Quem pode sair na frente mesmo com o aumento na ordem de 20% no preço dos produtos são as marcas que conseguirem manter estoque robusto de peças com alta rotatividade e apostar no diferencial sustentável, com menos oferta de peças, mas todas com alto valor agregado.

É o caso da Oriba, que no ano passado recebeu aporte de R$ 4 milhões do fundo alemão Global Founders Capital, mesmo investidor do marketplace Dafiti e do ecommerce Westwing. A pandemia obrigou a marca a segurar lançamentos e cancelar a produção de peças.

“Não vamos colocar produto na arara só para ter. Íamos lançar peças mais pesadas, que devemos deixar para o próximo ano, e optamos por excluir os projetos que envolviam sintéticos na composição”, explica o sócio-fundador Rodrigo Ootani.

Para ele, o problema maior está no pós-Natal. “Essa corrida por insumos e produção só se justifica com um final de ano explosivo em vendas. Não acredito nisso e, certamente, veremos liquidações logo no meio da festa. Assim como eu, muita gente avalia estarmos em uma bolha, e prestes a explodir.”

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