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Escândalo que deu início à derrocada de chefe do FMI é tema de série documental

Acusação de estupro por camareira de hotel de Nova York contra Dominique Strauss-Kahn em 2011 abriu as portas para outros casos de abuso

São Paulo

Um homem está deixando a suíte presidencial de um famoso hotel em Nova York. Uma camareira entra no quarto. Minutos depois, ela sai e procura sua superiora para reportar que o hóspede enfiou o pênis em sua boca à força. A polícia é acionada. O hóspede, que àquela altura já estava numa sala de espera privativa do aeroporto, prestes a deixar o país, é levado sob custódia.

O evento poderia ser mais um caso de estupro de uma mulher pobre por um homem rico que, como muitos, acabaria esquecido.

Só que desta vez uma camareira, Nafissatou Diallo, negra e imigrante da Guiné, resolveu reportar à sua superiora, que chamou a polícia.

Dominique Strauss-Kahn chega à corte criminal de Nova York em 16 de maio de 2011 - Shannon Stapleton/Reuters

E o hóspede era o diretor-geral do FMI. O ano era 2011. Estava armado o escândalo, e as repercussões daquele dia ajudaram a moldar os anos seguintes, os anos #MeToo.

O caso envolvendo Dominique Strauss-Kahn, conhecido como DSK, então comandante do Fundo Monetário Internacional e grande promessa do Partido Socialista francês para as eleições de 2012, é contado em quatro episódios na série documental “Quarto 2806: A Acusação”, disponível na Netflix, com direção de Jalil Lespert, cineasta responsável pela cinebiografia “Yves Saint Laurent”, de 2014.

A série tem o mérito de contar ao grande público uma história conhecida, porém complicada, cheia de idas e vindas nos tribunais e, por ter levado algum tempo em seus desdobramentos, cujo final muita gente desconhece ao certo.

Para tanto, mobiliza imagens de telejornais e manchetes de revistas e jornais à época, além de entrevistar figuras importantes da história, como o então chefe da segurança do hotel Sofitel de Nova York, onde aconteceu o caso, o então chefe de polícia da cidade, os advogados de defesa de DSK e, sobretudo, Diallo.

Ali, ela tem a palavra, a câmera a olha e dá tempo para que conte sua história, não apenas o ocorrido, mas antes e depois daquele dia, como sua chegada aos Estados Unidos e sua relação com a filha.

DSK não quis falar à série.

Para quem acompanhou bem o caso, e a derrocada de um dos homens mais poderosos do mundo que se seguiu, contudo, não há novidades.

“Quarto 2806” é, porém, também cheio de idas e vindas, com avanços e recuos, explicitados por uma linha do tempo que cruza o vídeo, exigindo um tanto de esforço do espectador —sobretudo daquele que não tinha conhecimento de quem fosse DSK— em seguir a história do economista e político francês.

Ao chegar ao FMI, em 2007, onde ganhou notoriedade depois da crise de 2008 e irritou seus colegas de esquerda pelas medidas impostas pelo fundo a países como Grécia e Irlanda, DSK já era um político de longa carreira na França.

Como membro do Partido Socialista, foi deputado no fim dos anos 1980, ocupou os cargos, nos anos 1990, de ministro da Indústria e do Comércio Exterior, prefeito de Sarcelles, ao norte de Paris, e, de novo, ministro, da Economia, Finanças e Indústria, no governo Lionel Jospin.

No começo dos anos 2000 volta a ser deputado, e perde as primárias socialistas para Ségolène Royal em 2006, vencida nas eleições presidenciais por Nicolas Sarkozy.

Embora fosse conhecido como mulherengo e por frequentar orgias, é a partir do escândalo do Sofitel que DSK verá seu comportamento sexual ocupar o noticiário.

Em 2008, um processo interno foi aberto no FMI para apurar se ele havia se valido de sua posição num relacionamento com uma funcionária da área dedicada à África.

Ainda em 2011, uma jornalista francesa, Tristane Banon, o acusa de estupro num encontro profissional que tiveram em 2003.

Em 2012 um outro escândalo com nome de hotel estoura no colo de DSK. Ele passa a ser investigado no caso Carlton, hotel de Lille, cidade do norte francês, por proxenetismo, ou seja, cafetinagem. A série entrevista uma das prostitutas que participaram do processo, Mounia B., e que o acusou de agir violentamente e contra sua vontade.

O processo se estendeu até 2015. Em fevereiro daquele ano, a Folha destacou entre as frases da semana uma que DSK usou para se defender: “Devo ter uma sexualidade mais rude que o normal dos homens, e que algumas mulheres não gostam”.

E é quanto ao comportamento sexual de DSK para além dos casos que chegaram à Justiça que o documentário escancara, nas falas dos muitos entrevistados, as diferenças entre americanos e franceses. Enquanto americanos construíam uma imagem de devassidão para DSK a fim de explicar ou justificar o ocorrido em Nova York, os franceses são irredutíveis na defesa da liberdade sexual.

É a noção de consentimento, central na última década e que rendeu reflexões como as dos filósofos franceses Ruwen Ogien e Geneviève Fraisse, porém, que borra a série de casos envolvendo DSK.

A defesa do economista não negava que havia existido uma relação sexual entre ele e Diallo, mas dizia que havia sido consensual. Havia ainda a possibilidade, para a defesa, de o caso fazer parte de um complô armado por Sarkozy.

Enquanto isso, nos EUA protestos organizados por camareiras, imigrantes e outras mulheres ganharam as ruas. Na França, onde a pauta da sexualidade esquenta no fim de 2011 com a lei que pune os clientes da prostituição, há manifestações contra DSK.

No fim, a promotoria pediu que o caso fosse arquivado e o economista voltou à França. Diallo ainda o processou na esfera civil, mas processo foi encerrado por um acordo.

DSK deixou o FMI, onde foi sucedido por Christine Lagarde. Em 2013, lançou um fundo de investimento, que naufragou e mais tarde foi investigado por fraude e desvio de capitais na França. Ele atuou ainda como conselheiro econômico dos governos da Sérvia e da Tunísia, e segue no ramo, segundo a série, sobretudo em países africanos.

Em 2014, o cineasta Abel Ferrara lançou “Bem-Vindo a Nova York”, disponível no Globoplay, inspirado no caso Sofitel e com Gérard Depardieu —a semelhança do ator com o economista é perturbadora.

Quarto 2806: A Acusação

  • Onde Quatro episódios. Disponível na Netflix.
  • Direção Jalil Lespert

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