Euforia do mercado com vacina despreza obstáculos no caminho, diz economista

Pesquisadores do FGV Ibre dizem que cenário favorece Brasil, mas alertam para incertezas

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São Paulo

A euforia do mercado com a possibilidade do início do processo de vacinação em vários países está favorecendo o Brasil, embora ainda exista muita incerteza em relação a quando isso permitirá a normalização da atividade econômica, especialmente no setor de serviços.

Essa é a avaliação feita por economistas do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas) durante seminário realizado nesta segunda-feira (7) em parceria com o jornal “O Estado de S. Paulo”.

José Júlio Senna, responsável pelo Centro de Estudos Monetários do FGV Ibre, chamou a atenção para o momento de euforia do mercado financeiro nas últimas semanas que, segundo ele, está afetando ativos em todo o mundo, inclusive papéis de alto risco, naquilo que está sendo chamado de “rally de tudo”.

“Tudo sobe. Isso foi provocado em grande parte pela eleição de Joe Biden e também pela vacina. O mercado está mirando a reta de chegada, mas não está vendo o que tem pela frente, está desprezando os obstáculos que eu vejo. Há uma distância muito grande ainda até a linha de chegada”, afirmou Senna.

Segundo ele, isso reflete o excesso de recursos no mercado financeiro em um ambiente de juros baixos, algo que começou a favorecer também o Brasil a partir de novembro, como pode ser visto na Bolsa de Valores e em uma facilidade maior do Tesouro Nacional em rolar a dívida pública.

Senna afirma que, entre os obstáculos à frente, além da possibilidade de recrudescimento da pandemia e de demora na vacinação, estão a dificuldade de recuperação do mercado de trabalho em um ambiente em que muitas empresas encerraram suas atividades e outras estão mais endividadas.

Sobre os desafios do Brasil, ele afirma que o mercado passou a ver como algo positivo a falta de ação do governo na área econômica, considerando que, pelo menos, não surgiu nenhuma “bobagem” nessa área.

Silvia Matos, coordenadora técnica do Boletim Macro Ibre, afirmou que a taxa de desemprego deve ficar próxima de 16% na média do próximo ano (estava em 14,6% na última divulgação).

Segundo Matos, a instituição projeta uma desaceleração do crescimento da economia para 1,3% no quarto trimestre deste ano, uma ligeira contração nos dois primeiros trimestres de 2021 e uma retomada no segundo semestre do próximo ano.

“Não vai ser nenhum colapso, mas com certeza temos uma maior incerteza, porque depende da dinâmica da pandemia e da velocidade de vacinação. No segundo semestre, podemos ter uma normalização dos serviços e do mercado de trabalho”, afirmou.

Armando Castelar Pinheiro, coordenador de Economia Aplicada do FGV Ibre, afirmou que, embora perdurem os problemas estruturais no Brasil, as perspectivas para o país em 2021 são positivas.

“Talvez o primeiro semestre seja o da história ruim da pandemia, mas o segundo semestre com a história boa da vacina, dinheiro entrando e preços de commodities lá em cima”, afirmou.

Ele listou outros fatores positivos, como um dólar que vem caindo, o que ajuda a manter os preços das commodities em alta, uma certa queda dos juros futuros em novembro, o dinheiro estrangeiro que começou a entrar nos países emergentes e uma indústria que está se recuperando de uma maneira bastante saudável.

Para ele, existe a possibilidade de repetir em escala menor o que o país viveu no início do governo Lula, com um mini-ciclo de boom de commodities.

Segundo Castelar, a questão que não tem uma resposta clara é o que acontecerá com a poupança que famílias e empresas do setor privado juntaram em 2020. “Se vão gastar ou não, isso vai depender da vacina, e a gente vai ter de aguardar.”

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