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'Máfia' de Joinville transforma cidade em polo de startups

Empreendedores com experiência em empresas que deram certo têm feito da cidade um berço de inovação

São Paulo

Maior cidade de Santa Catarina, Joinville tem se destacado nos últimos anos como berço de startups na região, graças a uma combinação de seu histórico industrial, organizações de incentivo à inovação e uma geração de empreendedores que passaram por empresas que deram certo no passado e agora se aventuram em seus próprios negócios.

Esses empresários se apelidam de a "máfia da Informant", uma referência à "máfia do PayPal" no Vale do Silício, grupo de pessoas que saíram da companhia de pagamentos pela internet para criar seus próprios negócios, dando origem a gigantes como a Tesla, o LinkedIn, a Yelp e o YouTube. .

Guardadas as devidas proporções, um processo similar de reprodução tem acontecido na cidade catarinense. A Informant Tecnologia, no caso, é uma empresa de desenvolvimento web, aplicativos móveis e integrações de APIs criada nos anos 2000 em Joinville, e que acabou formando também um núcleo de empreendedores, alimentando o ecossistema de inovação local.

Guilherme Verdasca, presidente-executivo da fintech Transfeera, de Joinville
Guilherme Verdasca, presidente-executivo da fintech Transfeera, de Joinville - Divulgação

"Somos muito próximos de todos", diz Guilherme Verdasca, presidente-executivo da Transfeera, uma das herdeiras da Informant. Trata-se de uma fintech de gestão e processamento de pagamentos.

"Evitamos até fazer contratações de pessoas das outras empresas, mas trocamos conhecimento o tempo todo, trabalhamos juntos para resolver problemas, como questões de contabilidade, apoio para soluções anti-fraude e compliance, por exemplo."

Verdasca foi para Joinville trabalhar na ContaAzul em 2014, outra fintech que saiu da Informant. Três anos depois, juntou-se a dois colegas da empresa para criar a Transfeera. Recentemente o negócio recebeu um aporte de R$ 3 milhões liderado pela Goodz Capital e com participação da Bossa Nova Investimentos, Honey Island e Curitiba Angels. Entre seus clientes estão o iFood, o Rappi e a Unilever.

"Saímos quando a ContaAzul tinha mais de cem pessoas. Acompanhamos todo o processo de evolução de uma startup, aprendemos muito sobre como criar as coisas e estudar a dor dos usuários", diz.

Tirando Verdasca, que é de Curitiba, seus dois sócios são de Joinville, onde a empresa decidiu manter sua sede. Agora, com a pandemia, o designer considera que ela tem se nacionalizado de forma remota, com contratações feitas em outras cidades.

"Eu, pessoalmente, nunca quis ir para São Paulo, para mim não é uma opção", diz o empreendedor. "Aqui é um bom lugar para contratações, estamos perto de Curitiba, de Florianópolis. Talvez a gente até possa ter um escritório em São Paulo para reuniões com clientes pós-pandemia, mas como empresa, não pensamos em sair daqui."

O estado de Santa Catarina como um todo tem chamado atenção pelo ecossistema de inovação, com destaque para a capital, Florianópolis. Mas Joinville já desponta na 10ª posição de um ranking nacional de cidades com a maior taxa de empresas por habitante, feito pelo Observatório da Associação Catarinense de Tecnologia (Acate) e pela Neoway. São cerca de 2,4 companhias a cada mil habitantes.

Entre elas, 116 são startups, segundo um levantamento feito pela Join.Valle, instituição de fomento ao empreendedorismo local. Juntas, elas valem R$ 153 milhões e empregam 1.600 pessoas. A maior parte, 15%, são fintechs como a Transfeera, como são chamadas as startups focadas em inovações para o setor financeiro.

"Algumas empresas vão dando certo e vira exemplo para o restante e outras pessoas abrem seus negócios também. muitas cidades se preocupam em criar um ecossistema 'fake', fazer evento de vez em quando e esquecem de criar as empresas", diz Jonathan Pirovano, presidente-executivo da Motoboy.com, que antes também passou pela Informant.

Criada em 2013, sua empresa é uma plataforma online para fretes rápidos, que conecta pessoas físicas a empresas e motofretistas autônomos. O serviço tem 130 mil usuários cadastrados e recebeu investimentos da Bossa Nova, Banco BMG e CNT.

"Acho que os investidores percebem que aqui a chance de sucesso é maior", diz.

A cidade conta também com duas incubadoras e um polo de tecnologia, o Ágora Tech Park, além de se beneficiar de uma tradição industrial.

A história de Piero Contezini com a inovação em Joinville vem dessa época. Seu pai era engenheiro eletrônico e reparava mainframes nas indústrias locais na década de 1970. Contezini aprendeu a programar com 8 anos, aos 16 abriu sua primeira empresa, uma consultoria para a área de segurança e, pouco depois, fez parte da criação da Informant.

Piero Contezini, fundador da Asaas, fintech de Joinville
Piero Contezini, fundador da Asaas, fintech de Joinville - Divulgação

Mais tarde, ele faria parte também da criação da ContaAzul e da Asaas, a mais recente descendente dessa leva. Outra fintech, a empresa oferece conta digital para micro e pequenos empreendedores. Mais de R$ 3 bilhões já foram transacionados pela plataforma que, hoje, conta com mais de 51 mil clientes.

"O histórico da cidade tem muito a ver a indústria daquela época, que forçou o uso do computador e, depois, do software. Vinha só o equipamento, então tinha que ter o programador", analisa.

"O seu Miguel, fundador da Datasul, foi contratado para ser o operador de mainframe da antiga Consul com 18 anos. Meu pai era o cara que arrumava quando dava defeito". Ele se refere a Miguel Abuhab, fundador da multinacional que surgiu em Joinville no final da década de 1970 e, na ocasião, foi pioneira no desenvolvimento de soluções integradas de software. Trinta anos depois de sua fundação, a empresa foi vendida para a Totvs.

Contezini destaca ainda algumas medidas do setor público que beneficiam o desenvolvimento de startups na cidade, como a possibilidade de abrir empresas de tecnologia em áreas residenciais, o que favorece o surgimento das "empresas de garagem", e a facilitação para a entrada de teles oferecendo internet fixa.

No geral, os empresários destacam ainda como um desafio a dificuldade de contratação de mão de obra especializada -algo também premente em outras regiões do país. Mas acreditam que a tradição de Joinville na área tem ajudado a qualificar muita gente na área de tecnologia.

"Há um movimento para que a matriz econômica de Joinville saia da indústria e vá para a tecnologia. Tem gente vindo de fora para abrir escritório aqui ou para trabalhar em uma das empresas. Eu, por exemplo, estou com 70 vagas abertas", diz Contezini.

Karin Schmidlin, diretora do polo regional de Joinville da Acate, ressalta ainda como desafios a se superar o desenvolvimento de bons relacionamentos entre as empresas tradicionais e as startups que estão surgindo. Recentemente a Softville, que representa a associação, mudou suas operações para o Ágora com a função de criar essas pontes.

"Percebo que startup ajuda startups, mas há um certo distanciamento ainda entre as empresas tradicionais e as novas. Temos certa perda com isso, pois há muita indústria que precisa de tecnologia, que acaba buscando fora da cidade, do país, enquanto temos aqui uma grande número de empresas para fazer essas trocas."

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