Descrição de chapéu The New York Times

Depois dos tumultos, líderes empresariais encaram acerto de contas por apoio a Trump

Grandes empresas dos Estados Unidos aceitaram acordo faustiano com presidente

David Gelles
The New York Times

As grandes empresas dos Estados Unidos aceitaram um acordo faustiano com o presidente Donald Trump.

Quando ele dizia algo incendiário ou flertava com o autoritarismo, os presidentes-executivos mais ponderados divulgavam declarações vagas mas moralistas e tentavam se distanciar de um presidente que favorece os negócios, e cobiçava a aprovação deles.

Mas quando Trump cortava impostos, revogava regulamentações onerosas ou os usava como adereços para sessões de fotografia, eles aplaudiam a liderança dele e sorriam para as câmeras.

Depois dos acontecimentos da quarta-feira (6) no Congresso dos Estados Unidos, o custo real desse número de equilibrismo ficou claramente exposto, apesar de o gás lacrimogêneo continuar turvando o panorama.

Os executivos que sempre deram apoio a Trump terminaram posicionados como parte daqueles que facilitaram as ações do presidente, conferindo-lhe um carimbo de credibilidade convencional e ajudando a normalizar um presidente que fez com que o país se dividisse em alas inimigas.

“É isso que acontece quando subordinamos nossos princípios morais ao que entendemos como interesses de negócios”, disse Darren Walker, presidente da Fundação Ford e membro dos conselhos dos grupos Square e Ralph Lauren. “E fazê-lo termina por ser prejudicial para os negócios e para a sociedade”.

Desde o começo da presidência de Trump, o mundo dos negócios americanos vacila entre apoiar a agenda econômica do presidente e condenar seus piores impulsos.

Logo no início do mandato de Trump, dezenas de líderes empresariais se integraram a dois conselhos consultivos criados pelo presidente. Ávidos por um lugar à mesa e por influenciar políticas na direção que preferiam, presidentes-executivos de diversas empresas deixaram de lado suas reservas quanto às falhas de caráter de Trump, seu histórico de comportamento racista, as acusações de agressão sexual que pendiam contra ele, e suas declarações de impunidade legal.

“Ele é o presidente dos Estados Unidos. Acredito nele como piloto de nosso avião”, disse Jamie Dimon, presidente-executivo do JPMorgan, na época. “Eu tentaria ajudar qualquer presidente dos Estados Unidos, porque sou patriota”.

O esforço não durou muito tempo. Meses depois que os conselhos foram formados, eles terminaram dissolvidos, depois de Trump insistir em que havia “pessoas muito boas dos dois lados”, durante uma onda de violência praticada por nacionalistas brancos em Charlottesville, Virgínia.

Depois do acontecido, líderes empresariais tentaram explicar de que maneira terminaram enredados naquela confusão.

“Aderi porque o presidente me convidou, e achei que fosse a coisa certa a fazer como presidente-executivo de uma companhia como a Merck”, disse Ken Frazier, um dos executivos negros mais proeminentes dos Estados Unidos, pouco depois de deixar o conselho. “Mas terminei por considerar que, por uma questão de consciência pessoal, não podia continuar a fazer parte”.

Mas o dinheiro tem memória curta, e não demorou muito tempo, depois de Charlottesville, para que Trump voltasse às boas graças no mundo corporativo americano. Poucos meses depois do acontecido, o governo Trump aprovou uma reforma tributária que beneficiava as empresas e os indivíduos de alto patrimônio.

Ao baixar os impostos das empresas, Trump propiciou à comunidade empresarial um de seus objetivos mais desejados, e líderes empresariais fizeram fila para elogiar a medida.

Em visita à Casa Branca em outubro de 2017, Tom Donohue, presidente da Câmara de Comércio dos Estados Unidos, expressou enorme satisfação diante da perspectiva de cortes de impostos. “A comunidade empresarial vem esperando há muito tempo por um governo, um presidente e um Congresso dispostos a fazer aquilo que não fixemos nas últimas décadas”, ele declarou.

Mas ao desfrutarem da riqueza adicional adquirida dessa maneira, as companhias terminaram muito mais próximas de uma Casa Branca que estava separando crianças de suas famílias na fronteira dos Estados Unidos, e se acomodando a regimes ditatoriais estrangeiros.

“O corte de impostos de Trump foi ouro dos tolos”, disse Howard Schultz, antigo presidente-executivo da Starbucks, na quinta-feira. “As pessoas se deixaram seduzir e infelizmente decidiram, em seu benefício e em benefício de suas empresas, que essa era a coisa certa a fazer”.

Em 2019, era como se Charlottesville jamais tivesse acontecido, e um novo conselho consultivo de empresários foi formado, este envolvendo figuras como Tim Cook, presidente-executivo da Apple, Doug McMillon, presidente-executivo do Walmart, e Julie Sweet, presidente-executiva da Accenture.

Na primeira reunião, Cook se sentou ao lado de Trump. Quando o presidente tocou levemente o pulso de Cook e pediu que ele abrisse o debate, o chefe da Apple disse: “Obrigado, senhor presidente, é uma honra fazer parte desse conselho”.

Na mesma reunião, Al Kelly, presidente-executivo da Visa, cumprimentou Trump por sua liderança “muito, muito boa”, e Ginny Rometty, então presidente-executiva da IBM, também cobriu o presidente de elogios por sua “liderança determinada”.

Alguns daqueles executivos haviam criticado Trump severamente, no passado, por seu comportamento. Mas lá estavam eles, na Casa Branca. Era como se os piores momentos da presidência de Trump tivessem sido só um pesadelo.

“Os últimos quatro anos ofereceram sérios desafios aos presidentes-executivos que precisam balancear a promoção de políticas que ajudem o país a progredir, e ao mesmo tempo se pronunciar vigorosamente sobre questões que violam seus princípios essenciais”, disse Rich Lesser, presidente-executivo do Boston Consulting Group, que participou de um dos primeiros conselhos consultivos de Trump.

No entanto, os executivos se viram reduzidos a praticar a mesma ginástica mental e o mesmo laconismo seletivo que os partidários socialmente progressistas de Trump tiveram de adotar nos últimos anos, elogiando as políticas econômicas do presidente em momentos oportunos, mas ao mesmo tempo ignorando suas falhas fundamentais.

Essa barganha essencial foi bem articulada no ano passado por Stephen Ross, incorporador imobiliário bilionário do projeto Hudson Yards e dono do time de futebol americano Miami Dolphins, que apoiou Trump na eleição. “Acho que ele foi um pouco divisivo”, disse Ross em uma entrevista antes do pleito. “Mas creio que muitas das políticas econômicas que implementou foram fantásticas, e ninguém mais, além dele, poderia tê-las promovido”.

A pandemia gerou novas poses para fotos ao lado do presidente, da parte de executivo conhecidos. McMillon, do Walmart, posou com Trump no Rose Garden da Casa Branca. O presidente visitou Bill Ford, presidente do conselho da Ford, em uma fábrica em Michigan. E Chris Nassetta, presidente-executivo dos hotéis Hilton, foi fotografado ao lado do presidente na sala do gabinete.

Enquanto Trump mentia sobre a a resposta de seu governo à pandemia e fazia o possível para subverter o processo democrático, houve pessoas do mundo dos negócios que mantiveram seu apoio. Mesmo quando o presidente passou a se recusar a aceitar os resultados da eleição, Steve Schwarzman, presidente-executivo do grupo Blackstone e um dos mais leais aliados de Trump, divulgou declarações nas quais afirmava compreender por que havia pessoas preocupadas com irregularidades eleitorais. No final de novembro, ele divulgou um comunicado no qual afirmava que “o resultado está muito claro, hoje, e o país deve seguir em frente”.

Na quarta-feira, muitos presidentes-executivos pareciam ter chegado ao fim de sua paciência. A Associação Nacional da Indústria apelou ao vice-presidente Mike Pence que considerasse invocar a 25ª emenda à constituição dos Estados Unidos, e remover Trump do posto. Muitos executivos – entre os quais Cook, da Apple, Dimon, do JPMorgan, e Schwarzman – denunciaram a violência, lamentaram a situação do país, e exigiram que os responsáveis prestassem contas.

Mas depois de quatro anos de muita conversa e nenhuma ação, suas declarações soavam vazias.

“Quando pessoas tomam decisões políticas por motivos de negócios”, disse Walker, “as consequências sociais podem ser desastrosas”.

​The New York Times, tradução de Paulo Migliacci

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