Vale distribui R$ 34 bi em dividendos, mas atrasa reparos a vítimas de acidentes

Mineradora retoma operação em minas paralisadas e tem lucro impulsionado por demanda chinesa

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Rio de Janeiro

Nos dois anos que se seguiram à tragédia que deixou 272 mortos em Brumadinho (MG), a Vale já anunciou o pagamento de R$ 34,2 bilhões em dividendos a seus acionistas. Com a retomada da produção que foi paralisada após o rompimento da barragem, a expectativa é que a remuneração permaneça em alta.

A remuneração dos acionistas ocorre enquanto vítimas dos atingidos pelas duas tragédias em barragens relacionadas às empresas reclamam de atrasos em indenizações e da ausência das vítimas nas negociações para o acordo fechado pela empresa com o governo de Minas Gerais para compensar os danos.

Na terça (2), o Ministério Público de Minas Gerais pediu multa diária de R$ 1 milhão à fundação Renova, responsável pela reparação dos danos da tragédia de Mariana (MG), em 2015, por atrasos na entrega de novas residências para os desabrigados.

Do total de dividendos anunciados pela Vale após a tragédia de Brumadinho, R$ 12,4 bilhões já foram distribuídos, como retorno aos acionistas pelos lucros registrados no primeiro semestre de 2020. Em 25 de fevereiro, a companhia informou que pagará mais R$ 21,8 bilhões, referentes ao resultado do segundo semestre.

Em agosto de 2020, a companhia distribuiu outros R$ 7,25 bilhões, mas referentes ao desempenho de 2018, antes da tragédia. O pagamento havia sido suspenso após o rompimento da barragem da mina Córrego do Feijão, que ocorreu no fim de janeiro de 2019.

No balanço de 2020, divulgado no dia 25, a empresa diz já ter destinado mais de R$ 13 bilhões para pagamento de indenizações aos atingidos em Brumadinho. No início de fevereiro, a empresa fechou acordo com o governo de Minas Gerais prevendo o desembolso de R$ 37 bilhões em medidas de reparação.

A Vale afirma ainda que, junto à BHP, sua sócia nas operações da Samarco, em Mariana, já gastou R$ 11,3 bilhões em iniciativas de reparação e compensação das partes atingidas pelo rompimento da barragem em 2015.

O trabalho de reparação, feito por meio da Renova, porém, é questionado pelo Ministério Público, que já pediu a extinção da fundação por "problemas de governança da entidade, traduzidos em desvio de finalidade e ineficiência", alegando que as contas da entidade já foram reprovadas quatro vezes.

Na divulgação do balanço de 2020, a direção da companhia frisou que mantém foco na remuneração de seus acionisas e que, mesmo após o acordo bilionário referente a Brumadinho, conseguiu dar um retorno melhor do que o de seus concorrentes.

"Se considerar o segundo semestre de 2020 e o primeiro de 2021, a Vale terá pago US$ 7,3 bilhões", disse o diretor financeiro da mineradora, Luciano Siani. "Mesmo num momento em que a companhia colocou sob seus ombros um conjunto imenso de compromissos, a companhia sinaliza aí com dividendos de US$ 7,3 bilhões".

O presidente da empresa, Eduardo Bartolomeo, afirmou que a estratégia é devolver ao acionista parte significativa da geração de caixa. Em 2020, a Vale registrou lucro de R$ 26,7 bilhões e conseguiu recuperar a produção perdida com a paralisação de minas após a tragédia de Brumadinho.

O desempenho, em meio à pandemia do novo coronavírus, foi impulsionado pela elevada demanda chinesa por minério, o que empurrou o preço de referência para o minério da companhia a US$ 134 por tonelada no quarto trimestre, alta de 50% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Veio acima das expectativas do mercado, que considera a conclusão do acordo de Brumadinho um ponto de inflexão, por precificar o custo da remediação e reduzir as incertezas sobre as finanças da empresa.

Com o retorno de algumas operações que haviam sido paralisadas após a tragédia, a produção de minério da Vale chegou a 84,5 milhões de toneladas no quarto trimestre de 2020, 7,9% a mais do que nos últimos três meses de 2019.

Atualmente, não há mais restrições legais para a operação de suas minas e a produção foi retomada, ainda que parcialmente, em todas elas. A expectativa da empresa é fechar 2021 com uma produção média de até 335 milhões de toneladas, o que representaria alta de 11% em relação ao ano anterior.

Em 2022 a empresa prevê chegar a 400 milhões de toneladas por ano, meta que havia sido prevista para 2019, mas acabou adiada após a tragédia.

Com a melhora dos indicadores, o valor das ações da companhia já é bem superior ao registrado antes da tragédia. Nesta sexta (5) os papéis chegaram a bater R$ 100, quase 80% a mais que os R$ 56,14 verificados no dia anterior ao rompimento da barragem.

A Renova afirma que o atraso na entrega das residências foi provocado pela desmobilização de parte dos trabalhadores para seguir protocolos sanitários em razão da Covid-19, o que provocou a necessidade de reprogramação das atividades.

A fundação diz ainda que suas contas são verificadas "por auditorias externas independentes, que garantem transparência no acompanhamento e fiscalização dos investimentos realizados e dos resultados alcançados".

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